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Especial | Como a pandemia afetou a indústria musical [parte 3]

Luciana Zaramela
·11 minutos de leitura

Enquanto não se cansa de se transformar para minimizar os prejuízos durante a pandemia da COVID-19, a indústria musical se vê diante do que, segundo especialistas, pode ser a maior crise da sua história. A indústria fonográfica e a de música ao vivo passam por apuros e precisam de ajuda. Debilitado, o setor cultural, como um todo, pede socorro.

Um dos primeiros setores a cancelarem ou suspenderem, por tempo indeterminado, suas atividades desde que eclodiram os primeiros casos de COVID-19 na Ásia foi o de shows e eventos musicais. E antes que a pandemia chegasse ao Brasil, já dava para sentir o baque: eventos internacionais, turnês e até mesmo viagens para o exterior começaram a ser canceladas, impactando o trabalho de músicos e suas equipes lá fora e aqui dentro.

Fechando o especial sobre como o coronavírus impactou a indústria musical em 2020, nesta última parte, falaremos como a comunidade da música vem sobrevivendo diante da crise da COVID-19 e quais são as predições, em termos de novos modelos de negócio, para a era pós-pandemia.

Capítulo 7: como os gigantes estão lidando com o coronavírus

Diante de uma crise sem precedentes, em que vimos datas de eventos gigantescos como Lollapalooza e Coachella serem adiadas, o mercado musical está passando por um momento delicadíssimo — e isso é opinião unânime de quem trabalha no ramo. Alterações em agendas, datas suspensas, readequação do modelo físico para o virtual, adaptação técnica para um novo formato — o digital — e a busca incessante por novas formas de se reinventar no mercado são parte da rotina de músicos, produtoras e equipes técnicas que fazem da música seu ganha-pão.

Para a Folha de S.Paulo, Pedro Augusto Guimarães, presidente da Apresenta Rio, definiu muito bem como o ramo de eventos está atualmente: "Parou toda a atividade, fechamos as portas. Uma interrupção abrupta como essa jamais aconteceu. Não se tem referência na história do país. No mundo, só na guerra".

Os efeitos da pandemia causaram rombos na indústria mundial e foi preciso mexer muitas peças no tabuleiro para montar uma nova estratégia, sem desamparar a economia no setor. Mecanismos de apoio público-privado para artistas e equipes, por exemplo, foram planejados e seguidos no Brasil e no mundo. A indústria se reuniu com a comunidade em busca de descobrir novas formas de financiamento para pessoas cujas receitas foram afetadas pelo coronavírus. Isso inclui doações significativas do Universal Music Group, da Live Nation Entertainment (sócia majoritária do Rock in Rio) e até de plataformas digitais, como Spotify, Amazon Music, TIDAL e YouTube Music.

Com o rombo causado pelo cancelamento de eventos ao vivo, é preciso encontrar novos modelos de negócio (Imagem: Claire P/Unsplash)
Com o rombo causado pelo cancelamento de eventos ao vivo, é preciso encontrar novos modelos de negócio (Imagem: Claire P/Unsplash)

Da parte das provedoras de internet e telecomunicações, novas estratégias permitem aos consumidores doarem para fundos diversos, bem como pagar adiantado, sem juros, por royalties (como em casos onde há cancelamento ou suspensões de eventos, por exemplo).

Além das parcerias privadas, a resposta do setor público também veio: governos do mundo todo desenvolveram pacotes de auxílio para indústrias e trabalhadores afetados pela crise, totalizando, coletivamente, trilhões de dólares em gastos, doações e empréstimos. Os projetos de incentivo à cultura não são direcionados, especificamente, à indústria musical; muitos deles contemplam empresas de mídia, artes e cultura em geral.

Capítulo 8: a realidade da música no Brasil

Ser músico no Brasil nunca foi tarefa fácil, ainda mais em tempos de pandemia. Por aqui, o setor de shows acumula prejuízos que devem alcançar uma escala inédita, na casa dos bilhões de dólares.

Como mencionado na primeira parte desta série especial, ainda em abril, o Data Sim elaborou um levantamento com 536 empresas ligadas à indústria musical brasileira, indicando cancelamento de 8.141 eventos. Somando tudo, já dava para antever um prejuízo de R$ 480 milhões.

