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Ernesto Araújo defende fim do ‘indiferentismo’ na política externa

Daniel Rittner e Raphael Di Cunto

Em evento na Câmara, chanceler comparou o Itamaraty com uma loja que insistia em entregar fogões mesmo quando o presidente eleito encomendava uma moto O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, comparou o Itamaraty a uma “grande loja”, em que o presidente eleito tentava comprar motocicletas e só levava fogões, para explicar a guinada na política externa brasileira adotada pelo governo Jair Bolsonaro.

Esse giro nas relações com o mundo foi explicado pelo chanceler da seguinte forma: um presidente era eleito no Brasil e o Itamaraty lhe oferecia um fogão, dizendo ser da melhor qualidade e reconhecido internacionalmente. Então o novo líder político pedia uma geladeira, um vaso de plantas, um par de sapatos ou uma motocicleta – e o Itamaraty continuava insistentemente oferecendo fogões.

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“Aí tinha um cara lá atrás que disse que sabia fazer motocicletas”, disse Araújo, talvez até referindo-se a si próprio, pelo apoio declarado ainda durante a campanha eleitoral do ano passado a uma agenda pouco convencional no Itamaraty.

Com um artigo controverso – no qual exaltava o americano Donald Trump como único capaz de “salvar o Ocidente” – e um blog em que abordava questões polêmicas, como o combate ao “globalismo” e ao “climatismo”, Araújo posicionou-se ainda na campanha como candidato a fazer essa guinada no Itamaraty.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em evento sobre política externa no Congresso

José Cruz/Agência Brasil

Nomeado chanceler, ele tem defendido que a política externa não deve ser vista como uma política de Estado, “consagrada e na qual não se pode mexer”, mas uma política de governo, que muda conforme as orientações do presidente de turno. “[A motocicleta] é o que o presidente prometeu ao povo brasileiro”, afirmou.

Sob sua gestão, segundo Araújo, há uma mudança de paradigma e uma tentativa de livrar-se de uma lógica de “diplomatas querendo ser aceitos por círculos de diplomatas pelo mundo e não comprometidos com o povo brasileiro”.

“Como se o que importasse fosse dizer como o Brasil era comprometido com o multilateralismo, identificando-se mais com os seus pares ao redor do mundo do que com o seu próprio povo”, disse o chanceler.

Sem apagar suas tradições, nas palavras de Araújo, o Itamaraty continuou entregando alguns “fogões”: o tratado de livre comércio Mercosul-União Europeia, o esforço para entrar na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a busca por investimentos da China, o acordo de salvaguardas tecnológicas com os Estados Unidos para viabilizar o uso da Base de Alcântara.

Mas, frisou Araújo, há igualmente a parte da “motocicleta”: a saída do Pacto Global de Migrações, a defesa da democracia na América do Sul, a soberania sobre temas ambientais. Não é ser contra o sistema multilateral, mas contra o método aplicado por organizações supranacionais que impõe ideias às nações, disse o chanceler.

“Estamos abandonando o indiferentismo, principalmente com os nossos vizinhos. O Brasil tem um compromisso com a democracia", afirmou.

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Nos últimos meses, além de uma elevação no tom contra o regime Nicolás Maduro e de uma condenação ao resultado das eleições na Bolívia, o Itamaraty rompeu uma tradição e falou abertamente em defesa de um candidato na Argentina. Houve elogios ao presidente Mauricio Macri, que perdeu a reeleição, e fortes críticas ao oposicionista Alberto Fernández, vencedor no primeiro turno.