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Estoques retardam repasse da alta do dólar ao consumidor, diz comércio

PAULA SOPRANA E EDUARDO CUCOLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A escalada do dólar, que encostou em R$ 4,67 nesta quinta (5) e acumula alta de 15,6% no ano, deixa o comércio dependente da importação em alerta, embora altas de preços não tenham sido repassadas ao consumidor.

A cadeia de trigo amarga um aumento de 15% a 20% no custo -o câmbio não é o único fator, mas figura entre os principais. A elevação deve pressionar o preço da farinha e, por consequência, de pães, biscoitos e massas.

Os moinhos já transferem parte deste custo ao preço da farinha, mas as fabricantes de alimentos ainda resistem em precificar a alta nos produtos.

"Até agora, não repassou o valor ao pão e à massa. Isso geraria um efeito inflacionário, aumentaria o custo da cesta básica. A questão é como as fabricantes vão lidar com esse aumento ao consumidor", diz Rubens Barbosa, presidente da Abitrigo, que reúne a indústria brasileira do cereal.

A variação cambial foi de 9,5% nos primeiros 60 dias do ano, o que levou os moinhos à revisão da política de preço.

A expectativa da indústria é de um "cenário sombrio" a partir de maio. Isso porque os moinhos brasileiros têm estoques de três meses. Das 11 milhões de toneladas de trigo consumidas por ano no Brasil, 7 milhões vêm do exterior.

O setor já transmitiu preocupação aos ministérios da Economia e Agricultura, que examinam o que poderá ser feito, de acordo com Barbosa.

As padarias de São Paulo não sentiram o impacto, segundo Rui Manuel, do sindicato que reúne a indústria de panificação e confeitaria.

"O quilo do pão francês permanece o mesmo desde o meio do ano passado, de R$ 10 a R$ 13. Se repassar, não vende. O mercado não aceita aumento. As empresas não passaram às padarias."

Outro setor dependente de exportação, o varejo popular, que compra diversos itens da China, também não registrou alta nos preços, porque os estoques estão dando conta da demanda. Lojistas dizem que não dá para prever até quando é possível segurar os valores.

"Neste momento, está ok, mas o cenário vai mudar. Estamos favorecidos porque compramos muito antes da disparada, mas isso é por tempo limitado", afirma Ondamar Ferreira, gerente da Armarinhos Fernando, um dos maiores pontos de venda da rua 25 de Março, em São Paulo.

O problema pode ocorrer quando acabar o estoque de brinquedos -no estabelecimento, 90% vêm da China.

Segundo o dirigente, será preciso deslocar a demanda para produtos nacionais. Com o surto do coronavírus, muitas mercadorias não saem do país asiático e o que está na importadora precisa absorver a elevação do dólar.

"Não sabemos se o lojista vai repassar para o preço final ou segurar o prejuízo. Produtos da China, que deveriam chegar em dezembro, estão chegando agora. É muita incerteza", diz Claudia Urias, assessora executiva da Univinco, entidade que reúne lojistas da 25 de Março.

Alguns produtos podem acabar em breve nas lojas com a demora dos embarques na China. É inevitável que as novas levas de compra saiam mais caras ao lojista com o dólar nesse patamar.

"O pessoal entrou com expectativa boa, aí veio chuva, coronavírus e dólar. Bom é que muitos compraram com antecedência."

Na conjuntura de dólar e coronavírus, o turismo é um dos segmentos que mais deve ser impactado, em especial o corporativo, devido às restrições de viagens de negócios. O dólar não afetou o faturamento do setor em janeiro, mas o surto do vírus pode trazer efeitos no médio prazo.

"A alta do dólar está direcionando o passageiro para outros lugares", diz Aldo Leone Filho, presidente da Agaxtur, agência de viagens e turismo. Apesar da substituição, há quem prefira adiar a viagem, o que acarretaria num cenário de demanda represada.

"As pessoas têm medo de viajar para fora e gastar muito. Mas hoje temos conseguido negociar 20%, 25% de desconto. O destino também muda. Sai de Europa e vai para Caribe, Atacama, Bariloche, onde hotel e avião ficam baratos."

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, estima um impacto no IPCA (índice de preços ao consumidor) de 0,12 ponto percentual a cada 10% de desvalorização.

A moeda já perdeu cerca de 15% de valor, o que elevaria esse efeito para quase 0,20 ponto percentual, para uma meta de 4% (com margem de erro de 2,5% a 5,5%).

Na semana passada, a projeção do boletim Focus para o câmbio no final do ano, com economistas consultados pelo Banco Central, subiu de R$ 4,15 para R$ 4,20.

"A expectativa ainda é que o câmbio volte para um patamar um pouco menor. Mesmo com essa oscilação, não há preocupação para o cumprimento dessa meta de 4%."