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'Espero que seja a última criança morta pela Polícia Militar', diz primo de menino de 14 anos morto no Campinho; moradores acusam PMs

Arthur Leal
·7 minuto de leitura

RIO — Estudante do 4º ano do ensino fundamental, que cursava na Escola Municipal Edgard Romero, em Madureira, torcedor fanático do Flamengo. O menino Ray Pinto Faria, de 14 anos, segundo a família, era sonhador, e tinha como sua maior meta dar uma vida melhor à sua família, principalmente para sua mãe, sua avó e seus dois irmãos, uma caçula de 12 anos e um mais velho de 17. Seu hobbie predileto só não era jogar bola com os amigos da comunidade do Campinho, onde vivia, porque a paixão por um joguinho de celular vinha conquistando maior espaço em seu coração. E a brincadeira no aparelho era, inclusive, o que o garoto fazia, segundo os parentes, quando acabou sendo abordado e levado por policiais militares, na madrugada desta segunda-feira, durante uma operação na favela. A família, que acusa a PM, só o encontraria horas depois, já morto, baleado, no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier.

Na manhã desta terça-feira, por volta das 11 horas, parentes do rapaz estiveram no Instituto Médico-Legal do Rio (IML), onde fizeram a liberação do corpo. Por enquanto, ainda não há definição sobre o enterro do jovem, que deve acontecer nesta quarta-feira. Primo de Ray, o estudante Lucas Isaías da Silva, de 19 anos, foi o porta-voz da família na saída do local.

— O sonho dele era dar uma boa condição para a família, que é carente. Dar boas condições para a mãe, para a vó, para os irmãos. Nós só queremos justiça, porque uma criança que tinha uma vida toda pela frente teve a vida perdida. Sonhos que ele tinha foram perdidos. A mãe dele tinha acabado de buscar o kit-escolar dele, que está em casa. E agora, quem irá usar esse kit-escolar? Hoje, a minha prima (mãe de Ray, Alessandra Pinto) chora, minha família chora. E hoje é a minha família, mas amanhã, podem ser outras. Vão continuar crianças morrendo? Eles (Polícia Militar) matando sem mais nem menos e nossa justiça não será feita? — lamentou Lucas, emocionado. — Nosso sentimento é de revolta. Como foi com outras crianças pretas, faveladas, negras, hoje foi com o Ray. Mas espero que seja a última criança morta pela Polícia Militar.

O primo do adolescente conta que chegava de um pagode que frequentava na região, por volta das 4h40m da manhã de segunda-feira, quando foi abordado com truculência por policiais, que já faziam incursão na comunidade. Daí em diante, segundo seu relato, parentes e moradores o procuraram, e começou uma espécie de via crucis para encontrar Ray, que desapareceu logo depois.

— Eles (policiais) me renderam sem mais nem menos, sem me perguntar se eu era (bandido), se não era, me deram tapas na cabeça e me botaram para casa. Às 6h, recebi mensagens no celular me dizendo que os policiais teriam encontrado o Ray na porta de casa e estariam andando com ele pela comunidade, a pé — disse.

Rastros de sangue e lençol branco

Ele diz que moradores encontraram rastros de sangue numa localidade do Campinho conhecida como Escadão, que, segundo o relato destas pessoas, teria sido o último lugar onde Ray foi visto com vida, andando com policiais militares. Lucas narrou os momentos de aflição.

— Eu saí de casa e encontrei com a minha prima, Alessandra (Pinto), mãe do Ray. Ela ja estava à procura do Ray e os policiais diziam que não sabiam, e que não tinham visto nenhuma criança. Então, logo, nós fomos de ponta a ponta da comunidade, em busca do Ray, mas nós não conseguimos achá-lo. Eles (PMs) mandaram irmos à 28ª DP, 29ª DP e caçarmos em hospitais, que eles não tinham pego ninguém — disse. — Nós encontramos rastros de sangue no Escadão, onde ele foi visto por último com os policiais. Nós tínhamos descido (a comunidade) e os policiais disseram que não tinha ferido, não tinha acontecido nada. Aí outras pessoas disseram que tinha uma pessoa morta embaixo do Escadão. Nós corremos para lá e, quando chegamos, já não tinha corpo algum.

