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Estado interventor é principal ressalva de economistas a discurso de Lula

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os discursos de posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo (1º) foram recebidos com ressalvas por analistas do mercado financeiro, que se preocupam com a expectativa de um governo muito interventor na economia.

Em pronunciamentos no Congresso e no parlatório do Palácio do Planalto, o petista defendeu o papel do Estado como indutor de crescimento, chamou o teto de gastos de estupidez e falou em nova lei trabalhista.

De modo geral, o balanço é que o discurso não trouxe muitas novidades em relação à agenda econômica historicamente alinhada ao partido e às promessas de campanha. No entanto, a incerteza sobre como o governo vai conduzir as mudanças pretendidas é vista com apreensão.

Para Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, o primeiro discurso de Lula como presidente empossado é positivo, mas deixa algumas dúvidas sobre como será a atuação prática.

"Obviamente não dava para esperar do presidente, neste momento, nada muito específico. Não é o local e não é o foco, mas deixa um pepino para o [Fernando] Haddad lidar", diz.

Um dos pontos a ser encarado pelo ministro da Fazenda que causam preocupação, na visão dele, é a configuração de uma nova regra do teto de gastos.

"Está na mão do Haddad entregar alguma coisa crível nas próximas semanas", diz. "Espero que, quando o presidente fala em estupidez, seja em relação a esta regra que temos agora, não para qualquer regra de gastos."

Outro ponto que assusta, na visão dele, é a revisão da lei trabalhista, já que não há clareza sobre os itens que Lula pretende mudar.

"Tirando essas questões econômicas, o discurso é positivo, comparado com o que vimos nos últimos quatro anos. Voltar à normalidade democrática no país é importante para o horizonte de investimento e de crescimento. Lula traz de volta a estabilidade democrática, o que precisamos ter também é estabilidade macroeconômica", diz.

Rafael Pacheco, economista da Guide Investimentos, vê de forma oposta. Para ele, o discurso tende mais para o lado negativo. "Lula reforçou muito o ponto do Estado mais interventor para girar a roda da economia", diz.

Na visão do economista, Lula se balizou pela questão da fome ao justificar a importância do Estado na economia, assim como o Bolsa Família turbinado e o financiamento do consumo da população pobre.

"Podemos dizer que Lula está apontando para as bases econômicas de seus governos [anteriores]", afirma.

Pacheco faz ressalvas à promessa de Lula de reativar bancos públicos e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) como empresas indutoras de crescimento. Além disso, enfatizar o consumo popular como um dos motores da economia não é necessariamente uma regra que funciona sempre, diz.

"Isso depende do momento. Sabemos que o momento atual não é o mesmo daquela época [governos anteriores do Lula]. As condições financeiras externas não estão tão boas, commodities estão caindo e o desemprego, embora elevado, está abaixo do nível de equilíbrio."

Em relação à crítica ao teto de gastos, Pacheco disse não ter visto muita novidade. O que preocupa, porém, é o vigor com que a crítica foi feita, assim como as possíveis mudanças na lei trabalhista. "Se for uma alteração muito grande pode gerar mais inflação e mais juros", argumenta.

Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, considera que trechos do discurso de Lula podem acrescentar mais volatilidade a um início de ano que já reservaria preocupações devido a algumas discussões esperadas, como a da reforma tributária e, principalmente, sobre uma regra que possa substituir o teto de gastos.

"Viveremos momentos de incerteza até entender qual será o novo instrumento. Isso coloca prêmio na curva de juros, acaba desvalorizando o mercado acionário e gerando pressão no câmbio", diz.

Abdelmalack afirma que a retomada de uma política de industrialização e a menção de Lula à participação das empresas públicas também pode ampliar temores entre investidores quanto ao uso político das estatais, em especial, sobre os bancos públicos.

"Esse é um aspecto que preocupa bastante por conta do descontrole ocorrido em governos petistas anteriores."

"Há também o que diz respeito à Petrobras. Lula afirma que a estatal terá um papel importante neste novo ciclo e a preocupação que isso gera não é apenas sobre a política de preços da empresa, mas também quanto à repetição de extravagâncias do passado", comenta a economista. "Teremos muita volatilidade no mercado neste início de 2023 até que possamos entender o que é fato e o que é boato."

