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Empresário considerado “o maior traficante de armas do Brasil” vive tranquilo nos EUA

POR José Alberto Gutiérrez/ESPECIAL

A apreensão de um carregamento milionário de armas no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, descobriu uma conexão suspeita entre um empresário brasileiro residente nos Estados Unidos e uma complexa rede de contrabando que estaria operando impunemente há anos nos dois países.

O arsenal, com um valor de cerca de 1,2 milhão de dólares no mercado negro, era composto por 45 fuzis Kalashnikov – a arma mais usada em conflitos armados no mundo – 14 fuzis de combate norte-americanos AR-10 – o mesmo usado pelas tropas de elite da polícia brasileira – um fuzil de assalto alemão G3 e munições. Todas as armas eram novas, mas tinham a numeração raspada para impedir o rastreamento de seus compradores.

Imagem do arsenal distribuída pela polícia do Rio de Janeiro.

Há alguns anos, as autoridades investigam uma quadrilha de tráfico de armas que abastece o crime organizado no Rio de Janeiro, e as pistas levaram os policiais até um carregamento de caixas de aquecedores de piscina, procedente do Aeroporto Internacional de Miami.

A carga quase burlou os controles de segurança do terminal aéreo, mas a polícia civil a interceptou a tempo, no dia 1º de junho, quando solicitou uma inspeção extraordinária. Foi então que os 60 fuzis de guerra chamaram a atenção no controle de raios X.

Imagem distribuída pela polícia do Rio de Janeiro.

 

O delegado Mauricio Mendonça, chefe da Divisão de Roubos e Furtos de Cargas da Polícia Civil do Rio de Janeiro, explicou ao Yahoo Notícias que durante muito tempo não se sabia qual era a origem dos armamentos, os preferidos dos traficantes de drogas que controlam favelas no Rio, porque lhes permitem atacar os policiais a uma distância considerável.

“Foi somente a partir de uma informação que recebemos, que conseguimos chegar a esta carga. Também não sabíamos que eles utilizavam a via aérea,” ele afirma.

Imagem distribuída pela polícia do Rio de Janeiro.

O maior traficante de armas do Brasil

O suposto responsável pela compra do armamento e seu envio ao Brasil foi identificado como Frederik Barbieri, conhecido como Fred, um empresário brasileiro de 46 anos que se naturalizou norte-americano e vive na Flórida.

Segundo as autoridades, todas as evidências coletadas durante a investigação indicam que Barbieri é hoje “o maior traficante de armas do Brasil”.

Fotografia do passaporte de Frederik Barbieri divulgada pela polícia do Rio de Janeiro.

Barbieri, e outras pessoas de seu círculo mais próximo, estão sob vigilância policial há algum tempo. É o que prova uma conversa de nove minutos gravada pelos investigadores em maio de 2016 entre seu contador, Edson Ornelas, e sua ex-advogada, Andréia Perazolli.

A TV Globo transmitiu com exclusividade trechos desta escuta telefônica, na qual Perazolli e Ornelas supostamente falavam sobre o suborno de membros dos Tribunais do Estado da Bahia, onde Barbieri enfrenta outra acusação por tráfico internacional de armas, desde 2010.

Pouco se sabe sobre o passado deste suposto traficante e sobre sua formação e trajetória profissional. No entanto, segundo o jornal O Globo, “sua ascensão social foi meteórica”.

Ele nasceu no bairro de Irajá, subúrbio do Rio, e vivia com sua mãe num condomínio para famílias de baixa renda, onde conheceu sua primeira esposa. O apartamento ainda é propriedade de Barbieri e está à venda.

A respeito de seu pai, só se sabe que morreu durante uma disputa por terras na região da Baixada Fluminense.

Antes de imigrar definitivamente para os Estados Unidos em 2012, Barbieri já vivia num apartamento de um bairro de classe média-alta na cidade de Niterói. Conforme sua esposa contou à atual residente do imóvel, os dois se mudaram porque ele era um “militar graduado”.

