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Erro em dado de exportação reflete corte de orçamento e pessoal, diz sindicato

***ARQUIVO*** PORTO ALEGRE, RS, 25.08.2018 - Fachada do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). (Foto: Evandro Leal/Agência Freelancer/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os constantes erros na divulgação de dados das exportações brasileiras pelo Ministério da Economia em 2019 podem estar relacionados aos cortes orçamentários feitos pela própria área econômica, de acordo com o ASSIBGE, sindicato dos funcionários do IBGE.

A entidade divulgou notas nesta quarta-feira (4) na qual cita a reportagem do jornal Financial Times "Falha em dados econômicos brasileiros preocupa analistas".

Na segunda-feira (2), o Ministério da Economia informou que uma falha no sistema de coleta e transmissão de dados do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) levou a uma correção nos dados da balança comercial de setembro, outubro e novembro. Ao todo, a diferença entre os dados anteriores e os atualizados chegam a US$ 6,5 bilhões.

Na semana passada, os dados de novembro já haviam sido corrigidos. A divulgação incorreta foi um dos motivos da alta do dólar na semana. Após a correção, o déficit registrado de US$ 1,1 bilhão no mês virou um superávit de US$ 2,7 bilhões.

Nesta terça-feira (3), o IBGE divulgou os dados do PIB (Produto Interno Bruto) do 3º trimestre deste ano e também a revisão dos números de 2018 e dos seis primeiros meses de 2019.

O IBGE informou que os erros nos dados da balança obrigarão o instituto a rever os números do último trimestre. Disse que também houve erros nas divulgações do período janeiro-junho 2019, o que já motivou a revisão do PIB desse período. A maior mudança foi a contribuição das vendas ao exterior, antes positiva em 1% no 1º trimestre, para -1,6%.

"Embora não recaia sobre o IBGE nenhuma suspeita ou dúvida sobre a capacidade técnica, o ocorrido nos causa preocupação", diz o sindicato.

"A falha nos dados da Secex pode ser resultado do processo da precariedade orçamentária e do desmonte do quadro de pessoal dos órgãos técnicos, processo que também vitima o IBGE e representa um risco real ao sistema estatístico nacional.  Além disso, é preciso lembrar que o governo pretende privatizar o Serpro e a destruição do órgão serve a esse propósito."

Veja a íntegra da nota:

"Esclarecimentos a respeito da matéria do Financial Times sobre dados econômicos brasileiros

Na terça-feira, 3/12/2019, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia anunciou uma revisão nos dados relativos as exportações para os meses de Setembro, Outubro e Novembro de 2019. A revisão ocorre em função de um erro de programação no sistema mantido pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).

Nesse contexto, repercutiu na imprensa brasileira a matéria do jornal britânico Financial Times, com título "Falha em dados econômicos brasileiros preocupa analistas".

Ao contrário do que alguns sites brasileiros noticiaram, o Financial Times não apontou manipulação de dados, e sim um contexto de precarização técnica.

Nas palavras dos analistas ouvidos pelo jornal "não existe suspeita de que os dados foram manipulados" e "o mais provável é que a explicação real seja que o Ministério da Economia (...) tenha caído vítima das medidas de corte de custo que ele mesmo decretou. 'As contratações estão congeladas e muita gente está se aposentando, e por isso eles estão sobrecarregados' ”.

Cabe esclarecer que órgãos do Governo Federal como Banco Central, Secretaria de Comércio Exterior e IBGE possuem uma longa tradição na divulgação de dados estatísticos. A excelência desse trabalho é reconhecida nacional e internacionalmente. A construção da robustez dessas informações produzidas pelo Estado brasileiro só foi possível pela competência e dedicação de servidores comprometidos com a função pública.

Embora não seja o produtor dos dados impactados pela falha de programação, o IBGE foi afetado pelo erro, na condição de usuário da informação, uma vez que os dados da Secex são utilizados para apuração do PIB pelo IBGE.

A acusação de manipulação de dados, incompetência ou mesmo negligência em uma revisão de dados constitui pura leviandade e um imenso desrespeito aos servidores desses órgãos, principalmente em tempos em que toda a produção de conhecimento sofre ataques cotidianos.

As divulgações trimestrais do PIB pelo IBGE são sempre provisórias, passando regularmente por revisões posteriores - procedimento absolutamente normal e saudável. Nesse sentido, a correção dos dados da Secex deve ser avaliada e os ajustes necessárias feitos nos dados do PIB.

Embora não recaia sobre o IBGE nenhuma suspeita ou dúvida sobre a capacidade técnica, o ocorrido nos causa preocupação.

A falha nos dados da Secex pode ser resultado do processo da precariedade orçamentaria e do desmonte do quadro de pessoal dos órgãos técnicos, processo que também vitima o IBGE e representa um risco real ao sistema estatístico nacional. Além disso, é preciso lembrar que o governo pretende privatizar o Serpro e a destruição do órgão serve a esse propósito.

Como aponta o próprio Financial Times, o Brasil é referência internacional em qualidade dos dados. Esse é um patrimônio que deve ser defendido.

ASSIBGE - Sindicato Nacional"