Além de ter que dar "seus próprios pulos", os artistas brasileiros poderão contar com a sorte de conseguir incentivos, a exemplo do Natura Musical — plataforma que vai disponibilizar R$ 8,5 milhões para artistas, bandas, coletivos e empreendedores culturais em diversos estágios de carreira. Em junho, o governo federal aprovou a lei de auxílio financeiro para a cultura na pandemia. Apelidada de "Lei Aldir Blanc", a legislação estabelece que R$ 3 bilhões serão distribuídos, em forma de auxílio emergencial, a trabalhadores da cultura, bem como subsídio a manutenção de espaços culturais, fomento a projetos e linhas de crédito. Para os artistas informais, devem ser pagas três parcelas de R$ 600 a título de auxílio emergencial, que poderá ser prorrogado pelo mesmo prazo do auxílio do governo federal a trabalhadores informais e de baixa renda. O recebimento está restrito a dois membros de uma mesma família, e mães solo terão direito a duas cotas. Os cadastros começaram em setembro e variam de estado para estado.

Se o mar não estava para peixe antes, imagina agora... (Foto: Soundtrap/Unsplash)
Se o mar não estava para peixe antes, imagina agora... (Foto: Soundtrap/Unsplash)

Mesmo assim, para a grande maioria dos artistas brasileiros, se viver de música sem COVID-19 já é difícil, imagina durante a pandemia. Muitos estão se desdobrando como podem, fazendo "bicos" em outras áreas, vendendo material na internet, compondo música para fora, divulgando seu trabalho nas plataformas e recebendo doações. Mas, nem assim, estão próximos do que estavam antes da pandemia. Se você tem um amigo músico, gosta de um artista ou até mesmo de vários deles, tente ajudar de alguma forma: se não puder comprar um produto ou transferir dinheiro em uma live, ajude a divulgar o trabalho daquele músico ou banda nas redes sociais. Quanto mais pessoas atingidas online, maiores as chances do artista conseguir vender seu peixe e manter-se motivado durante a crise.

Capítulo 9: é preciso se preparar para o pós-pandemia

Sobrevivendo a uma era sem shows e sem calor humano, mas em que a solidariedade ditou o tom durante as apresentações online, músicos e equipes estão fazendo o que podem em eventos digitais e/ou híbridos. Mas é preciso pensar na retomada, ou seja, no que será da indústria quando a pandemia finalmente acabar.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, o modelo de negócios que a música adota hoje tem duas impliacações para a indústria: primeiro, incentiva o conteúdo não licenciado, como podcasts — setor que está em franca ascensão, aliás. E, segundo, as músicas estão seguindo uma tendência curiosa: ficando mais curtas e agitadas, principalmente em resposta à necessidade de aumentar o número de execuções individuais.

Tsai Chun Pan, vice-presidente da Tencent Music, a maior plataforma de música digital da China, por exemplo, observa o seguinte: "Vídeos curtos são o novo modelo de negócio em entretenimento. Há uma demanda enorme por esse tipo de conteúdo musical, o que não apenas nos abriu portas para várias novas oportunidades, como também ofereceu novas formas de promover conteúdo e ainda trouxe um novo canal de distribuição". Por novo canal ele quis dizer o TikTok, plataforma de vídeos curtos que está bombando e revolucionando a maneira como amantes da música descobrem e consomem conteúdo. A dinâmica está acontecendo — e a mudança na indústria da música já começou faz tempo.

Monetização: de agora para frente, é preciso pensar na retomada e em modelos híbridos de negócio
Monetização: de agora para frente, é preciso pensar na retomada e em modelos híbridos de negócio

"Temos que entender que, em um mundo pós-pandemia, este (SARS-CoV-2) não será o último vírus. Este não será o último surto", pondera Jaeson Ma, coproprietário da plataforma de compartilhamento de vídeo sul-coreana Triller. "Temos de nos preparar pensando que existem duas vias para o entretenimento: a física e a virtual. E acho que vamos ver mais sobre isso no futuro", aposta.

A Coreia do Sul, que tem uma participação muito forte na música mundial com suas bandas de K-Pop, tem bagagem e mais tempo de crise, já que o coronavírus foi descoberto lá perto, na China, ainda no finalzinho do ano passado. O TrillerFest, por exemplo, que é um festival online da plataforma no país, reuniu mais de 120 artistas para oferecer 72 horas, sem interrupções, de conteúdo online e ao vivo em abril. E segundo Ma, foram mais de 5 milhões de espectadores únicos. "Se você imaginar apenas um festival físico rolando por dois finais de semana, o máximo que você consegue juntar são algumas centenas de milhares de pessoas. Tivemos 5 milhões em um só festival de música online. Este é o poder do virtual", revela.

Como tudo ainda é novo e sem precedentes, é preciso ter muita criatividade no processo. Para a Forbes, Brian Penick, músico que largou a estrada para ajudar a capacitar artistas e profissionais da música, avalia que ser criativo não é ser incapaz de empreender. Erroneamente, a palavra vem sendo interpretada como qualidade daqueles que têm a ideia, mas não sabem colocá-la em prática. Puro mito: "independentemente de onde um artista pode estar no espectro dos negócios, acredito que este período de mudança produzirá dois tipos de músicos: os 'abraçados' e os 'impactados'".

