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Erro da oposição com Lula estimula pressão por processo contra Bolsonaro

·6 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O que faz mais sentido, priorizar o impeachment de Jair Bolsonaro (sem partido), correndo o risco de que um eventual fracasso do processo o fortaleça, ou fazer a aposta de que o presidente vai sangrar politicamente no cargo até a próxima eleição?

Esse dilema tem sido debatido na oposição a Bolsonaro, com uma certa vantagem, até o momento, para a defesa do afastamento imediato do presidente --opositores do mandatário vão às urnas de novo neste sábado (19) em protesto.

Em parte, o motivo dessa vantagem agora pelo impeachment é uma lição aprendida 16 anos atrás. Muitos dos que hoje estão envolvidos na discussão foram protagonistas de uma situação parecida em 2005, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Na ocasião, a aposta por deixar o presidente se desgastar no cargo saiu pela culatra. O contexto era o mensalão, revelado em junho de 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Em 11 de agosto daquele ano, o responsável pelo marketing político da campanha de Lula, Duda Mendonça, deu um depoimento bombástico à CPI que investigava o escândalo, confessando ter recebido pagamentos em caixa dois da campanha em contas vindas do exterior. Imediatamente, abriu-se uma crise no PT e entre aliados do governo, e a palavra impeachment começou a ser pronunciada.

"Assim que o Duda fez essa revelação eu saí da sala da CPI e fui à tribuna do Senado para dizer que ali havia uma confissão de crime e que isso poderia gerar o impeachment do presidente", diz o senador Álvaro Dias (PR), à época no PSDB e hoje no Podemos.

Naquela mesma noite, advogados do PFL (atual DEM) começaram a desenhar um pedido de impeachment de Lula, que era defendido por diversos caciques do partido, como o então prefeito do Rio de Janeiro, César Maia.

Mesmo líderes de outras legendas, como o à época presidente do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), viam um presidente no fim da linha. "O governo passa por uma insolvência política", disse.

Até na esquerda houve pressão, com o recém-criado PSOL cogitando a realização de um plebiscito sobre a permanência ou não de Lula no poder.

O ânimo inicial arrefeceria nos dias seguintes, no entanto. Quatro dias após o depoimento-bomba de Duda, líderes de PFL, PSDB, PPS, PDT e PV reuniram-se para uma discussão sobre o cenário.

Concluíram que pressionar pelo impeachment daria aos opositores a pecha de golpistas. E concordaram que Lula mantinha ainda apoio político considerável no Congresso e nas ruas, o que colocava em dúvida a viabilidade de aprovar o afastamento.

Mais importante, avaliaram de forma unânime que se tratava de um governo mortalmente ferido em sua credibilidade e que não se recuperaria a tempo da eleição presidencial de 2006, a meros 14 meses de distância. Faria mais sentido, portanto, deixar Lula desgastado no cargo.

"Queremos ganhar o jogo, mas não por WO. Não queremos transformar o presidente Lula em mártir, queremos vencê-lo pelo voto", discursou na ocasião o então líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP), que chegou a bradar "fica, Lula!" da tribuna.

Acuado, o presidente se cercou de fiéis aliados para se blindar politicamente.

"Fizemos uma reunião no Palácio do Planalto, com umas 100 organizações que foram recebidas pelo Lula. Foi uma conversa muito dura, em que cobramos mudança na economia, afastamento do grande capital e fim da relação fisiológica com o Congresso", diz João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

Em 16 de agosto, cerca de 10 mil pessoas de movimentos de esquerda saíram às ruas em Brasília para defender o presidente. Seguiram-se manifestações em outras cidades, que esfriaram ainda mais o ânimo pelo impeachment.

O então líder da minoria na Câmara, José Carlos Aleluia (DEM-BA), diz que a percepção era de que Lula estava fragilizado e num processo de deterioração progressiva.

O que veio a seguir, segundo ele, não tinha como ser previsto. "O presidente estava frágil, mas tinha uma base da população com ele. Ele foi reeleito, se recuperou, é do jogo democrático."

A mobilização popular, afirma Aleluia, foi levada em conta, mas não foi a razão fundamental para o recuo.

"O apoio popular é importante, e quem é político não pode deixar de considerar as ruas. Mas o que nós avaliamos é que o Brasil não podia viver de impeachment em impeachment", diz ele.

Curiosamente, uma década depois, nas mobilizações contra a presidente Dilma Rousseff (PT), a cautela em não submeter o país ao traumático processo de afastamento desapareceu nas mobilizações de oposição.

Para Tarso Genro, que era o presidente do PT em 2005, o que garantiu a continuidade do governo Lula foram as condições políticas do momento.

"Impeachment é sempre determinado por uma relação de forças. Independentemente do depoimento [de Duda], não ocorreram fatos políticos que retirassem a legitimidade do governo. A CPI demonstrou que havia problemas no governo, mas ficou claro que não havia o que deslegitimasse a eleição de Lula", afirma.

Tendo sobrevivido no cargo, o presidente passou a recuperar força política, ajudado pela melhora da economia. Em 2005, o PIB cresceu 3,2%, taxa que subiu para 4% no ano eleitoral de 2006. Lula se reelegeu em segundo turno contra Geraldo Alckmin (PSDB), apesar dos escândalos.

"Mesmo no auge daquela CPI, no momento da confissão do Duda, a economia já estava empinando, puxada pelas altas nos preços das commodities. Seis meses depois, a situação do Lula já era bem melhor. Talvez esse fato tenha evitado gerar uma crise que pudesse fortalecer um impeachment", diz o presidente do PPS (hoje Cidadania), Roberto Freire, partido que havia acabado de romper com Lula.

Dezesseis anos depois, há semelhanças nos cenários político e econômico. Desgastado em razão da pandemia, Bolsonaro aposta num novo ciclo de alta das commodities para turbinar o crescimento econômico e elevar a popularidade. Alguns analistas já falam em subida de 5,5% no PIB.

O timing eleitoral também é parecido, com uma eleição a 16 meses de distância, o que leva de volta à discussão sobre se vale a pena avançar com um processo de impeachment.

Para Tarso Genro, defensor do afastamento de Bolsonaro o quanto antes, as semelhanças param por aí.

"Estamos numa situação diferente, há uma questão relacionada à putrefação do Estado, que o próprio governo está promovendo. Quanto mais Bolsonaro permanecer no poder, mais deteriorada fica a institucionalidade democrática do país", diz.

João Paulo, do MST, concorda. "O resultado das urnas em 2022 será o das ruas agora. Não adianta deixar para depois, até porque desde que criaram a reeleição, todos os presidentes candidatos venceram. Não vamos cair nessa".

Já o senador Alvaro Dias, que na época defendeu o impeachment de Lula, hoje é mais cauteloso. "Temos que fazer todo o possível para evitar a confirmação dessa polarização atual. O impeachment certamente acirraria a polarização", diz ele, que defende uma "terceira via" contra Lula e Bolsonaro.

Sobre a escolha da oposição em 2005, ele não mede as palavras. "Foi um equívoco naquele momento, uma aposta errada. Faltou coragem à oposição", diz.

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