Mercado fechado

Por que errar (e aprender com isso) é tão importante para startups

Escritório da Méliuz em Belo Horizonte (Foto: Divulgação)

Por Matheus Mans

O erro, apesar de humano, pode ser um processo muito dolorido. Nas escolas, são pontos a menos na prova. No mundo corporativo tradicional, pode resultar numa advertência ou até em demissão. Mas, no ecossistema de startups, o erro é encarado apenas como um degrau para, enfim, chegar até a inovação. E isso, segundo especialistas, faz toda a diferença.

SIGA O YAHOO FINANÇAS NO INSTAGRAM

Essa é a chamada cultura do erro. É a naturalização, e a crença, de que o erro aproximará a startup ainda mais da disrupção. Afinal, é quase impossível, com uma empresa pequena, resolver um problema antigo de primeira. É preciso paciência e não ter medo do fracasso.

Leia também

“A gente admira, respeita e incentiva a cultura do erro em startups”, afirma Tânia Gomes, vice-presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups). “Afinal, a startup nasce a partir de um ambiente de incertezas tentando resolver um problema. Assim, se não incentivarmos o erro, nós nunca vamos atingir a inovação. A disrupção passa pelo erro”.

Dor latente

A startup mineira Méliuz, hoje, é referência no setor de cashback — ou seja, a prática de receber um pequeno valor de retorno em uma compra. Já está há oito anos no mercado, se tornou um dos principais nomes do ecossistema de San Pedro Valley e agora também está se arriscando no setor de fintechs, com um cartão de crédito emitido junto ao banco PAN.

No entanto, um dos propulsores da startup foi um erro grave cometido ainda em 2017.

Na época, a startup oferecia apenas cashback para compras online. No entanto, foi surpreendida com a chegada de uma concorrente que já oferecia a prática no mundo físico, em lojas parceiras. A empresa, então, tentou fazer o mesmo serviço, antes da concorrente. “Queríamos desenvolver tudo em dois meses”, conta Israel Salmen, fundador da Méliuz, durante o Fire Festival, eventos de negócios digitais promovidos pela startup Hotmart.

Sede da Hotmart em Belo Horizonte (Foto: Divulgação)

Os problemas foram surgindo depois. As parcerias não foram bem avaliadas, o modelo de negócios não era saudável. E muito dinheiro foi investido em algo totalmente incerto.

“Fiquei surpreso como fiz 100 pessoas cometerem o mesmo erro. No final, não deu certo, gastamos alguns milhões e precisamos demitir cerca de 30 pessoas”, disse o executivo. No entanto, o processo acabou sendo positivo. O erro cometido por Salmen, há dois anos, serviu como base para os novos serviços que viriam a ser oferecidos no futuro. “Entendi o mercado, tive clareza dos meus atos e aprendi que preciso me cercar de quem eu confio”.

Roberta Vasconcellos, fundadora da startup BeerOrCoffee, que conecta clientes com coworkings, disse não ter cometido um erro assim. Mas que, a partir dos aprendizados que são compartilhados no setor, ressalta a importância de entender o erro, por mais complicado que seja, como um propulsor de novas e mais acertadas decisões pra empresa.

“Erros mostram que você está se movendo, tentando inovar. Se você não errar bastante, não está tomando decisões o suficiente”, afirmou a empreendedora, também durante o Fire Festival. “O medo de errar sempre vai existir. O que precisa é entendê-lo mais e melhor”.

Limites

Mas será que existe um limite para os erros que são cometidos em startups? Para especialistas, é preciso prestar atenção no limite entre o erro saudável, que leva a startup para algo disruptivo, e o que é cometido sem notar as consequências de seus atos. Além disso, as startups não devem deixar o ritmo de mercado de lado durante o processo.

“A startup precisa manter sua essência e ser ágil na correção dos erros e dos problemas decorrentes”, afirma Carlos Aranha, professor e coordenador do I-Lab, incubadora da ESPM Sul. “Para isso, é preciso também ter uma empresa coerente e que entenda a cultura e o modelo de negócios de sua empresa. Existem erros e erros, mas o caminho deve ser esse”.

Conforme essa cultura se perpetua, quem sabe, no futuro, ela seja ainda mais presente e visível em negócios tradicionais e até em modelos de ensino. “Aceitar o erro como algo normal e parte do processo exige uma transformação de mentalidade e de cultura”, afirma Tânia Gomes, da ABStartups. “Acredito que as startups já estão promovendo a mudança”.