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Entregador de aplicativo é sufocado por PMs: ‘Eu não consigo respirar’

Ponte Jornalismo
·4 minuto de leitura

Por Arthur Stabile

Dois PMs agrediram um entregador durante abordagem policial na região de Pinheiros, zona oeste da cidade de São Paulo, na tarde desta terça-feira (14/7). “Socorro! Eu não consigo respirar”, disse o homem. Ele repetia que estava com falta de ar e questionava o motivo da abordagem truculenta, enquanto uma policial dava um golpe em seu pescoço.

A frase do entregador é a mesma que percorreu o mundo após o assassinato de George Floyd, um homem negro, por um policial branco em Minneapolis, nos EUA.

Mais na Ponte:

Outros motoboys registraram a cena com seus celulares. Depois de derrubar o homem, dois PMs tentam imobilizá-lo. Eles participavam de um protesto na avenida Rebouças, que liga a zona oeste com o centro da capital paulista, por melhores condições de trabalho nos aplicativos de entrega.

“Aí, ó. Desse jeito aí. Olha a polícia nossa. É trabalhador!”, diz uma pessoa, enquanto um policial armado manda todos saírem. “Afasta!”, diz repetidas vezes. “Vai matar o cara. Pra quê isso?”, alerta um motoboy.

Os policiais são da 1º companhia do 23º Batalhão de Polícia Militar, localizado no Alto de Pinheiros, bairro rico da capital paulista. A identificação da viatura é M-23116.

Após a agressão, o entregador e os policiais militares registraram ocorrência por resistência à prisão no 14º DP (Pinheiros). Segundo apurado pela Ponte, o motoboy assinou um termo circunstanciado e foi liberado.

A versão dos policiais é de que ele teria desobedecido a abordagem ao pedir para esperarem o término de uma ligação. Os PMs consideraram como resistência e daí por diante se deu a cena filmada.

Na saída, o homem explicou o que aconteceu. “Seis policiais me agrediram, bateram e ameaçaram. Jogaram spray na minha cara, me eletrocutaram”, relata o homem, dizendo que os policiais tentaram tirar uma foto dele.

“Ela [policial feminina] queria me tratar como autor de crime, queria tirar foto minha. Como não deixei, disse que ia me forjar, me matar, um monte de coisa”, continua.

Na saída, o motoboy informou que teve a moto apreendida. “Eu parado e fizeram tudo isso comigo. Prenderam minha moto, me ameaçaram de morte e tudo mais só porque eu não deixei tirar uma foto minha”.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), a ordem de parada se deu porque o entregador estava com a placa da moto encoberta.

“O motociclista ofereceu resistência, sendo contido”, diz a pasta. “Foi constatado que ele está com a habilitação vencida desde 2019. A motocicleta foi apreendida administrativamente e a autoridade policial solicitou exames de corpo de delito aos policiais e ao rapaz”, prossegue.

Caso nada isolado

O caso acontece em meio a outros flagrantes de policiais agredindo pessoas durante abordagem. Em 21 de junho, policiais militares sufocaram um homem em Carapicuíba (Grande SP), o fazendo desmaiar por duas vezes. Dois dias depois, ação similar ocorreu em Ibaté, interior do estado. Ambas as vítimas eram negras.

No último domingo, o Fantástico, da TV Globo, revelou agressão de um PM a uma mulher negra de 51 anos. Imagens mostraram o policial pisando com o pé e jogando todo peso do seu corpo no pescoço da dona de um bar. O caso aconteceu em 30 de maio. “Os policiais sempre souberam conversar, sempre tratei com respeito. Sempre respeitei a farda. Infelizmente, não vejo mais essa farda com bons olhos”, lamenta.

“Mais uma vez imagens mostram a forma abusiva, truculenta e criminosa de agir da PM. Nada justifica esse tipo de ação”, define o advogado Damazio Gomes, integrante da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio.

Segundo ele, se houve desacato, o homem deveria ser conduzido à delegacia de outra forma. “Se ele resiste à prisão, aí seria justificado tentarem imobilizá-lo. No vídeo não se demonstra isso”, analisa.

O defensor cobra explicações do governo paulista e dos oficiais da PM. “É totalmente desproporcional. O comando da polícia precisa se posicionar. A sociedade está com medo da polícia e não é de hoje”, critica.