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Escassez de recursos dificulta recuperação econômica, diz Banco Mundial

(Arquivo) O presidente do Banco Mundial, David Malpass, em Dubai, em 16 de fevereiro de 2020

A economia global enfrenta perdas "abissais" pela pandemia de coronavírus, e a recuperação é prejudicada pela escassez de recursos - afirmou o presidente do Banco Mundial, David Malpass, em uma entrevista à AFP.

Embora a instituição com sede em Washington já tenha liberado 160 bilhões de dólares para mais de 100 países, para que consigam enfrentar a emergência, a crise obrigará as nações em desenvolvimento a repensarem a estrutura de suas economias, destacou.

Para Malpass, o efeito devastador da pandemia de COVID-19 na economia mundial é muito maior do que os 5 trilhões de dólares de riqueza destruídos e apontados em uma primeira estimativa de danos.

O Banco Mundial advertiu que a recessão global levará 60 milhões de pessoas à pobreza extrema, mas David Malpass afirmou que a projeção sombria provavelmente vai piorar com o avanço da crise.

O que tira o sono do presidente do Banco Mundial?

"Que não existam recursos suficientes", responde Malpass.

"Eu continuo buscando (...) que outros participem dos programas que implementamos", inclusive por meio de pagamentos diretos em dinheiro para ajudar rapidamente as populações mais vulneráveis nos países pobres, destacou.

O Banco Mundial publicará na próxima semana as previsões revisadas das Perspectivas da Economia Mundial (GEP, na sigla em inglês), mas os números por si só não podem apresentar uma ideia da magnitude do desastre, que deixará cicatrizes por muito tempo.

"Os países enfrentam a recessão global mais profunda desde a Segunda Guerra Mundial", disse Malpass.

"E isto deveria manter muitas pessoas acordadas durante a noite, preocupadas com as consequências para os pobres, para os vulneráveis dentro dessas economias, para as crianças, para os profissionais da saúde, todos enfrentando desafios sem precedentes", resumiu.

As economias avançadas enfrentarão as maiores recessões em termos percentuais, mas, "em muitos sentidos, as contrações mais perigosas acontecerão nos países mais pobres, porque estavam mais próximos da linha de pobreza antes da pandemia", advertiu.

O aumento da pobreza extrema dependerá em grande parte da velocidade de reabertura das economias avançadas, já que os países em desenvolvimento dependem dos mercados dos países ricos, explicou Malpass.

- Adeus à velha economia -

À medida que os países procuram financiar as necessidades urgentes de equipamentos e tratamentos médicos, além de garantir o suprimento de alimentos, veem-se forçados a drenar recursos para educação e para outros investimentos críticos.

E a ausência de investimento mina o crescimento potencial em uma recuperação pós-pandemia.

"O investimento necessário para o futuro está sendo perdido para combater a crise da saúde", observou Malpass.

Para mitigar os efeitos prejudiciais de longo prazo, para além da crise imediata, os governos terão de repensar suas políticas e "reconhecer que a economia global será muito diferente", afirmou ele.

Será necessário investir em novos tipos de emprego e negócios "na economia do futuro, em vez de tentar recapitalizar a economia do passado", acrescentou.

Ele deu como exemplo a indústria do turismo, que entrou em colapso quando as fronteiras foram fechadas e grande parte da população mundial ficou confinada, indicando que o setor terá de se adaptar ao novo estilo de vida da era pós-pandêmica.

Um país que buscava impulsionar seu setor de turismo agora precisará treinar trabalhadores para uma economia global "onde haverá menos turismo e mais necessidade de segurança alimentar".

Malpass também alertou que o número "assombroso" de crianças que deixaram de ir à escola, devido ao fechamento das instituições de ensino, está criando uma "pobreza de aprendizado" que terá consequências no tecido social.

- Economias "mais resistentes" -

O Banco Mundial divulgou nesta terça-feira os capítulos analíticos do GEP, nos quais defende "políticas integrais para impulsionar o crescimento a longo prazo (...) e tornar as economias futuras mais resistentes".

Ele sugere que sejam eliminados os gastos ineficientes, incluindo subsídios à energia, no momento em que os preços dos combustíveis caem bruscamente.

O relatório também recomenda "acelerar a resolução de controvérsias, reduzir as barreiras regulatórias e reformar os caros subsídios, monopólios e empresas estatais protegidas que retardaram o desenvolvimento".