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Especial | O que Aids, ciência, tecnologia e cultura têm em comum?

Fidel Forato

Para muita gente, a Aids — síndrome que leva à perda progressiva das funções do sistema imunológico — ainda é um assunto evitado. Pois, não deveria: o melhor caminho para enfrentar a desinformação sobre o vírus HIV, que vem causando perdas no mundo todo desde 1981, é a conversa.

Principalmente, no Dia Mundial da Luta Contra Aids (1), é preciso lembrar que existem aproximadamente 37,9 milhões de pessoas em todo o mundo vivendo com HIV, segundo o último relatório da UNAIDS. De acordo com os últimos dados do Ministério da Saúde, divulgados na sexta-feira (29), são 900 mil pessoas convivendo com o vírus e 43,9 mil novos casos de Aids foram detectados no país, em 2018.

A boa notícia é que os números de notificações vêm diminuindo consideravelmente desde 2013. Tendência essa que parece ser global, já que mortalidade relacionada ao vírus, relacionada ao uso de novas tecnologias, diminuiu cerca 33% no mundo, desde 2010, segundo o órgão.

No entanto, esses números otimistas devem ser vistos com cautela. Pelo menos é o que argumenta o médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, que também é professor da Faculdade de Ciências Médicas de Santos, Wladimir Queiroz. Para o especialista, "os números apresentados pelo Brasil não são tão confiáveis."

Oliver, de How to Get Away With Murder, descobre que tem HIV (Imagem: Reprodução/Netflix)

Mudança cultural 

Diante das últimas descobertas da ciência e do fato da Aids ter se tornado uma síndrome crônica, novas histórias — bem diferentes das anteriores — vêm sendo contadas a partir da doença. Em 1993, era lançado nos cinemas Philadelphia, com Tom Hanks e Denzel Washington, que levou, inclusive, duas estatuetas do Oscar. Mas é a infeliz história de um advogado que, após se descobrir portador do vírus, teve sua vida destruída pela Aids e pelo preconceito. Andrew Beckett, o personagem interpretado por Hanks, foi demitido por justa causa após ter seu diagnóstico exposto na firma de advocacia.

Já a série How to Get Away with Murder, iniciada em 2014 e protagonizada por Viola Davis, traz uma abordagem praticamente inédita sobre o HIV no universo ficcional. Na série que conta a história de um grupo de estudantes de direito, o casal formado por Connor Walsh, interpretado por Jack Falahee...

[ALERTA DE SPOILER A SEGUIR!!!]

...e seu marido Oliver Hampton, interpretado por Conrad Ricamora, leva uma vida sorodiscordante — onde um dos parceiros têm o vírus e o outro não.

Vivendo (e convivendo) com o vírus, Oliver enfrentou uma série de questões ao longo das temporadas. Em sua fase de solteiro, precisou entender como contar para novos parceiros que tinha HIV, e em outro momento, foi a vez de contar para sua mãe a sua história. Experiências difíceis, mas contadas, na tela, de forma a não explorar ainda mais essa dor. Inclusive, Connor esteve do seu lado desde a descoberta dos resultados e, atualmente, toma diariamente seu PrEP — o famoso "coquetel", chamado de profilaxia pré-exposição, método adicional na prevenção contra o vírus.

Tratamentos contra o HIV

Quando o assunto é a prevenção do vírus via transmissão sexual, a camisinha continua sendo a maneira mais funcional e simples para evitar a infecção. No entanto, há novos medicamentos desenvolvidos com a ajuda das novas tecnologias — incluindo a biotecnologia — e que podem ser usados de maneira complementar, disponibilizados principalmente para populações de risco. É o caso de casais sorodiscordantes, como Oliver e Connor, de profissionais do sexo e de indivíduos que não se enquadram ao uso dos outros métodos na vida real.

Indicada para estas circunstâncias, a PrEP é composta por duas drogas antirretrovirais de uso diário e contínuo, existe no Brasil e é uma espécie de coquetel para pessoas que não têm o vírus. Só no Brasil, 6.099 pessoas iniciaram este novo tratamento em 2018, segundo relatório do Ministério da Saúde.

