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Entenda fatores que afetam preços inflacionados dos ingressos no futebol brasileiro

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O futebol brasileiro entrou na era dos ingressos de quatro dígitos. Tanto a semifinal da Copa do Brasil, entre Flamengo e Athletico, amanhã, quanto a decisão da Libertadores, entre o time de Renato Gaúcho e o Palmeiras, daqui a um mês, contam com entradas custando mais de R$ 1 mil — algumas, o triplo do salário mínimo nacional, hoje em R$ 1,1 mil. O encarecimento do tíquete é uma tendência, mas é difícil prever se esses valores vão se transformar em uma nova realidade, a pesar no bolso do torcedor, ou se serão praticados apenas em jogos específicos.

De um lado, existe o apelo gerado pelas partidas decisivas. Isso não é novo, nem deve mudar. De 2019 para a final da Libertadores deste ano, o preço médio do ingresso foi de R$ 584 a R$ 2.296, um aumento de 168% acima do valor do primeiro quando corrigido pela inflação no período. A Conmebol transformou a final em partida única, a ser disputada em sede determinada previamente, e o produto ganhou ares de evento excepcional. E tudo que não se repete custa mais caro.

— Temos de separar esses jogos dos restantes — ressalta Fernando Trevisan, diretor da Trevisan Escola de Negócios. — Esse tipo de jogo se assemelha mais a um festival de música, a um desfile na Sapucaí. É um evento pontual, e, como vários eventos desse tipo, acontece com preços majorados

Contribui para o custo elevado, no caso da Libertadores, a mão pesada dos dirigentes sul-americanos, que realizam os cálculos da final em dólares. Com o real desvalorizado frente à moeda americana, rubro-negros e palmeirenses terão de gastar ainda mais no dia 27 de novembro. Ao menos, terão acesso a mais ingressos no Centenário, depois que o governo uruguaio decidiu, ontem, pela liberação de 75% da capacidade em lugares totalmente ao ar livre — uma medida para manter a pandemia sob controle.

Quando a competição é nacional, o trabalho de estipular o preço da entrada é do clube mandante, que leva em consideração fatores como custo operacional do estádio, momento esportivo da equipe, estratégias de valorização dos programas de sócio-torcedor, ganho técnico de ter o estádio lotado a seu favor, entre outros pontos. É uma operação complexa. O que parece claro, no horizonte dos dirigentes, é o desejo de esticar ao máximo a corda dos que têm maior poder aquisitivo.

Isso porque a implementação das novas arenas, construídas por ocasião da Copa do Mundo de 2014, elevou os preços de uma forma geral no país. E numa proporção muito maior nos lugares mais valorizados do estádio do que nos assentos menos nobres.

Para se ter uma ideia, da semifinal da Copa do Brasil de 2006 para a de 2021, o ingresso mais barato cobrado pelo Fla subiu de R$ 15 para R$ 40. Trata-se de um aumento inferior à correção pela inflação. Há casos, porém, em que somente podem aproveitar esse preço os torcedores que já pagam uma quantia aos programas de sócio-torcedor. O mesmo não pode ser dito a respeito dos tíquetes mais valorizados, que saltaram de R$ 50 para R$ 1.000 — num setor que oferece comida, bebida e outros serviços.

Fator Covid-19

A pandemia também entra neste cálculo para entender os preços atuais. O período de 18 meses sem torcedores nos estádios afetou drasticamente as receitas de alguns clubes, especialmente daqueles que atuam em estádios com boa capacidade e percentual de ocupação. Ele também gerou uma grande demanda dos torcedores pela experiência de assistir ao time do coração presencialmente. A soma dessa alta procura com o desejo dos clubes por retomar rapidamente o patamar de arrecadação com bilheteria fez com que eles precificassem os bilhetes em um patamar acima do que era praticado em 2019, antes da Covid-19.

— A pandemia trouxe este fato nunca visto nas últimas décadas, um período tão grande de ausência de público nos estádios. O interessante é que trouxe também o fenômeno da “escassez” que contribui para que os ingressos tenham uma precificação maior do que o normal, além é claro do fato de serem fases finais de torneios tão importantes — afirma Rene Salviano, especialista em marketing esportivo.

Entretanto, já foi possível perceber que o torcedor não está suscetível a qualquer valor, dependendo da partida. Há muitos casos de clubes na Série A que não conseguiram vender todos os ingressos disponíveis neste retorno da torcida aos estádios, mesmo disponibilizando menos entradas do que o normal, o que ocasionou prejuízos. Com a crise econômica e a redução do poder de consumo, os clubes não terão outra alternativa que não trabalhar com ingressos mais baratos.

— Estamos falando de um produto de massa, não dá para cobrar valor tão alto. A população vive extrema restrição orçamentária — aponta Fernando Trevisan.

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