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Entenda as diferenças entre as pesquisas de emprego Pnad e Caged

DANIELA ARCANJO
·6 minuto de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 30.09.2020 - Pessoas olham para anúncios de vagas de emprego na Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 30.09.2020 - Pessoas olham para anúncios de vagas de emprego na Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os números que retratam o desempenho do mercado de trabalho no Brasil em 2020 parecem, à primeira vista, contraditórios: segundo uma pesquisa, foram 412 mil vagas de trabalho formais abertas em 2020 ; segundo outra; a taxa média de desemprego nunca foi tão alta (13,5%).

O primeiro dado vem do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgado pelo Ministério da Economia e que abrange apenas contratos regidos pela CLT. O segundo é resultado da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios) contínua, feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e que engloba todo o mercado de trabalho -inclusive informal.

Ambas as pesquisas sofreram mudanças na metodologia nas últimos meses. Entenda como esses número são apurados, quais passos para recolhê-los e se eles podem ou não ser comparados.

De onde vêm os dados da Pnad Contínua? A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua, ou Pnad Contínua, é um levantamento mensal do IBGE, feito em todo o Brasil, que começou a ser feito em janeiro de 2012, quando começa a sua série histórica.

Os resultados da Pnad são sempre referentes a um trimestre. Na Pnad mensal referente a janeiro, por exemplo, são englobados dados de novembro, dezembro e janeiro; na referente a fevereiro, temos novamente dezembro e janeiro na conta. Essa divulgação traz dados como taxa de desocupação.

Na Pnad trimestral, são divulgados dados fechados mais detalhados de um trimestre (janeiro-março, abril-junho, julho-setembro, outubro-dezembro).

Os indicadores são referentes à força de trabalho brasileira. Os entrevistadores perguntam a uma amostra da população brasileira a sua situação empregatícia e sobre as condições do emprego (formal ou informal, setor da atividade, empregado ou autônomo, por exemplo).

A pesquisa calcula também a quantidade de desalentados. É a categoria que reúne pessoas que gostariam de trabalhar, mas que já não estam procurando emprego.

Periodicamente, outros assuntos podem ser abordados. Questões relativas a habitação, por exemplo, são feitas na primeira visita do ano, assim como características gerais dos moradores.

De onde vêm os dados do Caged? O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) deve ser preenchido por empregadores com informações sobre admissões e desligamentos de funcionários da empresa. Esse formulário deve ser enviado por meio de um sistema próprio na internet, e as empresas que dispensarem ou contratarem empregados e não derem essa informação ao Caged podem ser penalizadas.

Com base nos cadastros, é possível saber quantas vagas foram abertas e fechadas no país durante o período -normalmente um mês, periodicidade da divulgação- e calcular o número de aberturas de vagas líquido (contratações menos desligamentos).

Os dados só abrangem os contratos regidos pela CLT (Consolidacao das Leis do Trabalho), diferentemente da Pnad, que abarca também o setor informal e autônomos. É possível saber a abertura e fechamento de vagas por região e setor.

Sua série histórica começa em 1992, embora tenha sofrido mudanças metodológicas que impossibilitam a comparação com números anteriores a 2020.

O que mudou nas metodologias?

Em março de 2020, o IBGE anunciou que a coleta presencial de pesquisas estava suspensa "considerando o quadro de emergência da saúde pública", segundo o site do instituto. As medidas foram tomadas seis dias depois de a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar que havia uma pandemia provocada pelo novo coronavírus.

Dois dias depois, o instituto afirmou que a coleta de dados seria feita por telefone, situação que se mantém até hoje, em razão da pandemia. Renan Pieri, professor convidado da FGV-SP, diz que essa mudança pode ter um impacto qualitativo na pesquisa.

"O perfil de quem para e responde uma pesquisa na rua é diferente de quem atende ao telefone no meio do dia para responder", afirma. "Ainda temos que observar se houve, de fato, mudança de perfil sociodemográfico dos entrevistados."

A Pnad esclareceu em nota que vem realizando estudos para identificar eventual viés em sua nova metodologia. Os resultados indicam que os índices ficam dentro do intervalo de confiança esperado, porém o instituto decidiu por diminuir temporariamente o detalhamento dos perfis para "amenizar os efeitos da influência dessas características nos resultados".

O instituo diz ainda que está estudando eventual viés de disponibilidade, ou seja, "maior concentração entre os respondentes da pesquisa de pessoas com determinado perfil de sexo e idade".

Houve uma mudança de metodologia também no Caged, mas nesse caso anterior à pandemia. Uma portaria de outubro de 2019 mudou o sistema de preenchimento de dados -feito hoje pelo pelo eSocial- e passou a reunir mais informações na mesma base de dados. O novo Caged tornou obrigatório informar a admissão e demissão de empregados temporários, por exemplo. Antes, essa comunicação era facultativa.

Marcelo Neri, diretor do FGV Social e ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, vê a mudança como algo positivo. "É uma plataforma mais robusta que amplia o escopo do Caged para fronteiras além do que ele captava", afirma.

"Talvez as duas bases estejam erradas. Eu não descarto isso, porque são adaptações -seja a nova metodologia do Caged, seja o impacto da pandemia sobre ambas as bases de dados. As firmas podem não estar ativas, podem não estar notificando o desligamento na proporção do ocorrido, há várias possibilidades", diz Neri.

Os dados são comparáveis, apesar da mudança na metodologia? Para Neri, as mudanças metodológicas do Caged inviabilizam a comparação entre a série histórica atual, a partir da alteração, e a anterior à portaria de outubro de 2019. A inclusão de registros de empregos temporários, por exemplo, pode ter aumentado o número de vagas.

"A comparação dele com anos anteriores não é assegurada. É como comparar laranjas com bananas", diz Neri.

Para Pieri, é difícil compará-los até com janeiro do ano passado, quando o novo Caged já estava em vigor. "Existe a possibilidade de os dados de demissões estarem atrasados. Existe a hipótese de ter havido uma demora para registrar os dados das empresas que fecharam", afirma. "Uma análise do acumulado do ano teria menos ruído, talvez."

O pesquisador Bruno Ottoni, do iDados e do Ibre/FGV, comparou os dados lançados no novo Caged e os que foram apurados na metodologia anterior. Para isso, ele usou números do período de abril a dezembro de 2019.

Na média, o pesquisador calculou uma diferença de 74% entre o saldo de vagas registrado no Caged antigo e aquele extraído a partir dos dados do eSocial. Em maio de 2019, a variação chega a 361%. Enquanto a base de informações antiga registrou 9.712 novos postos de trabalho, o eSocial tinha 44,7 mil. As diferenças são grandes em praticamente todos os meses. Apenas em dezembro a variação foi negativa, pois o Caged antigo registrou um corte de vagas de emprego superior ao do novo sistema.

É possível comparar Pnad e Caged entre si? Não, são bases de informação distintas. A Pnad é uma pesquisa mais completa sobre o comportamento e situação dos brasileiros, especialmente pela grande quantidade de trabalhadores informais. O Caged, por sua vez, sempre foi a fonte mais confiável para os dados de emprego formal.