Mesmo que seja um ótimo procedimento combinado para a prevenção do HIV, a necessidade de se tomar os comprimidos nos horários corretos e diariamente, além da grande probabilidade de efeitos colaterais, pode levar a uma baixa adesão e, consequentemente, aumentar o número de infecções. Para explicar o problema, o médico Wladimir Queiroz faz “uma analogia à pílula anticoncepcional feminina, que muitas pessoas esquecem de tomar. E o principal problema dos dois tratamentos está na irregularidade em se tomar o medicamento.”

Como resposta para esse desafio e inspirados pelos métodos anticoncepcionais, foram desenvolvidos novos medicamentos graças à biotecnologia. Eles evitam infecções do HIV e agem como um medicamento injetável, com uma aplicação única ao mês, além de implantes subcutâneos, que permitem que o paciente fique meses sem o uso da PrEP diária e oral. As duas novidades ainda aguardam liberação para desembracar no país.

Outro importante metódo na prevenção do HIV é a profilaxia pós-exposição, a PEP, para acidentes de qualquer ordem que envolvam troca de fluido sanguíneo, desde um acidente com profissionais da saúde até violência sexual e casos em que a camisinha estoura. Nessas circustâncias, o procedimento é composto por três drogas, usadas durante um mês, que deve ser iniciado idealmente antes de 24 horas depois do acidente.

Mapa da distribuição do vírus do Hiv no mundo (Fonte: UNAIDS)

Mas afinal qual é a diferença entre o vírus HIV e a Aids?

É importante ressaltar que ter Aids e conviver com o vírus HIV não são sinônimos. Como o infectologista Wladimir Queiroz explica, “basta ter a sorologia positiva confirmada por um teste de HIV, que o paciente é notificado como portador do vírus, mas isso não significa que ele tenha sintomas.”

Já a definição de paciente com Aids pode ser definida a partir de dois critérios independentes. “A primeira é meramente laboratorial, além de ter o teste positivo de HIV, o indivíduo deve apresentar o número de linfócitos CD4 [células muito importantes na defesa imunológica do organismo] abaixo de determinado limite. Essa é então uma norma técnica e política que o Brasil adota para sua previsão orçamentária, por exemplo, para o cálculo de medicamentos.”

Enquanto isso, a outra definição, universalmente aceita, é que o indivíduo passa a ter Aids quando se tem o teste sorológico positivo para HIV e “junto com isso passa a apresentar sinais ou sintomas que são associados à Aids”, explica o professor. São, basicamente, infecções por germes considerados oportunistas, como tuberculose fora do pulmão, ou câncer associado ao HIV, como Sarcoma de Kaposi, conhecido pelas manchas na pele, por exemplo.

Evolução no Tratamento

Do atual implante da PrEP até a descoberta do vírus, a ciência médica passou por inúmeras reviravoltas e muitas pesquisas. Para o doutor Wladimir Queiroz, que acompanhou, no seu consultório, todas as etapas da epidemia, “na história, não há um vírus ou uma doença que se descobriu tanto em tão pouco tempo e, mesmo assim, ainda há muita coisa para ser descoberta.”

Queiroz lembra que a Aids, quando chegou ao Brasil, em 1982, já tinha sido relatada no mundo há um ano. Mas naquela época, “não tínhamos nada para tratar os portadores do vírus e a expectativa de vida a partir do diagnóstico — que só era feito pelos sintomas — era de seis meses. Os pacientes morriam, sem tratamento algum.”

A partir de muitas pesquisas, em caráter emergencial, medicamentos começaram ser testados. Foi quando surgiu o AZT, em 1987, “que deu uma esperança e foi possível prolongar um pouco mais essa sobrevida, ao mesmo tempo fomos aprendendo a tratar as doenças associadas”, explica Queiroz. No entanto, a nova e única droga para o tratamento trazia uma série de efeitos colaterais indesejáveis.