Com isso, Penick quis dizer que o "abraçado" é aquele artista que nasceu da necessidade, e que encontrará oportunidades para manter sua carreira de pé. "Fazer shows ao vivo em casa, enviar mensagens de vídeo aos fãs, escrever músicas personalizadas para vender, dar aulas online, continuar seus estudos ou mesmo escrever uma música cativante com o tema da pandemia são todos meios criativos para explorar. O músico abraçado criará uma oportunidade em cima do que os outros consideram uma crise", explica.

Já o "impactado" é aquele que enxerga a pandemia como uma muralha que não pode ser escalada. Ele pode ter talento e até mesmo vontade, mas não tem motivação para seguir adiante. Geralmente, esses artistas são menos adeptos ao novo, fazem apresentações repetitivas, são resistentes a novas tecnologias e não abraçam a mudança.

As lives e as novas formas de monetização são exemplo disso. Agora, a tendência são os eventos híbridos — que contam com uma parte do público presente, mas outra, maior, interagindo virtualmente. Como reaver o calor humano dos shows? Como inovar em uma época em que a pandemia já está causando fadiga na humanidade? Como vencer algo nunca antes visto? Enquanto não acabar a pandemia, a resposta está na inovação e na vontade de seguir em frente.

Mesmo diante da turbulência, é preciso manter-se ativo: agora são as lives, mas o que será no futuro? (Imagem: LeChon Kirb/Unsplash)
Mesmo diante da turbulência, é preciso manter-se ativo: agora são as lives, mas o que será no futuro? (Imagem: LeChon Kirb/Unsplash)

Mesmo após a chegada de uma vacina eficaz contra o coronavírus, é bem provável que a forma como se faz eventos ao vivo mudará. Na Dinamarca, por exemplo, os shows ao vivo começaram a voltar, porém... diferentes. O conceito de drive-in que a gente via com filmes agora está sendo aplicado, cada vez mais, com a música. No princípio, pareceu meio maluco apostar em um modelo desses, com artistas e até bandas inteiras se apresentando com toda uma estrutura montada e a plateia assistindo ao vivo, porém de dentro de carros, estacionados cada um em uma vaga bem delimitada, longe uns dos outros.

Mas, funcionou — e vem funcionando mundo afora — inclusive aqui, no Brasil. O público tem respondido bem, porque dentro dos carros, você fica protegido do contato ombro-a-ombro com desconhecidos e ainda pode levar sua própria comida e bebida (sem álcool para quem está no volante, claro). E os artistas estão curtindo, também: eles têm a galera vibrando e podem performar para pessoas ali, "de verdade", que reagem em tempo real, vibram, gritam, piscam seus faróis e até... buzinam.

Aliás, por falar em bebida, com a movimentação avassaladora da transformação na indústria da música, outros setores poderiam ver novas oportunidades e pegar carona (com o perdão do trocadilho) nos atuais modelos de negócio. No caso do drive-in, por exemplo — cujo conceito não é tecnicamente novo e vem desde a década de 1950, quando os carros se reuniam em estacionamentos para que as pessoas assistissem a filmes projetados em telões —, empresas como a Uber poderiam aproveitar para lançar serviços especiais para os shows. Se um fã de uma banda quiser assistir ao espetáculo, mas ao mesmo tempo deseja beber todas e voltar para casa em segurança, poderia contratar um carro pelo aplicativo. Os motoristas ficariam esperando do lado de fora, em uma área própria para isso, e em segurança. Ou seja: nem a privacidade do espectador seria "invadida" pelo dono do carro.

Drive-in: novo (velho) conceito que tem dado certo (Imagem: Jona/Unsplash)
Drive-in: novo (velho) conceito que tem dado certo (Imagem: Jona/Unsplash)

De acordo com um relatório do Synchtank, por exemplo, shows ao vivo sempre foram os primeiros atingidos durante crises econômicas, já que os fãs precisavam ficar em casa para economizar nas passagens e despesas. A receita, no final, era impactada na indústria da música. Outra época levada em conta foi a grande depressão, com o crack da bolsa de 1929, nos EUA: a música caiu na esfera da economia no país, do primeiro para o terceiro lugar, nas opções de entretenimento. Hoje, a batalha está sendo travada contra outras opções de diversão, como os serviços de vídeo via streaming e as redes sociais.

Segundo previsões de analistas do mercado, os próximos dois anos serão difíceis para esse mercado, já que não vai ser nada simples recaptar as vendas de ingressos para shows ao vivo em uma era onde a mentalidade coletiva foi alterada pela pandemia, enquanto outros setores — como o dos esportes — também não veem a hora de ver o sol brilhar novamente nos eventos ao vivo.

Fonte: Canaltech

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