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Enquanto Henry sofria tortura, quase 300 crianças eram agredidas no Rio entre janeiro e fevereiro deste ano

Rafael Galdo
·4 minuto de leitura

“É um guerreirinho que, aos 2 meses de idade, sobrevive graças a um milagre”, descreve o tio de um bebê que, de acordo com a polícia, foi espancado pelo próprio pai em São Fidélis, no Norte Fluminense. O pequeno chegou há 16 dias à UTI de um hospital da região com cinco costelas quebradas, afundamento do crânio, pulmão perfurado, rins comprometidos e mordidas por todo o corpo. Na mesma semana em que, por um triz, ele resistia a tamanha crueldade, a cerca de 330 km dali, na cidade do Rio, peritos faziam uma reprodução simulada do óbito de Henry Borel Medeiros, de apenas 4 anos. O enteado do vereador Jairo Souza Santos Júnior — o Dr. Jairinho, preso sob suspeita do crime — havia morrido em 8 de março, mas nos meses que se antecederam já sofria com uma rotina de maus-tratos, segundo testemunhas e provas recolhidas na investigação. Barbárie parecida com a que, somente em janeiro e fevereiro de 2021, estiveram submetidas ao menos 292 crianças de até 11 anos no estado do Rio, aponta o Instituto de Segurança Pública (ISP).

No período, em média quase cinco casos por dia chegaram às delegacias: 209 vítimas de lesão corporal dolosa e 83 de maus tratos. O bebê de São Fidélis, por exemplo, foi levado ao hospital do município pelos pais, que no início atribuíram os ferimentos a desconhecidos. Como aconteceu com Henry, as equipes de saúde logo notificaram a suspeita às autoridades policiais, que desvendaram o caso: o pai confessou que ele bateu no pequeno porque o bebê “chorava muito”.

— Achamos que nunca vai acontecer na nossa família. Mas o menino parecia ter sido vítima de algo macabro. Eu me emociono só de lembrar quando o vi a agonia dele no hospital — conta o tio do bebê: —Fui à internet pedir orações, e a região inteira se mobilizou. Ele não está mais intubado e já se alimenta com a mamadeira.

Dados alarmantes

Em todo país, números preliminares do Ministério da Saúde mostram que, ano passado, foram 68.544 ocorrências de violência contra crianças de 0 a 14 anos notificadas apenas pelas unidades de saúde: quase oito a cada hora. A violência sexual representou 29% dos casos (19.866) e, a física, 23,5% (16.866). As vítimas de tortura foram 888. E ao menos 325 morreram devido às agressões, que são de notificação compulsória.

De uma forma geral, denúncias sobre essa brutalidade caíram durante a pandemia, segundo diferentes indicadores. O que não significa, porém, que a violações contra a população infantojuvenil tenham diminuído. Pelo contrário, podem ter aumentado, de forma ainda mais velada do que era antes.

Pandemia piora quadro

O promotor Rodrigo Medina explica que, com o isolamento social, as crianças não estão frequentando espaços de vida comunitária, como escola, pracinha, posto de saúde ou equipamentos da assistência social:

— Elas estão menos visíveis a quem poderia perceber que estão sofrendo, como é o caso dos professores.

Ele cita números do canal de denúncias Disque 100, que demonstram queda nos relatos de violência contra menores no Rio no primeiro trimestre: de 6.454 para 5.016.

— Nossas crianças estão sofrendo sozinhas. Por isso, a importância de toda a sociedade denunciar ao menor sinal de alteração do comportamento delas — diz o secretário nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Maurício Cunha.

Falta rede de apoio

Graças à Fundação para a Infância e Adolescência (FIA), é possível traçar um perfil dos que precisam de socorro. A maioria dos casos é de abuso sexual (49%), seguido de violência psicológica (24%) e física (16%). Os supostos autores mais comuns são o pai (40%) ou o padrasto (20%). Já as vítimas são 62% de meninas e 38% de meninos. Por faixa etária, as crianças pequenas, de 0 a 6 anos, são alvo em 58% dos casos.

— É uma violência que atinge todas as faixas sociais. Mas algumas crianças são mais vulneráveis, como as menores, talvez por não conseguirem verbalizar o que está acontecendo ou por serem mais fáceis de serem manipuladas. As que têm algum tipo de deficiência estão entre as mais agredidas — diz Adriane Reis Sabroza, assessora técnica da FIA.

O defensor público Rodrigo Azambuja ressalta que, no Rio, não são cumpridas as recomendações de quantidade de conselhos tutelares e CREAS por 100 mil habitantes. Delegacia especializada no atendimento à criança e adolescente também é só uma, no Centro da cidade.