Mas só em 1996 os pesquisadores combinaram em um coquetel três ou mais drogas antirretrovirais, aumentando em vários anos a sobrevida das pessoas infectadas. Hoje, o infectologista Queiroz conta que “temos uma gama relativamente grande de drogas, mais de 20, que são usadas em combinações. Basicamente, três drogas e, talvez, possamos usar somente duas drogas, em um futuro próximo”. Afinal, as últimas pesquisas estão mostrando drogas cada vez mais potentes e com menos efeitos colaterais.

Os novos medicamentos e os avanços da ciência, permitiram que o indivíduo com o vírus tenha cada vez mais longos períodos livres de sintomas, que são, teoricamente, indeterminados. O infectologista lembra que “não se fala mais em sobrevida, um conceito que caiu. Fala-se que o paciente tem a vida com o vírus. Conseguimos impedir que a imunodeficiência atinja níveis críticos, que gerem sintomas e o paciente tenha perda na qualidade de vida”.

Além disso, pacientes que seguem à risca as prescrições médicas diminuem sua carga viral. E quando essa carga se torna indetectável, o paciente perde a capacidade de transmitir o vírus. No entanto, o médico e professor frisa que “a ausência de tratamento ou um tratamento irregular deve levar aos indivíduos infectados com HIV o aparecimento da Aids, com os sintomas, incluindo o risco de morte.”

Número de infecções em homens continua a crescer (Fonte: Boletim Epidemiológico de HIV/Aids 2019)

O que os próximos anos nos reservam

Perguntado sobre como imaginaria os próximos dez em relação às novas descobertas e tratamentos para o HIV, Wladimir explica que “esses exercícios de futorologia são muito difíceis. Até porque o que era uma situação de risco nos anos 90, já não é mais hoje”.

É o caso das transmissões de Hiv pelo uso de droga injetável no Brasil, o que levou até à distribuição gratuita de seringas pelo governo. Wladimir conta que “durante muito tempo, cocaína injetável foi usada por usuários de droga com menor poder aquisitivo e, de repente, ninguém mais usava. Isso foi uma mudança comportamental da população. Até porque, a partir anos 2000, o país passou a enfrentar o problema do crack.”

Outro exemplo sobre a mudança comportamental, nas transmissões do vírus, está na relação entre homens e mulheres. “No começo do anos 2000, passamos a ter uma distribuição de Aids entre homens e mulheres em números praticamente iguais, mostrando que a infecção acometia igualmente os dois sexos”, esclarece Wladimir. “Mas nos últimos anos, de novo, está aumentando o número de homens em relação às mulheres quanto às infecções, como aconteceu no começo da epidemia.”

Essa última mudança no comportamento de transmissão do vírus, deu, de uma maneira geral, uma nova cara para o vírus: “o indivíduo jovem, muito jovem, até menor de idade, do sexo masculino, da categoria homem que faz sexo com homem. É a população que vem aumentando, mas ninguém esperava por isso.”

O médico especula que para esse público, que não viveu a epidemia há 30 anos, houve uma certa banalização da Aids. Segundo Wladimir, “hoje, quem tem HIV não tem mais nenhum sinal que o defina e pode ser tão jovem e bonito como qualquer outro jovem.” E por mais que o vírus gere uma doença crônica e para alguns sem tanta seriedade, para se conviver com o HIV é preciso uma série de cuidados.

Por isso mesmo, o infectologista espera que, em 10 anos, “já estivéssemos mais próximos de uma cura para Aids e, enquanto ela não viesse em massa, que tivéssemos um tratamento tão fácil quanto as novas técnicas de PrEP, que favorecem muito a quialidade de vida dos pacientes, inclusive nos aspectos financeiros e pessoais.”

Biotecnologia e os possíveis caminhos

Aproveitando notícias importantes sobre o vírus, Queiroz comentou alguns temas que podem trazer pistas para a história do vírus nos próximos anos.