Lucas revelou ainda que os moradores desconfiaram porque, pouco antes, PMs teriam pedido um lençol branco para uma moradora, momentos depois de eles terem ouvido dois tiros.

A busca da família por Ray só terminou, segundo o rapaz, quando os parentes resolveram procurá-lo no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, para onde estavam sendo levados feridos na operação.

— Encontramos o Ray morto com dois tiros, um no abdomen e outro na perna, no Hospital Salgado Filho. E foi aí que o médico falou que ele deu entrada com mais dois bandidos do Morro do Dezoito. Ele entrou como se fosse um bandido, como se tivesse trocado tiros. Ele, uma criança, de 14 anos. Ele estava sentado no portão e foi pego pelos policiais. Até agora eles negam e alegam que nenhuma criança morreu na comunidade do Campinho — afirmou o primo.

Celular do menino teria desaparecido

De acordo com ele, o celular que Ray carregava sempre com ele, e tinha em mãos no momento em que teria sido levado, sumiu. A família nega, também, que o rapaz tivesse qualquer envolvimento com a milícia, que disputa território com o tráfico de drogas na região.

— Estão falando que o Ray era cobrador de imposto. Não era. Uma criança feliz, alegre, um morador. Não era miliciano, é mais um morador que a PM matou — disse.

Outra questão levantada pelos parentes e por moradores foi em relação às câmeras de segurança de uma padaria, que poderiam ter flagrado, tanto a abordagem ao jovem pela comunidade, quanto uma suposta ação de truculência de agentes durante a manifestação feita pela comunidade após a morte do rapaz, quando 29 pessoas foram detidas, na tarde de segunda-feira.

— A câmera de segurança eles (PMs) modificaram, levaram todo equipamento de segurança da padaria, e inclusive, ameaçaram as pessoas, mas não deixaram nenhum rastro. Somente os cabos ficaram — contou, mostrando as fotos que tirou dos equipamentos supostamente destruídos.

Questionada, a PM afirmou apenas que todas as circunstâncias das ações estão sendo apuradas internamente pelo Comando de Operações Especiais (COE) e pelo 1° Comando de Policiamento de Área (CPA). E que todas as ocorrências foram apresentadas nas 24ª DP, 25ª DP e Delegacia de Homicídios da Capital. Na ação, a Polícia Militar reconhece que morreram três suspeitos, sendo um menor de idade, mas não confirma oficialmente que tratava-se de Ray. A corporação também não especifica onde cada uma dessas pessoas morreu — a ação de segunda-feira foi realizada nas comunidades do Caixa D' Água, Camarista Méier, Campinho, Fubá, Lemos Brito, Morro do Dezoito, Morro do Urubu e Saçu.

Nesta terça-feira, inclusive, a família de Ray atrasou sua ida ao IML por conta de confrontos, mais uma vez, região do Campinho. Procurada, a PM negou que houvesse operação e afirmou apenas que o policiamento estava reforçado na região.

A Polícia Civil, por sua vez, disse que as investigações sobre a morte de Ray já estão em andamento pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). Familiares da vítima e os policiais militares envolvidos na operação já prestaram depoimento na especializada. De acordo com os investigadores, a polícia agora tenta identificar outras testemunhas que ajudem a esclarecer o homicídio. As armas dos policiais militares que participaram da ação foram apreendidas e passarão por perícia. Questionada, a PM não informou se irá afastá-los.

A ação

Nesta segunda-feira, o 1º Comando de Policiamento de Área (CPA) e o Comando de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar atuaram na Zona Norte e parte da Zona Oeste da Cidade do Rio, de acordo com a corporação, para coibir a ação de grupos criminosos — traficantes e milicianos — que disputam a Praça Seca.

Durante toda a ação, foram apreendidos três fuzis, três pistolas, duas granadas e entorpecentes. Ao todo, três pessoas foram baleadas e morreram após terem sido socorridas ao Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Ray seria uma delas. Um suspeito foi preso.