Nicola Tingas, consultor econômico da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), afirma que os objetivos expostos no discurso de Lula precisam ser "melhor delineados e melhor apresentados". Para ele, a ideia volta ser a do Estado como indutor do crescimento para que gere emprego.

"Tem uma lógica de atender principalmente a uma grande massa de desempregados, de famintos, de pessoas que estão isoladas na economia depois de dez anos de um período econômico muito ruim, que aumentou a desigualdade. Sob o ponto de vista de escolha econômica e social faz todo o sentido. A questão é como fazer isso", diz Tingas.

O consultor acredita que, sozinho, o Estado "não tem fontes suficientes para bancar isso, pelo contrário". "Depois de todos os gastos da pandemia e no ano de 2022 nós temos uma situação fiscal precária e que a gente precisa mostrar como que vai compatibilizar o Orçamento da União no futuro com a necessidade de gastar dentro de uma regra razoável de forma que mantenha sustentabilidade da dívida pública a médio e longo prazo?"

Sobre a fala de Lula de o teto de gastos ser uma estupidez, Tingas diz que "tentar criar uma leitura contundente contra o teto não é a resposta". "Se o teto tem problemas, coloque outra regra. A gestão do orçamento público do lado da receita é primordial. Evidentemente está amarrado a isso a reforma tributária", aponta o consultor da Acrefi.

Sérgio Leitão, fundador e diretor executivo do Instituto Escolhas, avalia o discurso de posse de Lula como um pronunciamento extremamente importante, que traz de volta um cenário de normalidade democrática.

"O que resta para verificarmos é como os pontos anunciados hoje vão se equilibrar numa ação efetiva de governo", afirma.

Ele menciona, por exemplo, a promessa de zerar o desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa na matriz elétrica, que vão exigir uma boa interlocução com o agronegócio e o Congresso.

Sobre as críticas que o petista fez ao teto de gastos, Leitão pondera que a fala é condizente com o que foi discutido durante a campanha, o que inclui a necessidade de resolver questões socioeconômicas urgentes. "Eu faço um anteparo entre o que foi dito no discurso com o que o ministro da Fazenda tem afirmado, de que nós vamos ter responsabilidade no Orçamento."

Leitão ainda faz ressalvas aos grandes incentivos ao consumo. "Nos governos Lula 1 e 2, nós chamamos atenção que a vida das pessoas melhorou da porta para dentro, mas não necessariamente da porta para fora", diz. "Só incentivar o consumo não diz respeito mais ao conjunto de necessidades que o país enfrenta", acrescenta.

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, destaca como dois grandes temas do discurso do novo presidente a diplomacia brasileira e a situação das pessoas vulneráveis. "O foco do discurso do Lula não estava na parte econômica."

A economista vê como "extremamente relevante" Lula mencionar que o Brasil precisa voltar a fazer parcerias bilaterais e multilaterais e ter uma política ativa e de protagonismo.

"Isso é considerado fundamental pelos investidores na hora de definir alocação de recursos e parcerias. [O discurso] Mostra uma mudança em relação do Brasil com outros países do mundo", afirma.

"De forma muito mais enfática, ele falou da situação da população que compõe a base da pirâmide social. Ficou muito claro que se houver qualquer empecilho jurídico ou político para a implementação de políticas sociais, desatar esse nó será buscado à exaustão pelo novo governo. Se existia alguma dúvida sobre isso, ficou para trás com o discurso de hoje."

Piter Carvalho, chefe de mesa da Valor Investimentos, afirma que Lula reforçou em seu discurso a tese desenvolvimentista.

"O mercado não vê com bons olhos esse modelo econômico e por isso aumenta sua desconfiança, principalmente, em relação às estatais, destaco Petrobras e Banco do Brasil", diz.

Ele afirma que o mercado teme uma interferência para os preços e espera que os dividendos não sejam tão altos, embora veja potencial para a Petrobras em um cenário de menor oferta de petróleo nos próximos anos.

"O Banco do Brasil também tem um enorme potencial, principalmente no setor agro, mas deve ser um braço das políticas públicas do novo governo. Então o mercado vê com uma certa desconfiança de como vai ser, se vai dar lucro ou não", diz Carvalho.