O tratamento na Alemanha que curou um homem com HIV, a partir do transplante de medúla óssea. O fato foi surpreendente, porque houve uma cura, o que tínhamos até então como impossível. Agora, o possível e o provável são diferentes. Tentaram replicar o caso diversas vezes e ainda sem o mesmo sucesso. Essa foi uma situação extremamente especial e extremamente cara em diversos aspectos. Primeiro, porque o transplante de medula é caríssimo do ponto de vista financeiro e do ponto de vista pessoal, com um risco muito grande de óbito. O que se pensa hoje é que esse não seja o caminho para o tratamento em massa, mesmo que mais testes estejam sendo feitos.

O nascimento das gêmeas com alteração do gene que é atacado pelo vírus HIV, na China, pelo método CRISPR. "Em primeiro lugar, é preciso olhar com certo filtro esssa história, do ponto de vista da veracidade. Em segundo lugar, do ponto de vista ético. Alterar o genoma humano, que conhecemos tão pouco, é bastante complicado. Pode-se criar uma defesa contra o HIV, sem dúvidas, mas a qual preço? É muito difícil acreditar que trocando uma parte do genoma, você tenha um único efeito benéfico. Não acredito que tratamentos com essa técnica seja, viáveis, pelo menos não em 10 anos. Antes, é necessário entender os efeitos à longo prazo."

Um novo tipo do vírus HIV, causador da AIDS, foi descoberto por cientistas pela primeira vez em quase 20 anos. "Essa informação deve ser analisada com cautela. Se a pessoa faz o tratamento corretamente, conseguimos prolongar muito a vida do paciente. Por outro lado, o tratamento incorreto é pior do que não tratar. Porque quando se usa doses erradas e não na frequência certa, o vírus adquire resistência aos medicamentos. Então, começam a ter cepas diferentes e o HIV, como qualquer vírus, é capaz de sofrer mutações. Via de regra, as mutações costumam ser menos virulentas que as cepas selvagens, ou seja, menos capazes de afetar o organismo do que vírus in natura. Mas, eventualmente, pode haver uma nova combinação genética capaz de produzir algo ainda mais agressivo.", finaliza o doutor.

Aids &
Ciência &
Tecnologia &
Cultura


Mesmo que o vírus não tenha sido erradicado nesses últimos 30 anos e que milhões de pessoas ainda sofram suas consequências, o caminho trilhado pela ciência no desenvolvimento dos novos medicamentos e terapias que salvam, igualmente, milhões de vida, só foi possível, porque a Aids revolucionou — talvez, para sempre — a área médica e a cultura pop.

O envolvimento de importantes nomes da indústria cultural arrastou as discussões em torno da epidemia e sobre saúde para os lares do Brasil e do mundo. O vírus não poupou celebridades internacionais, como o escritor de ficção científica Isaac Asimov, passando pelo cantor Freddie Mercury, o jogador de basquete Magic Johnson e o ator Anthony Perkins — o eterno Norman Bates, de Psicose. Sem falar nos ícones brasileiros, como os cantores Cazuza e Renato Russo, o escritor Caio Fernando Abreu, a atriz Sandra Bréa e muitos outros famosos (ou não) que deram cara e forma para o vírus.

A sociedade se viu discutindo o vírus HIV, e em muitos casos a importância de métodos contraceptivos, como a camisinha, mesmo que ninguém entendesse exatamente como ele funcionava. Em uma crônica, de 1994, Caio Fernando Abreu sintetizou muito bem todo esse sentimento: “Alguma coisa aconteceu comigo. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela.”

Essas dúvidas e essas incertezas foram o fogo necessário para a união de artistas — como Elizabeth Taylor e Madonna —, esportistas, figurões da indústria cinematográfica, grandes nomes da tecnologia — como Bill Gates e a Apple —, pesquisadores e cientistas que trabalharam levantando fundos para os estudos que consumiram bilhões de dólares e construíram novos caminhos para quem enfrentava, enfrenta e enfrentará o vírus do HIV.

Fonte: Canaltech

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