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Entenda como a suspensão da produção nos frigoríficos pode impactar o preço da carne bovina

Letycia Cardoso
·4 minuto de leitura

Com a recessão econômica, muitos brasileiros tiveram que escolher o dia da semana para ter carne bovina no prato ou, ainda, substituir definitivamente o item por outros tipos de proteína, como frango e boi. O arrocho no orçamento se deu pela soma dos altos preços com a redução da renda. A partir de agora, no entanto, economistas alertam que os valores podem aumentar ainda mais para o consumidor final. É que, com a decisão dos frigoríficos de suspender o processamento de carne, a demanda pode superar a oferta.

Na casa da professora municipal Tatiana Braga, de 40 anos, são três pessoas para alimentar: ela própria, o marido e uma filha de 16 anos. Apesar de adorar comer carne de boi, conta que o item só entra na lista em dia de promoção no mercado.

— Está difícil fechar o mês no azul. Os preços estão ficando exorbitantes. Infelizmente, temos que fazer escolhas e, essa semana, só compramos frango, linguiça e ovo. À noite, ao invés de fazer jantar, estamos fazendo omelete, lanches, coisas que economizem. Por isso, estamos consumindo cerca de 60 ovos em 15 dias — diz Tatiana: — o gasto com alimentação só não é maior porque estou trabalhando de forma presencial e consigo almoçar na escola.

Segundo o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-Esalq/USP), Thiago Bernardino, a pouca quantidade de boi disponível no mercado contribuiu para o aumento dos preços. Segundo ele, entre 2018 e 2019, o valor pago pelo boi gordo sofreu uma desvalorização, o que estimulou produtores a abaterem mais fêmeas. Em 2020, esse cenário, somado à maior demanda da China, teve por consequência a falta de bezerros.

— No ano passado, tivemos inseminação recorde, com 22% do rebanho inseminado, quando o usual era de 16%. Tivemos também o menor número de animais abatidos desde 2012 — contou.

E os preços podem ficar ainda mais caros. Nesta terça-feira (13), o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Paulo Mustefaga, afirmou que frigoríficos de pequeno, médio e grande portes suspenderam temporariamente o processo de produção pela dificuldade em repassar os altos custos para o mercado.

O professor de economia do Ibmec - RJ, Tiago Sayão, explica que, apesar de o Brasil usar soja e milho — produtos produzidos internamente — para a alimentação dos animais, depende de itens importados, como suplementação, que têm preços impactados pela alta do dólar. Em virtude do cenário econômico interno do país, a despesa não consegue ser repassada, reduzindo a margem de lucro. Ao suspender os abatimentos, para ele, os frigoríficos conseguiriam ganhar tempo e esperar condições mais favoráveis para a compra de insumos ou, ainda, mudar o plano de negócios e passar a trabalhar apenas com a exportação.

— Hoje, vários frigoríficos atendem simultaneamente os dois mercados, o interno e o externo. Se ele faz a restrição, pode se adequar à somente carne exportada. Vende em menor quantidade, mas o preço da arroba é maior, então compensa — analisa o professor: — Também pode segurar os abatimentos até enxergar no mercado brasileiro que há como fazer a equivalência de preço com a carne exportada, ou esperar a valorização do real para que isso dê a ele um custo menor.

Sayão ainda diz que o cenário de altos preços que existe hoje pode ser combinado, mais adiante, com uma menor quantidade de carne ofertada internamente, provocando um novo aumento de valores. Para o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), Andre Braz, essa pressão nos preços ainda pode ter reflexos na inflação:

—A carne foi um dos itens que mais subiu nos últimos 12 meses, com alta de quase 25%. Esse movimento pode gerar uma aceleração ainda maior na inflação. Há chance de as famílias, mesmo com esse aumento, continuarem comprando porque o bife é um dos produtos preferidos do brasileiro. Para isso, pode ser que se abra mão de itens supérfluos, como cerveja e referigerantes.

A maior demanda estrangeira por carnes de segunda, como acém, paleta e peito, contribuiu para o reajuste de 30% nos preços dessa variedade e de 15% nos valores de carnes de primeira, nos últimos 45 dias, segundo a Bolsa de Gêneros Alimentícios do Estado do Rio de Janeiro (BGA).

O diretor social da BGA, André Lemos, avalia que, como os preços praticados nos mercados internos e externos chegam a ter variação de até R$ 40 por arroba, diversos pecuaristas têm interesse em aproximar o valor nacional do praticado lá fora. Com a demanda exterior aquecida e a chegada da entressafra, em algumas regiões, já falta animal para abate.

— No ano passado, com o problema da peste suína, é que a China começou a recorrer ao boi brasileiro. Além de comprarem em volume maior, pagam mais caro pelo quilo. Essa potência asiática leva todos os cortes. Já outros países, como a Arábia Saudita, só compram carnes de segunda. Então, o preço da carne de segunda se aproximou muito da primeira. Hoje, os mercados compram o quilo da segunda por R$ 25, enquanto pagam cerca de R$ 30 na de primeira — explica Lemos.

A queda dos preços ainda deve demorar para acontecer. Para Lemos, isso só será possível daqui a quatro meses quando tiver a nova safra, com aumento na oferta de animais, e caso a China reduza o volume de bois comprado do Brasil.