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Estou Pensando em Acabar com Tudo | O que é real e o que é viagem no filme?

Laísa Trojaike
·8 minutos de leitura

Estou Pensando em Acabar com Tudo chegou à Netflix dando nós na cabeça de todo mundo e não é à toa: o filme é surrealista e não segue a lógica linear clássica aplicada na maioria dos filmes que assistimos. A partir disso, algumas teorias surgiram na internet e nós do Canaltech, que ficamos com a cabeça em frangalhos também, vamos tentar ajudar a dar uma luz. Mas, calma. A luz nem sempre é a solução correta. Pensemos juntos.

Como roteirista, Charlie Kaufman bugou muitas mentes com Quero ser John Malkovich (1999) e conquistou corações com Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004). Como diretor, seus trabalhos são mais conhecidos entre os cinéfilos. Seu primeiro filme, Sinédoque, Nova York (2008) é nada simples e também deixa os neurônios do espectador perturbados. Depois disso, ele fez How and Why (2014) para a TV, um filme que ficou perdido por aí e passou longe dos nossos cinemas e TVs.

Kaufman voltou a ser mais comentado somente em 2016, quando a sua animação Anomalisa (2015) foi indicada ao Oscar de Melhor Animação, ano em que concorreu com o vencedor Divertida Mente, da Disney-Pixar; o stop-motion Shaun, o Carneiro: O Filme; As Memórias de Marnie, do Studio Ghibli; e com o brasileiro O Menino e o Mundo — foi um ano de animações incríveis, não?

Anomalisa (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)
Anomalisa (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

O diretor retornou este ano com Estou Pensando em Acabar com Tudo, que é, provavelmente, o seu filme mais amplamente visto, no sentido de ter um público mais diverso, o que foi possibilitado pelo formato da Netflix. Afinal, muitas pessoas que cederam à curiosidade de assistir a esse título muito provavelmente não teriam se aventurado se precisassem pagar por um ingresso. O resultado disso, claro, foi o burburinho nas redes sociais, com diversos assinantes contribuindo com suas próprias teorias e, enfim, algumas dessas acabaram ganhando força.

Em Estou Pensando em Acabar com Tudo, Jessie Buckley interpreta uma jovem que parte em uma pequena viagem com seu namorado (por isso é também um road movie) e, desde o princípio, expõe sua intenção de acabar com tudo, com o relacionamento, mas não toma a iniciativa e acaba entrando cada vez mais na vida de Jake (Jesse Plemons). O que já era estranho no início fica ainda mais esquisito quando eles chegam ao destino, a casa dos pais de Jake, e a partir dali é viagem pura. Ou não?

É claro que nem tudo o que vemos é real e, já no trailer, o cachorro que não para de se sacudir parece ser o principal indício disso. O que é real, então? E o que é apenas imaginação, sonho, viagem, metáfora ou qualquer coisa do gênero? Vamos às possibilidades, mas, entes de ler, tenha em mente que esta é apenas um caminho de interpretação e não uma verdade absoluta. Vale lembrar que a Netflix divulgou um vídeo em que nem sequer o elenco consegue explicar o filme.

O que (talvez) não é real?

Quando eles chegam à casa dos pais, eles são, à primeira vista, bizarros e caricatos, como se os seus defeitos estivessem sendo potencializados. Fica a dúvida se eles são vistos daquela forma por Jake, que estaria com vergonha, pois é a primeira vez que leva a namorada para conhecê-los, ou se é uma visão da namorada, que tem um choque ao conhecê-los e começa a ter visões de como seria ter aquelas pessoas em sua vida, já que ela nunca leva adiante a ideia de terminar o relacionamento. De qualquer modo, o filme nos faz acreditar que tudo é a visão dela, já que a narração acontece em primeira pessoa, com nós, espectadores, tendo acesso à mente dela.

Tudo começa a mudar um pouco se mudarmos, na nossa cabeça, a ideia de que ela não é a protagonista. Algo que corrobora isso é o fato de que ela sequer tem nome e até nos créditos é referida apenas como “jovem mulher”. Uma das teorias é de que estamos sendo inseridos dentro de uma projeção da cabeça de Jake, um misto do próprio Jake com o que ele pensa que a sua companheira está pensando. Companheira essa que pode nem ser real.