Imagem na qual é possível ver o Museu de Arte Contemporânea (MAC) na cidade de Niterói, e ao fundo a praia de Icaraí. (Wikimedia Commons)

Atualmente ele mora com sua esposa e uma filha de seis anos na cidade de Port St. Lucie, a duas horas de Miami, onde tem duas casas em seu nome. No Brasil, deixou dois filhos maiores de idade, de dois relacionamentos anteriores.

Em sua investigação sobre o caso, a TV Globo também descobriu imagens de Barbieri na Favela do Alemão, uma das mais violentas do Rio, em uma intervenção do exército brasileiro em 2010.

Policiais militares na favela Chuveirinho, no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, 24 de março de 2015 (AFP | Christophe Simon)

Segundo a reportagem, naquela época o empresário já era um importante fornecedor de armas.

No entanto, o advogado de Barbieri no Brasil, Bruno Saccani, desmente esta afirmação da TV Globo, argumentando que as imagens estão descontextualizadas porque seu cliente se encontrava num lava-jato de automóveis, localizado na imensa favela de 70 mil habitantes.

Seus negócios nos Estados Unidos

Barbieri é dono da empresa de exportação e importação FKBAR LLC, com sede em Port St. Lucie. No entanto, em declarações feitas à TV Globo, afirmou não se dedicar atualmente a esta atividade, e garantiu que mora nos Estados Unidos “da terra, da colheita e da criação de galinhas,” além de ter “algumas economias da época em que dava palestras e consultoria na área de exportação e importação”.

Através de seu advogado, o empresário revelou ao Yahoo Notícias que tem residência nos Estados Unidos há 17 anos e está no ramo de importação e exportação desde 1999. Ele assegura que durante este período “aprendeu todos os procedimentos da aduana de vários países”, além de falar três idiomas e ter viajado “meio mundo por motivos de trabalho”.

“Ninguém pode dizer que não tenho experiência nesta área. A escola de comércio exterior não explica como funcionam, na prática, as normas de países como Brasil, Cuba e Venezuela,” ele conclui.

De acordo com os relatórios anuais do Departamento de Estado da Flórida, a atividade empresarial de Barbieri nos Estados Unidos remonta a 2007, ano de estabelecimento da FKBAR em Miami, que desde então se mudou em seis ocasiões.

Fotografia de uma das áreas industriais de Miami onde a empresa de Barbieri estava localizada em 2014. (José Alberto Gutiérrez)

A empresa já esteve localizada em regiões do sudoeste, nordeste e noroeste da cidade. Entre 2013 e 2015, estabeleceu suas operações em armazéns da região industrial de Medley e da Avenida 72 do noroeste, na altura da rua 55, ambos locais próximos ao aeroporto.

Fotografia de outro dos centros industriais onde a empresa de Barbieri já esteve localizada em Medley, em 2015. (José Alberto Gutiérrez)

 Perseguido pela justiça

Após a apreensão das armas escondidas nos aquecedores de piscina, a justiça brasileira emitiu um mandado de prisão preventiva e solicitou a colaboração dos Estados Unidos para prender Barbieri e extraditá-lo ao Brasil. A Interpol também recebeu uma solicitação para incluí-lo na “Lista Vermelha”, uma medida que coloca em alerta a polícia dos 190 países membros da organização.

Apesar disso, Saccani confirmou ao Yahoo Notícias que seu cliente está em liberdade nos Estados Unidos e “leva uma vida normal” com o trabalho e a família.

O delegado Mendonça reconhece que estes trâmites são lentos e “demoram mais do que gostaríamos”.

Saccani e Barbieri se comunicam com frequência, para monitorar a evolução do caso que, até o momento, se mantém como investigação policial na 8ª Corte Federal Criminal, sem que qualquer acusação tenha sido apresentada aos tribunais.

Saccani assegura que não encontrou até agora, nos documentos da investigação, qualquer prova que conecte o nome do empresário ao arsenal enviado de Miami.

