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Escrito em 1887, 'Dez Dias num Hospício' traz relato urgente e terrivelmente atual

·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - “À exceção da tortura, que tratamento levaria uma pessoa à loucura com mais rapidez?”

A pergunta foi feita por Nellie Bly, pioneira do jornalismo investigativo que, em 1887, aos 23 anos, se infiltrou como paciente numa instituição de saúde mental conhecida como Asilo de Lunáticos de Blackwell's Island, em Nova York (EUA).

Os horrores que ela sentiu na pele, que presenciou e que ouviu nos relatos de outras mulheres durante os dez dias em que viveu como paciente do manicômio público deram origem a uma série de reportagens publicadas no jornal New York World, diário de Joseph Pulitzer, editor cujo nome batiza o maior prêmio do jornalismo mundial.

Os textos foram depois reunidos no livro “Dez Dias Num Hospício”, um clássico da não ficção americana e documento fundamental da luta antimanicomial, lançado agora pela Editora Fósforo com prefácio de Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha de S.Paulo premiada por suas reportagens investigativas, algumas arriscadas à moda de Bly.

A jornalista americana é, por si só, uma personagem extraordinária. Nellie Bly é o codinome da escritora, inventora, empresária e filantropa Elizabeth Cochran Seaman, que foi correspondente de guerra, deu a volta ao mundo em tempo recorde, presidiu uma indústria siderúrgica e registrou 25 patentes num tempo em que mulheres não tinham sequer direito ao voto. Bly era um dínamo.

Para conseguir acesso ao Asilo de Lunáticos de Blackwell’s Island, Bly leu tudo o que podia sobre a loucura e lhe chamou a atenção a descrição do olhar fixo exibido por algumas pessoas com transtornos psiquiátricos.

Diante do espelho, ensaiou expressões de olhos arregalados e traçou um plano: daria entrada num dos albergues para mulheres da cidade sob o nome de Nellie Brown e faria de tudo para se mostrar maluca de modo a ser encaminhada para o famigerado hospício da ilha de Blackwell.

A tensão em torno de sua encenação, da possibilidade de ser descoberta e, mais ainda, de embarcar numa jornada que prejudicasse a sua própria saúde mental causavam calafrios em Bly, e a descrição do passo a passo de sua missão envolve o leitor em um suspense da vida real.

Sua performance enganou uma assistente social, um policial, um juiz e uma série de enfermeiras e médicos especialistas, num périplo por diversas instituições. Recebeu o diagnóstico de demência e, com isso, perdeu um tanto do respeito que tinha pela capacidade dos médicos. “Tive certeza de que nenhum médico saberia dizer se uma pessoa era louca ou não, a não ser nos casos mais violentos”, escreveu Bly.

Ao chegar ao hospício, Bly passou frio e sentiu fome até se render ao menu exíguo com manteiga rançosa e carne “ligeiramente estragada” preparado numa cozinha fétida e servido sem talheres às pacientes. Conheceu mulheres “aparentemente sãs” e decidiu que deixaria de interpretar sua própria loucura inventada —não fazia diferença ali dentro.

As enfermeiras, sádicas, se divertiam às custas de humilhações das pacientes, contra as quais distribuíam empurrões e tapas nas orelhas, entre outras violências pontuais mais graves como estrangulamentos e surras. Bly denunciou os abusos aos médicos apenas para se certificar que eles eram cúmplices dos maus-tratos contra as pacientes.

O assombro causado pelas revelações das reportagens de Bly teve impacto na opinião pública e na administração municipal, que passou a investigar instituições psiquiátricas, às quais foram destinadas mais verbas, além da determinação de que apenas mulheres com quadros graves de distúrbios psiquiátricos fossem internadas.

Depois de seus dez dias numa “ratoeira humana” —lugar onde é “fácil entrar, mas uma vez lá é impossível sair”—, Bly se perguntava se o cotidiano de violência e a estrutura insalubre do manicômio não seriam, eles mesmos, causadores ou potencializadores do sofrimento psíquico de suas habitantes.

“Se pegassem uma mulher perfeitamente lúcida e saudável, trancassem-na e a fizessem ficar sentada das seis da manhã às oito da noite em bancos de encosto reto (...), lhe oferecessem comida ruim e tratamento severo e então observassem quanto tempo levaria para que ela ficasse louca”, descreve Bly, que em seguida dá seu diagnóstico: “Dois meses seriam suficientes para arruiná-la mental e fisicamente”.

Inspeções em hospitais psiquiátricos brasileiros, que apontam para a persistência de violações de direitos humanos, e relatos de ex-pacientes internados em algumas dessas instituições indicam que a obra de Bly continua urgente e terrivelmente atual.

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DEZ DIAS NUM HOSPÍCIO

Preço: R$49,90 (112 págs.)

Autor: Nellie Bly

Editora: Fósforo

Avaliação: muito bom

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