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Entenda como o Flamengo pretende comprar um clube português sem gastar

·5 min de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na Gávea, procura-se por investidores com 50 milhões de euros (cerca de R$ 323 milhões na cotação atual) no bolso, dispostos a explorar o mercado internacional do futebol.

O Flamengo tem buscado viabilizar a compra de 70% das ações do modesto Tondela, de Portugal. A iniciativa faz parte de um plano que o clube chama de internacionalização de sua marca. A equipe portuguesa seria só a primeira de uma série de aquisições futuras.

Para o projeto sair do papel, será necessário desembolsar inicialmente 14 milhões de euros (R$ 91 milhões). O restante do aporte -36 milhões de euros (R$ 232 milhões)- entrará como capital de giro, garantindo a subsistência do negócio.

Fundado em 1933, o Clube Desportivo de Tondela funciona como uma sociedade anônima desportiva (SAD), um clube-empresa, e desde 2015 atua na primeira divisão do Campeonato Português.

O plano do Flamengo é não gastar centavo algum para ter o controle da equipe, mas por outro lado oferece como ativos sua numerosa torcida e as categorias de base.

No Brasil, a equipe carioca seguirá como associação civil, sem fins lucrativos. O Flamengo, então, propõe constituir uma offshore (termo em inglês usado para definir uma empresa aberta em outros países), que por sua vez em sociedade com o grupo de investidores fundaria a Fla International HoldCo. Caberá a essa companhia se associar ao Tondela.

Na Fla International, o time rubro-negro é quem deverá ter o controle, com posse de até 60% das ações, e os investidores ficarão com o percentual restante.

Caso o negócio seja consolidado, a equipe lusitana seguirá com suas cores tradicionais, verde-amarela, que por coincidência remetem à bandeira do Brasil. Já o segundo uniforme, atualmente verde, passaria a ser rubro-negro.

O nome Flamengo, de alguma forma, seria incorporado ao do Tondela. Esses detalhes, porém, serão fechados após o contrato assinado.

Um teaser nomeado como Projeto Nação, assinado em conjunto com o banco BTG Pactual e a empresa Win The Game, tem sido apresentado aos possíveis investidores, mas até agora não foi o suficiente para convencer algum grupo sobre a viabilidade do negócio.

No documento, o Flamengo narra os feitos de sua administração desde 2012 e a conquista de nove títulos, incluindo duas taças de Campeonato Brasileiro e a Libertadores. Também diz que, apesar da crise do coronavírus, deverá contabilizar uma receita bruta de R$ 1 bilhão em 2021.

O clube também coloca à disposição dos possíveis sócios a possibilidade de explorar sua base de fãs, com 42 milhões de torcedores, e tirar proveito da formação de atletas.

O anúncio diz que as categorias de base do Flamengo produzem 40 jogadores por ano, mas por outro lado complementa que nem todos têm chances de atuar no elenco profissional e adquirir rodagem em razão do alto nível de competitividade que o clube alcançou.

Desses, em média 5 compõem o time principal, 10 são emprestados e 25 dispensados, afirma a agremiação no documento.

Há a expectativa que o clube possa usar o Tondela como uma vitrine europeia para ampliar as receitas com a venda de atletas.

A peça lista exemplos como as transações de Vinicius Junior, aos 16 anos e por 45 milhões de euros ao Real Madrid (R$ 291 milhões em valores atuais) e Lucas Paquetá, aos 21 e por 35 milhões de euros ao Milan (R$ 226 milhões), além de outros que deixaram o clube de forma precoce, como Reinier, transferido para o Real Madrid aos 18, por 30 milhões de euros (R$ 194 milhões).

A Win the Game é uma joint-venture entre a BTG Pactual e a Fix Delivery Partners, focada na gestão do esporte. O advogado e CEO Claudio Pracownik foi vice-presidente de administração e de finanças do time carioca na gestão de Eduardo Bandeira de Mello (2013 e 2018).

Tondela é um município com quase 30 mil habitantes no distrito de Viseu, na região central de Portugal. O time permaneceu grande parte dos seus 88 anos de existência em divisões inferiores e conseguiu acesso à elite do Campeonato Português ao conquistar a Segunda Divisão em 2014/2015.

Desde então, a melhor campanha da agremiação portuguesa foi a 11ª colocação em 2017/2018. Atualmente, o time ocupa a mesma posição, com nove pontos em nove partidas. Derrotado pelo Porto por 3 a 1 no último sábado (23), o Tondela abrirá a décima rodada do Português contra o Arouca, na sexta-feira (29).

De acordo com o plano de negócios do Flamengo, o Tondela conseguiria vaga para disputar a Liga Europa em quatro anos e em oito teria acesso à Champions League. O mais badalado torneio de clubes do planeta reúne somente os dois primeiros colocados de Portugal de forma direta na fase de grupos. O terceiro melhor do país precisa passar pela fase preliminar.

Além das dificuldades para viabilizar o aporte financeiro, o projeto idealizado pelo vice-presidente de finanças do Flamengo, Rodrigo Tostes, também é contestado por uma ala influente da diretoria.

Durante uma entrevista coletiva, Marcos Braz, vice-presidente de futebol, foi questionado "se o Tondela estava perto". O dirigente suspirou e, na sequência, classificou o assunto como irritante.

"Estou desde os meus oito anos no Flamengo, já ouvi e vi de tudo. Não vou falar desse assunto. Primeiro que o presidente Landim nunca tocou nisso comigo, e tem um outro ponto: se o Flamengo de fato for ao mercado e quiser se associar a outro clube, botando dinheiro ou não, porque o Flamengo tem muito ativo que não é dinheiro, isso precisa passar nos conselhos do Flamengo", afirmou o dirigente, na ocasião.

Procurados pela reportagem desde segunda-feira (25), Tostes e Braz não atenderam aos pedidos da reportagem.

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