Entidades empresariais cobram fim imediato de bloqueios golpistas

SÃO PAULO, SP, 01.11.2022 - PROTESTO-SP: Caminhoneiros apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) protestam e bloqueiam a rodovia Castelo Branco, na altura do km 20, em São Paulo, nesta terça-feira. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 01.11.2022 - PROTESTO-SP: Caminhoneiros apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) protestam e bloqueiam a rodovia Castelo Branco, na altura do km 20, em São Paulo, nesta terça-feira. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Entidades empresariais cobram a liberação imediata das rodovias bloqueadas por atos antidemocráticos que estão sendo realizados por bolsonaristas desde segunda-feira (31) no país.

A pressão de setores como a indústria ganhou força nesta terça (1º) com a publicação de comunicados que citam possíveis prejuízos para empresas, funcionários e consumidores.

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) afirmou que é "veementemente contrária a qualquer manifestação antidemocrática que prejudique o país e sua população".

A entidade também aponta para o "iminente risco de desabastecimento e falta de combustíveis, caso as rodovias não sejam rapidamente desbloqueadas".

"As indústrias já sentem impactos no escoamento da produção e relatam casos de impossibilidade do deslocamento de trabalhadores", diz a CNI.

Os bloqueios das vias foram promovidos após a divulgação do resultado do segundo turno das eleições presidenciais, que ocorreu no domingo (30). Sem provas, manifestantes contestam a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL).

A Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) afirmou que "é imprescindível desbloquear as estradas o quanto antes".

Conforme a entidade, a situação já provocou problemas no recebimento de matérias-primas e no escoamento de produtos. Também há dificuldades para o deslocamento de trabalhadores, o que suspendeu a operação em algumas fábricas fluminenses.

"Outras optaram por reduzir o ritmo de sua linha de produção", acrescentou.

A Fiergs (Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul) também cobrou a resolução do impasse.

"O problema requer solução urgente para que não haja desabastecimento de produtos essenciais, o que atinge alimentos, combustíveis, e grande parte dos insumos industriais da maioria dos segmentos fabris", apontou.

SUPERMERCADOS JÁ COMEÇAM A SENTIR FALTA DE PRODUTOS

Mais de 70% dos supermercados nas regiões mais afetadas pelos bloqueios nas rodovias enfrentam problemas de abastecimento, e até esta sexta-feira (4), consumidores de todo o país podem ter dificuldade para comprar frutas, verduras e legumes. É o que indica um levantamento da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), divulgado em coletiva de imprensa na tarde desta terça (1º).

De acordo com Marcio Mila, vice-presidente da associação, mesmo que o fluxo de veículos esteja praticamente normalizado, os bloqueios feitos por golpistas em mais de 300 estradas brasileiras vai refletir em desabastecimento dentro de três dias.

Durante a manhã desta terça, a Apas (Associação Paulista de Supermercados) afirmou que orientou seus 4.500 supermercados associados a antecipar a logística em relação às suas lojas e centros de distribuição, por causa dos bloqueios.

Questionados pela Folha de S.Paulo, os dois maiores grupos do varejo alimentar do país, Carrefour e Pão de Açúcar (GPA), afirmam que até agora os problemas são pontuais. Lojas da rede Chama Supermercados, da zona leste de São Paulo, começam a ficar desabastecidas em carnes e hortifrútis.

COMÉRCIO PROJETA PREJUÍZOS

Os impactos vão além das fábricas. As perdas diárias do comércio com os bloqueios antidemocráticos podem superar as registradas durante a greve dos caminhoneiros de 2018, segundo estimativa da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).

Em maio de 2018, o movimento causou retração de 5,8% no volume de vendas do comércio —uma perda diária de R$ 1,8 bilhão em valores de 2022.

Foi a maior queda do volume de vendas do varejo para meses de maio em toda a série histórica da Pesquisa Mensal de Comércio, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Desta vez, os estoques do comércio estão mais frágeis do que eram antes da pandemia.

"O comércio depende muito mais agora da circulação de mercadorias. Não me espantaria se as perdas chegassem a R$ 2 bilhões, em termos de média diária", diz o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.

Ele ressalta que essa perda não ocorre no primeiro dia, mas de forma gradual. "Desde a Covid-19, o comércio se tornou mais dependente de vendas virtuais e de entregas. Não acredito que essas perdas durem dez dias, como em 2018, mas causam perdas nas vendas e aumentam os custos."

O economista acrescenta que em maio de 2018 a redução dos estoques levou o preço da gasolina a subir 3,34% e o óleo diesel, 6,16%.

"Assim, até a normalização na distribuição dos combustíveis e outros produtos, a inflação corroeu a margem de comercialização das empresas."

FÁBRICAS DE PRODUTOS DE LIMPEZA PARAM PRODUÇÃO

A Abipla (Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes para Uso Doméstico e Uso Profissional) informou nesta terça-feira (1º) que os bloqueios nas estradas já paralisaram a indústria do setor por falta de insumos.

A Folha apurou que linhas de produção começaram a ser suspensas hoje em indústrias de pelo menos três regiões: interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

"O setor tem convivido com um grande aumento dos custos de produção nos últimos anos, e nossa expectativa era de estabilização até o fim do ano. Uma paralisação prolongada pode provocar nova pressão de custos", diz o diretor-executivo da Abipla, Paulo Engler.

Centrais sindicais também se manifestaram sobre o tema. Em nota, reafirmaram a defesa da democracia e do processo eleitoral.

"Não podemos aceitar uma espécie de 3º turno que setores políticos isolados do bolsonarismo tentam, numa estratégia golpista e antidemocrática, submeter a sociedade brasileira através de tumultos, bloqueios de rodovias e outras manifestações sem respaldo político e popular", indicou o manifesto.

O texto é assinado por CUT (Central Única dos Trabalhadores), Força Sindical, UGT (União Geral dos Trabalhadores), CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), NCST (Nova Central Sindical de Trabalhadores) e CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros).