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Enxaguante bucal mata o coronavírus? Estudos dividem opiniões

Nathan Vieira
·4 minuto de leitura

As pessoas definitivamente não estavam preparadas para a COVID-19, por isso mesmo meses depois da ascensão dessa pandemia, ainda há descobertas relacionadas com o que é capaz de proteger da doença ou não. Nesta terça (18), cientistas da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, descobriram que havia "sinais promissores" de que os bochechos com enxaguante bucal poderiam ajudar a destruir o vírus. No entanto, isso acabou gerando uma verdadeira divisão de opiniões entre os especialistas.

O estudo afirma que enxaguantes bucais contendo pelo menos 0,07% de CPC (cloreto de cetilpiridínio) mostraram "sinais promissores" de serem capazes de erradicar o coronavírus quando expostos ao vírus em um laboratório. "Este estudo acrescenta à literatura emergente que vários enxaguantes bucais comumente disponíveis projetados para combater doenças gengivais também podem inativar o coronavírus Sars-CoV-2 (e outros coronavírus relacionados), quando testados em laboratório, sob condições projetadas para simular a cavidade oral/nasal em um tubo de ensaio", aponta Richard Stanton, principal autor do estudo.

Em entrevista à BBC News, David Thomas, professor e diretor do Programa de Treinamento Acadêmico Integrado em Odontologia da Faculdade de Odontologia da universidade, apontou que os resultados iniciais foram animadores, mas que o ensaio clínico não produz evidências de como prevenir a transmissão entre pacientes: "Embora esses enxaguantes bucais erradiquem o vírus de maneira muito eficaz em laboratório, precisamos ver se eles funcionam em pacientes — e este é o ponto de nosso estudo clínico em andamento".

Estudos relacionam enxaguante bucal à proteção contra COVID-19 e dividem opiniões entre os especialistas (Imagem: fernando zhiminaicela/Pixabay)
Estudos relacionam enxaguante bucal à proteção contra COVID-19 e dividem opiniões entre os especialistas (Imagem: fernando zhiminaicela/Pixabay)

Ele completa que o estudo clínico em andamento mostrará quanto tempo os efeitos duram, após uma única administração do enxaguante bucal em pacientes com COVID-19. "Precisamos entender se o efeito dos enxaguantes bucais sem receita médica sobre o vírus da COVID-19 obtidos em laboratório podem ser reproduzidos em pacientes", conclui.

Em agosto, um grupo de cientistas da Alemanha demonstrou a capacidade de alguns enxaguantes bucais inativarem esse vírus, por enquanto, em laboratório. A partir de experimentos em cultura de células, os virologistas da Ruhr-Universität Bochum descobriram a possibilidade de inativação do coronavírus com o uso dos enxaguantes bucais. Isso pode ser especialmente útil para tratamentos dentários, protegendo os profissionais envolvidos.

O estudo avaliou oito enxaguantes bucais com diferentes formulações e que estão disponíveis em farmácias ou drogarias na Alemanha. Em cada teste, o produto foi misturado com partículas do coronavírus e uma substância que recriava o efeito da saliva na boca. Essa mistura foi, então, agitada durante 30 segundos, simulando um gargarejo pelo tempo médio. Os pesquisadores concluíram que Todos os produtos testados conseguiram reduzir a concentração do vírus nas amostras. Além disso, três enxaguantes eliminaram o coronavírus das amostras, conforme apontaram as análises.

Enxaguente bucal x COVID-19 divide opiniões

No entanto, na visão de outros especialistas, muitas coisas podem matar um vírus com o contato, mas não impedir a fonte do vírus. Em entrevista à CNN, Dr. Graham Snyder, professor associado da Divisão de Doenças Infecciosas na Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, afirmou que álcool, clorexidina, peróxido de hidrogênio e uma variedade de outros compostos podem matar os vírus em contato ou logo depois. No entanto, nenhum dos estudos divulgados recentemente mostra que eles podem reduzir o risco de pegar ou transmitir o vírus.

Dentro do corpo humano, o vírus está constantemente se replicando no trato respiratório superior, ou seja: no nariz, nos seios da face, na garganta, nos brônquios e nos pulmões. Embora o uso de enxaguante bucal possa, em teoria, reduzir a quantidade de vírus ou bactérias na boca de alguém por um curto período, não é possível esterilizar uma boca humana e qualquer micróbio crescerá novamente em um período bastante curto. "Você não pode esterilizar sua boca. Ela nunca estará totalmente livre de patógenos. Usar esses enxaguantes bucais não interromperá substancialmente o processo da doença. O vírus continuará a se replicar", explica Snyder.

Enxaguante bucal não protege da COVID-19, alertam especialistas (Imagem: HwangMangjoo/Rawpixel)
Enxaguante bucal não protege da COVID-19, alertam especialistas (Imagem: HwangMangjoo/Rawpixel)

De acordo com a Dra. Leana Wen, médica emergencial e professora visitante de Política e Gestão de Saúde na Escola de Saúde Pública da Universidade George Washington, o enxaguante bucal, assim como outros desinfetantes, fará pouco para proteger alguém da inalação do vírus. "O vírus pode entrar em nosso sistema respiratório de duas maneiras. Pode entrar por contato, por exemplo, se você encostar em uma maçaneta que outra pessoa acabou de tocar e que tem coronavírus, e então tocar seu nariz, boca ou olhos", explica Wen.

"O coronavírus também pode entrar [em seu corpo] por inalação, quando você respira o mesmo ar que alguém que está infectado. Lavar a boca ou o nariz não impede que o vírus seja inalado. Mas usar uma máscara sim, e também manter uma boa distância física [de outras pessoas]", reitera.

Com isso em mente, a própria Johnson & Johnson, fabricante do colutório Listerine, alertou explicitamente os consumidores contra a ideia: "O enxaguante bucal Listerine não foi testado contra nenhuma cepa do coronavírus. Apenas algumas formulações contêm álcool e, se for o caso, contêm apenas cerca de 20% de álcool. O enxaguante não é feito para esse uso, nem seria benéfico como desinfetante para as mãos ou desinfetante de superfície", afirmou a empresa.

Fonte: Canaltech

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