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Entenda quais as consequências da demora na vacinação no Brasil

Anita Efraim
·5 minuto de leitura
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - FEBRUARY 01: A health worker draws the CoronaVac vaccine from a vial at a drive-thru vaccination post at the Rio de Janeiro State University (UERJ) on February 1, 2021 in Rio de Janeiro, Brazil. The city of Rio de Janeiro started today a priority vaccination program against COVID-19 in elderly people over 99 years old. Immunization is being carried out in 236 clinics, in addition to posts using the drive-thru system. The CoronaVac vaccine was developed by the Chinese laboratory Sinovac in partnership with the Butantan Institute. (Photo by Buda Mendes/Getty Images)
Até quinta-feira, 4 de fevereiro, foram vacinadas um milhão de pessoas no Brasil (Foto: Buda Mendes/Getty Images)

O início da vacinação no Brasil gerou esperanças em muitos cidadãos, uma espécie de luz no fim do túnel, o começo do fim de um momento de terror causado pelo coronavírus. No entanto, o ritmo da imunização no país é lento. Segundo o vacinômetro do Ministério da Saúde, 1,03 milhão de brasileiros receberam a imunização.

A demora pode gerar consequências, como o prolongamento da epidemia, além de facilitar o surgimento de novas mutações.

Na avaliação da epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, a vacinação “a conta gotas”, como está acontecendo no Brasil, pouco vai ajudar e a falta de vacinas é o grande problema. “Está demorando porque não tem vacina, porque a capacidade de vacinar milhões de pessoas rapidamente, a gente tem. O que a gente não tem é o quantitativo de vacina”, avalia.

Até o momento, o Brasil aprovou o uso emergencial da CoronaVac, do Instituto Butantan em parceria com a SinoVac, e a vacina Oxford/AstraZeneca. Nenhuma delas, no entanto, está sendo produzida em larga escala no país até o momento.

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A situação fica ainda mais grave com a falta de medidas que possam conter a transmissão. Com isso, é mais propício que surjam novas variantes da covid-19. “Tem muita relação entre a demora na vacinação e as novas variantes. Porque toda vez que o vírus replica, ele sofre mutações. Mutações ocorrem aleatoriamente, então, quanto mais a gente deixa o vírus replicar, quanto mais transmissão houver, mais chance de aparecerem mutações”, explica.

“A única expectativa de caírem os índices, o número de casos e de morte sem uma vacinação rápida, seria a implementação de medidas de controle. Que seriam o distanciamento social, a obrigatoriedade de máscara, a diminuição de aglomerações, em lugares fechados especialmente”, aponta.

Alexandre Zavascki, professor de Infectologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, reforça que a maior transmissibilidade do vírus pode causar mutações. “Então, vacinar serve para diminuir a circulação e diminuir a emergência de mutantes. Os mutantes, eventualmente, podem afetar a capacidade da vacina, é um dos grandes temores que a gente tem”, lembra.

O médico também observa que, até o momento, não se sabe por quanto tempo as vacinas são capazes de gerar imunidade nas vacinados. “A principal consequência de uma demora na vacinação é nós não conseguirmos atingir uma homogeneidade na população de pessoas com proteção contra o agravamento do coronavírus. Nós só conseguirmos isso em parte da população, o que acaba não afetando o impacto da doença em um contexto maior”, explica.

“O que acontece: essa demora pode ocasionar que, quando você estiver vacinando uma parte da população, aquela que foi vacinada primeiro pode estar perdendo, pelo menos parte, a proteção conferida pela vacina. Embora a gente não saiba ainda quanto tempo dure, não é esperado que seja uma imunidade duradoura ou vitalícia. É provável que tenha que se fazer reforços, isso a gente vai aprendendo. Então, se você tem uma velocidade muito lenta, você não consegue atingir essa homogeneidade. Permite que sempre esteja ocorrendo circulação do vírus.”

O governo brasileiro estive que sejam necessárias 350 milhões de doses de vacinas contra o coronavírus para imunizar toda a população. O contingente no país, até o momento, é baixo. Estão sendo usadas 2 milhões de doses da AstraZeneca/Oxford e 6 milhões de doses da CoronaVac. O governo de São Paulo estima que, até o fim de março, o Instituto Butantan produza mais 17 milhões de doses, com os insumos que chegaram da China na última quarta-feira, 3, e chegarão no próximo dia 10.

Há, ainda, negociação para a compra da vacina russa, Sputnik V e da Covaxin, da Índia. As tratativas para aquisição da vacina da Pfizer, usada nos Estados Unidos e na União Europeia, se arrastam desde dezembro.

PROBLEMAS NO PNI

Denise Garrett e Alexandre Zavascki consideram o Plano Nacional de Imunização fundamental para conseguir imunizar a população, mas põe em dúvida a estratégia atual.

“O PNI é fundamental, mas é fundamental que você tenha o plano elaborado e você tenha as condições para executar esse plano. Não adianta ter o plano escrito e a vacina não chegar no braço das pessoas”, diz Zavascki. Ele avalia que municípios, estados e governo federal não estão sendo capazes de executar a estratégia definida, especialmente pela falta de vacinas. “Mas, mesmo com as poucas que temos, vemos uma demora. Ou seja, não estão conseguindo executar o que foi planejado.”

“O plano é fundamental, mas tão fundamental quanto o plano são as medidas para implementação e execução deste plano”, avalia Zavascki.

Denise destaca que o PNI sempre foi um programa respeitado e, por causa dele, foi possível garantir a vacina como um direito do cidadão. No entanto, atualmente, a epidemiologista vê uma desestruturação, causado pelo negacionismo da ciência por parte do governo Jair Bolsonaro. “O PNI perdeu o papel que deveria ter, que é o papel de protagonista, deveria estar coordenando a estratégia em nível nacional”, opina.

“Ainda bem que o governo pelo menos decidiu comprar a CoronaVac e a vacina da AstraZeneca e existe um plano de imunização, porque o PNI sabe fazer isso. O problema é que não temos doses, não se pode haver uma campanha sem doses da vacina. Não se pode ter uma campanha que dure um ano, isso não é uma campanha.”