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ENTREVISTA-Café do Brasil ganhará mercado com volumosa safra de boa qualidade, diz BSCA

Por Roberto Samora
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Trabalhador seleciona grãos de café arábica após colheita em Alfenas (MG)
Trabalhador seleciona grãos de café arábica após colheita em Alfenas (MG)

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - Após sofrer inicialmente impacto da pandemia, a demanda global por cafés especiais está sendo retomada com força, o que permitirá ao Brazil escoar uma safra com maior volume de grãos diferenciados e até mesmo ganhar mercado na categoria premium no exterior, avaliou uma representante do setor brasileiro.

Em entrevista à Reuters, a diretora-executiva da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Vanúsia Nogueira, estimou que as vendas desses grãos diferenciados brasileiros podem aumentar 5% em 2020, graças a uma colheita abundante e de "excelente" qualidade, em um ano em que concorrentes "não estão conseguindo entregar" por conta de impactos da pandemia.

Para ela, o Brasil conseguiu concluir os trabalhos do campo em 2020 sem grandes sobressaltos, com organização do setor e ajuda de processos mecanizados na colheita existentes hoje na maior parte dos cafezais brasileiros, o que reduz a necessidade de trabalhadores no país que é o terceiro no ranking com mais casos de Covid-19.

A Colômbia, terceira produtora global e a principal em café arábica lavado, está amargando queda de 10% nas exportações no acumulado do ano, com a federação de cafeicultores citando restrições à mobilidade para controlar a pandemia. Já a Costa Rica alertou que o fechamento das fronteiras para conter o vírus reduz a mão de obra para a colheita.

"Achamos que vamos aumentar a nossa participação em cafés especiais e sustentáveis. Com certeza vamos aumentar, a safra está muito boa e tem concorrentes nossos que não conseguiram entregar, o que é interessante para nós", disse Vanúsia, gestora do projeto "Brazil. The Coffee Nation", uma parceria da BSCA com a agência de promoção de exportações Apex para elevar vendas de cafés especiais do país.

De outro lado, o Brasil, maior produtor e também o maior fornecedor de cafés certificados, segundo a BSCA, "passou até com certa tranquilidade" pela colheita em plena pandemia.

Segundo a executiva, que trabalha no setor há 19 anos, isso ocorreu também em função do profissionalismo exigido na certificação dos produtos, o que fez com que o país conseguisse incorporar as orientações preventivas à Covid-19 na colheita.

O Brasil responde por quase 30% das mais de 60 milhões de sacas certificadas no mundo por organismos como RainForest Alliance, UTZ, 4C e Fair Trade, disse a associação. Além disso, cerca de 10 milhões de sacas, ou aproximadamente 15% produção brasileira, é formada por cafés especiais, segundo a BSCA.

"Tivemos pouquíssimos casos de Covid durante a colheita e estamos concluindo esse processo agora, e foi uma safra muito boa em termos de quantidade e qualidade, e sem sofrimento", afirmou ela, cuja família produz café em Três Pontas (MG).

Além das floradas terem sido uniformes para a formação da safra 2020, o período de colheita foi bastante seco, o que reduz problemas de qualidade e evita interrupções. A cautela com a pandemia acabou ajudando, pois produtores aguardaram mais o amadurecimento dos frutos, para otimizar os trabalhos e minimizar riscos, obtendo assim um maior volume de café cereja.

Dessa forma, ela espera que os cafés brasileiros tenham bom desempenho na fase internacional do concurso Cup Of Excellence, que premia os melhores cafés do mundo.

DEMANDA

Vanúsia comentou que a pandemia afetou o mercado de cafés especiais de várias formas, primeiro com uma grande demanda e consumidores europeus esvaziando as prateleiras, em um movimento de "pânico". Depois, os compradores --clientes de especiais têm contratos de longo prazo-- pisaram no freio, dizendo, "vamos querer, mas mais tarde".

"Achamos que teríamos um 'delay' de 60 dias, mas aos poucos, à medida que há a reabertura, o pessoal começou a pedir de novo, e tivemos até falta de embalagem, o que é bom, quando começa a faltar embalagem mostra que estamos tendo uma retomada em velocidade muito maior do que se esperava", revelou.

Um exemplo de aumento de demanda é a Coreia do Sul, "que está pedindo mais café do que no ano passado", disse Vanúsia, que citou ainda projeção recente da Organização Internacional do Café de que o mercado em geral vai crescer.

As exportações de cafés diferenciados do Brasil, com qualidade superior ou algum tipo de certificado, ainda estão em queda de 12% de janeiro a agosto, para 4,4 milhões de sacas, conforme dados do conselho de exportadores Cecafé, após uma safra em 2019 com problemas de qualidade, uma tendência que Vanúsia espera ser revertida ainda este ano.

"Esperamos aumento, apesar de tudo."