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Enquanto 'Guardiões do Crivella' atacam denúncias, paciente espera atendimento por anos

Rafael Nascimento de Souza
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Rubem Ribeiro da Silva, de 65 anos, tenta retirar bolsa de colostomia desde 2018
Rubem Ribeiro da Silva, de 65 anos, tenta retirar bolsa de colostomia desde 2018

O ajudante de caminhão Rubem Ribeiro da Silva, de 65 anos, foi diagnosticado em 2018 com diverticulite, também conhecida como diverticulose — doença que afeta diretamente o intestino grosso. Na época, após passar mal, foi levado para a Unidade de Pronto-Atendimento do Engenho Novo, na Zona Norte do Rio, e realizou cirurgia de emergência no Hospital municipal Salgado Filho, no Méier, quando colocou uma bolsa de colostomia. Rubem deveria retirar o equipamento quatro meses depois, mas luta há dois anos para fazer o procedimento.

O problema de Rubem é um em dezenas que a Prefeitura do Rio tem enfrentado na Saúde durante a gestão de Marcelo Crivella (Republicanos). No entanto, na tentativa de esconder essas mazelas, o prefeito constituiu um grupo intitulado “Guardiões do Crivella”. Servidores públicos são pagos com dinheiro do contribuinte para atacar a imprensa, pacientes e parentes que fazem reclamações sobre a rede municipal de saúde. A denúncia foi divulgada pelo RJTV2, da TV Globo, na noite de segunda-feira.

Quando voltou ao hospital ainda em 2018, Rubem foi informado que já havia feito o procedimento. Ao retornar alguns meses depois, descobriu que seu nome não estava no livro de registros de operações. Na tentativa de resolver o problema, o agora aposentado, voltou a unidade de saúde nesta terça-feira e foi informado que só em outubro passará por uma consulta médica para definir uma possível data de retirada da bolsa de colostomia. Enquanto isso, ele diz se sentir “inútil”.

— Eu não sei mais o que fazer. Já vim aqui para fazer a cirurgia várias vezes e sempre há uma desculpa ou problema — diz o morador de Manguinhos, na Zona Norte — A minha vida acabou. Eu sou um homem inútil e não posso fazer nada. Não posso pegar dez quilos de arroz. Eu vou morrer com isso aqui? Só queria que eles resolveram a minha situação — lamentou.

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Desde 2018 os “Guardiões do Crivella” atuam na porta do Salgado Filho. A denúncia é de um técnico de enfermagem que trabalha na unidade há mais de 30 anos. Segundo o profissional, a prática era de cohecimento de todos os profissionais, inclusive da direção. Ainda de acordo com o servidor, que é concursado, a ação é adotada em todas as unidades de saúde geridas pelo município.

— Eles estão sempre aqui há dois anos. Na tentativa de acobertar as irregularidades, eles contrataram esses “seguranças”. São arbitrários e intimidam todo mundo — disse o profissional — Essa é uma prática em vários hospitais: Zona Oeste, Norte e Sul. É uma geral. São dezenas de problemas existentes que eles tentam acobertar.

Um policial civil que trabalha no hospital afirmou à reportagem que se notar a presença qualquer um desses “servidores” todos serão levados pra a delegacia. Nesta manhã, uma viatura da Operação Segurança Presente estava em frente ao hospital. Três policiais militares fazem a segurança do local. Funcionários do hospital relataram falta de profissionais, equipamentos e estrutura básica para o trabalho. A procura por atendimento era baixa por volta de 8h50 desta terça.

O Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) instaurou, na manhã desta terça-feira, um procedimento preparatório criminal para investigar a suposta prática de crimes que teriam sido cometidos pelo prefeito Marcelo Crivella pela criação do grupo 'Guardiões de Crivella'. A investigação ficará a cargo da Subprocuradoria-Geral de Justiça de Assuntos Criminais e de Direitos Humanos, com apoio do Grupo de Atribuição Originária Criminal da Procuradoria-Geral de Justiça, ambos do MPRJ.

Além do crime de associação criminosa, previsto no artigo 288 do Código Penal, os investigadores da subprocuradoria vão avaliar a prática da conduta criminosa do artigo 1º, inciso II do decreto lei 201/67, que dispõe sobre a responsabilidade de prefeitos. Também será analisada a conduta dos servidores públicos que atuaram no grupo. Segundo especialista ouvido pelo EXTRA, o prefeito pode responder também por crime de improbidade administrativa.