Por exemplo, ele alega que a polícia não apresentou a Guia Aérea – o principal documento emitido pelos transportadores aéreos no qual é descrita a mercadoria, o expedidor e o destinatário – o que representaria uma evidência contundente.

Devido à falta desta evidência, por não existir nenhuma acusação formal contra o empresário e por não haver nenhuma condenação anterior por tráfico de armas, seu advogado afirma estar “surpreso” pela polícia o identificar como “o maior traficante de armas do Brasil”.

Pouco depois que a TV Globo revelou publicamente sua identidade, Barbieri fez uma ousada chamada telefônica ao canal, na qual negou ser proprietário do arsenal apreendido no aeroporto do Rio de Janeiro e acusou os membros da polícia de quererem envolvê-lo no caso, usando-o como bode expiatório. A carga “é de policiais, que para não dizerem que são donos, acharam mais fácil dizer que era minha,” afirmou ele.

Seu advogado reduziu a importância destas declarações, argumentando que não passou de um desabafo. No entanto, a Polícia Civil do Rio emitiu um comunicado no qual reitera que, se for comprovada a participação de policiais, os agentes “responderão de acordo com a lei”.

Até o momento não foram encontradas evidências da participação de funcionários públicos ou agentes das Forças de Segurança brasileiras no contrabando. Mas os alertas estão acesos.

Para o delegado Mendonça, “não é impossível fazer este tipo de transporte usando a via aérea, mas também não é algo simples”. Trata-se de um caso que “chama a atenção e desperta o interesse em descobrir se realmente houve a participação de algum agente público, e que este responda por seus atos”.

“Enviar 60 fuzis desta forma expõe completamente o sistema de segurança do tráfego aéreo norte-americano e seus protocolos. Da mesma maneira poderia ser enviada uma bomba. Neste caso específico, estavam juntas as armas e a munição, bastaria carregá-las para atirar,” comentou Mendonça.

O Yahoo Notícias entrou em contato com a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em inglês) para confirmar a existência do mandado de prisão contra Barbieri na Flórida e obter informações a respeito de como as armas conseguiram burlar os controles de segurança do aeroporto de Miami. No entanto, o porta-voz Keith Smith não quis comentar o caso porque ainda está sob investigação.

Os antecedentes no Brasil

O nome de Barbieri está ligado ao tráfico internacional de armas desde 2010, quando um contêiner cheio de munições e peças para armas, que estava em seu nome, foi retido no Porto de Salvador, na Bahia. A carga havia saído do Porto de Everglades, no condado de Broward, na Flórida.

Nas atas de fiscalização consta que Barbieri foi ao porto recolher este carregamento, mas foi impedido, pois a carga já havia sido apreendida. Quando, pouco depois, a polícia o identificou como pessoa de interesse no caso e foi procurá-lo nos endereços declarados no embarque, ele não foi encontrado.

Cinco anos depois, em 2015, um tribunal da Bahia declarou sua prisão preventiva e a procuradoria pediu sua inclusão na lista de pessoas procuradas pela Interpol ao redor do mundo por tráfico internacional de armas. Mas isso nunca aconteceu. Em 2016 o pedido foi negado por um habeas corpus de outro juiz, alegando que, por ter domicílio reconhecido na Flórida, não era necessário levantar alertas internacionais.

A mesma coisa aconteceu com o mandado de prisão no Brasil, que nunca chegou a ser incluído no Banco Nacional de Mandados de Prisão.

Segundo uma reportagem da TV Globo, os registros de imigração indicam que em 2015 Barbieri passou três vezes pelos aeroportos de Miami e Rio de Janeiro. Nesta época, enquanto circulava livremente entre as duas cidades, o empresário aparecia registrado como “preso” no sistema de consultas de pessoas encarceradas do Tribunal Superior de Justiça do Brasil. O próprio advogado de Barbieri enviou um ofício ao Tribunal Superior de Justiça, alertando sobre o equívoco, que foi finalmente corrigido há menos de um mês, em outro erro da justiça brasileira.