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Os road movies geralmente levam os personagens por um caminho que os tira da zona de conforto, fazendo personagens e espectadores se questionarem sobre suas vidas diárias e as possibilidades de mudança pelo contato com algo fora do seu normal. A viagem de Estou pensando em acabar com tudo tem indícios de ser uma viagem que não acontece na estrada, mas dentro da mente de Jake (ou outro personagem) e há um elemento técnico que reforça essa ideia: não parece haver interesse por parte da direção do filme de esconder que todas as sequências do carro são gravadas em estúdio: o fundo, o movimento do carro, a relação dos personagens com o exterior são tão falsos que lembram os filmes antigos que ainda não haviam desenvolvido a técnica o suficiente para causar a ilusão de realidade.

Partindo dessa perspectiva, Jake poderia estar vivendo um misto de desejo e medo. O desejo de um relacionamento e o receio de que ela (ou qualquer outra pessoa) não estaria disposta a viver com ele, traços expostos inicialmente nos pais, que vão de uma imagem ridícula (através da vergonha de Jake) à vulnerabilidade da velhice (e o medo de Jake de que, ao formar uma nova família com a namorada, essas realidades irão se somar).

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Na loja de sorvetes no meio da estrada, um novo elemento da vida de Jake surge: as duas atendentes que aparecem primeiro poderiam ser uma referência ao bullying sofrido por ele na infância, enquanto a terceira, que tem as mesmas marcas que ele (fruto do bullying?) é a única pessoa que o trata bem por motivos de identificação, por terem passado pelas mesmas coisas.

Algumas interpretações apontam que nem sequer o próprio Jake seria real ou pelo menos a sua versão mais jovem, que seria sua própria projeção, feita por ele mais velho e pensando sobre o passado.

Mas o que seria real, então?

O zelador da escola. O roteiro solta diversas ligações entre Jake e o zelador, o que também pode ter múltiplas interpretações. No início, inclusive, é como se a namorada visse o futuro de Jake e sua potência de chegar a lugar nenhum e viver da alegria de ver os alunos, ano após ano, interpretando Oklahoma!.

Tudo o que o zelador vê seria real e todas as coisas loucas que acontecem seria ele repensando a sua vida. Nesse sentido, o filme seria uma reflexão sobre os medos que o impediram de ter a vida que aparece na cena final, em que ele se torna um professor acadêmico e tem sucesso (e mesmo esse sucesso é tratado com ironia e demonstra que o personagem vê com mediocridade as suas possibilidades de vida).

Imagem: Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Essa interpretação nos permite ver o filme como uma reflexão profunda sobre os efeitos que os traumas de infância podem ter na vida adulta. Jake, por medo do envolvimento, por medo de trazer uma pessoa para dentro dos seus próprios problemas, é mostrado como uma pessoa presa ao passado e sozinha. Interpretar Estou pensando em acabar com tudo pelo ponto de vista da namorada, no entanto, nos dá uma perspectiva com relação ao futuro do relacionamento. E o tempo, é um dos pontos levantados pelo próprio roteiro.

O que é certeza?

Nada. Essa possibilidade de leitura do filme é apenas isso, uma possibilidade. A raiz surrealista do filme não nos permite ter certeza de nada. Para quem quer entender melhor o que isso significa, podemos recorrer aos nomes mais famosos do movimento. Veja uma obra de Salvador Dalí ou o curta Um Cão Andaluz (1929) de Luis Buñuel. O surrealismo tem, inclusive, manifestos com frases como “A mania incurável de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, só serve para entorpecer cérebros.” e “Hoje em dia, os métodos da lógica só servem para resolver problemas secundários”.

Isso não significa que Charlie Kaufman fez qualquer coisa que pode ser visto de qualquer jeito. Significa apenas que há uma recusa de explicar e deixar tudo claro. E, se não está claro, significa que podemos fazer as nossas próprias conexões. É como se estivéssemos diante de um ambigrama, uma grafia que, lida de perspectivas diferentes, nos permite a leitura de palavras diferentes. Como um filme é bem mais complexo que um ambigrama, podemos dizer que é possível pegar pontos de partida diferentes para chegar a conclusões distintas.

Qual é a sua interpretação?

Para quem quiser conferir agora, o filme está disponível no catálogo da Netflix, então é só clicar aqui e apertar o play.

Fonte: Canaltech

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