Barbieri também nega qualquer implicação neste caso aberto de 2010. Sua defesa se baseia na falta de uma perícia técnica das munições encontradas no contêiner, que já haviam sido destruídas quando a juíza federal Flavia de Macedo Nolasco solicitou uma opinião técnica do Exército em 2016 – seis anos depois.

Sem a perícia, a defesa do empresário questiona se as balas apreendidas seriam verdadeiras ou não. “E se fossem balas de borracha? Não poderiam ser réplicas?”, questiona o advogado.

A saturação da justiça brasileira costuma fazer com que as investigações levem anos. Segundo o último relatório estatístico do Conselho Nacional de Justiça, no final de 2015 estavam tramitando 74 milhões de casos nos tribunais, e apenas cerca de 25% foram resolvidos em julgamentos em primeira instância.

Ainda assim, é surpreendente que o empresário tenha sido alvo de acusações e suspeitas durante anos, sem ter sido detido uma única vez.

Uma conexão suspeita

O outro álibi de Barbieri para rebater a acusação de 2010 é uma carta escrita por um agente de cargas em Miami. No documento – consultado pelo Yahoo Notícias – a empresa Datacargo assume a responsabilidade pelo carregamento e declara “ter embarcado por engano no contêiner CHLU8306621 mercadorias que não pertenciam a Frederik Barbieri, cujos bens declarados consistiam em 14 caixas, que somavam 690 Kg” de objetos para a casa.

A carta da Datacargo que serve de álibi para Barbieri. (Enviada por seu advogado ao Yahoo Notícias)

A carta está assinada pelo Gerente Operacional da companhia e filho do proprietário, e está certificada por um notário da Flórida e legalizada no consulado brasileiro de Miami em maio de 2010.

A Datacargo é uma empresa familiar fundada em Miami em 1991, propriedade do empresário de origem brasileira Fabio Caetano Ruggiero, de 65 anos, que atualmente cumpre uma pena de nove anos de prisão no Brasil por tráfico internacional de armas, e também é investigado por tráfico de drogas a partir dos Estados Unidos.

A ponta do iceberg

Até o momento, há quatro pessoas detidas no Brasil acusadas de integrar a quadrilha de tráfico de armas, supostamente chefiada por Barbieri. De acordo com a polícia, o grupo teria feito 30 envios similares ao apreendido no dia 1º de junho, usando o mesmo modus operandi: o mesmo tipo de carga, mesmo agente de cargas no Brasil, mesmo transportador, e tendo o aeroporto de Miami como ponto de partida.

A investigação ainda corre sob sigilo, mas alguns detalhes têm sido revelados pela imprensa. Segundo o jornal O Globo, as armas seriam vendidas pelo empresário João Victor Silva Roza, detido durante a operação no aeroporto.

Silva Roza estava no radar da polícia desde 2015, quando o traficante Carlos José da Silva Fernandes – conhecido como Arafat – que controlava a distribuição de drogas em várias favelas do Rio, o identificou em uma foto como seu principal fornecedor de armas.

Esta informação impulsionou as investigações da quadrilha de tráfico de armas até chegar ao carregamento proveniente de Miami e ao suposto responsável pelo envio.

O mesmo grupo integrado por Silva Roza havia vendido pelo menos 174 fuzis a traficantes de drogas do estado, de acordo com o jornal O Globo.

A polícia pode identificar em breve outros envolvidos no caso, conforme o delegado Mendonça adiantou ao Yahoo Notícias. Ele considera que pelo porte do tráfico “pelo menos mais uma dúzia de pessoas devem ser acusadas”. A identificação da numeração raspada das armas usando métodos químicos já começou e poderá revelar quem foram os compradores do armamento e por quais mãos ele passou.

De acordo com o relatório “Mapa da Violência 2016” da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, cinco pessoas morrem por armas de fogo por hora no Brasil, com cerca de 45 mil homicídios por ano. O país ocupa o décimo lugar mundial neste terrível ranking.