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Empresa supersecreta quer ser 'o sistema operacional dos EUA'

Finanças Internacional
·4 minutos de leitura
Foto: REUTERS/Arnd Wiegmann
Foto: REUTERS/Arnd Wiegmann

Palantir, a obscura empresa de big data, publicou recentemente seu S-1 (registro de valores mobiliários de uma empresa interessada em vender ações na bolsa). O documento apresenta muitas informações sobre uma empresa que tem presença num leque de setores, desde a indústria automotiva até o departamento de defesa e inteligência. Mas deixa muitas perguntas sem resposta.

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Avaliada em US$ 20 bilhões e sediada no Colorado, depois da decisão do CEO Alex Karp de sair do Vale do Silício por enxergar a região como um ambiente de "monocultura", a Palantir gerou polêmica por seu serviço de policiamento preditivo, cujos estudos podem levar a um aumento do patrulhamento de comunidades de minorias, e por sua ligação com os órgãos de Imigração e Fiscalização Alfandegária.

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Agora, em seu S-1, a empresa afirma querer ser o "sistema operacional padrão para dados do governo dos Estados Unidos". O que isso quer dizer?

Trabalho com os EUA e governos aliados

O nome Palantir remete a uma bola de cristal do universo de "O Senhor dos Anéis", usada para ver o passado e o futuro. A empresa, fundada em 2003, vem trabalhando com o governo norte-americano há anos. Ela oferece duas plataformas de software: Gotham e Foundry.

A Gotham, o primeiro produto da empresa, é usada por agências de defesa e inteligência nos Estados Unidos e em outras democracias liberais ocidentais e aliadas estratégicas. Lançada em 2008, foi usada no Iraque e no Afeganistão para ajudar as tropas a mapear redes de rebeldes e localizar bombas na beira da estrada, usando dados que vão desde relatórios de informantes infiltrados até fontes de comunicação interceptadas.

Em uma entrevista para o Axios, da HBO, Karp afirmou que o software da empresa foi usado na execução de ataques letais por serviços clandestinos.

"Quero dizer, nosso produto às vezes é usado para matar pessoas. Quem estiver atrás de um terrorista em algum lugar do mundo agora provavelmente está usando nosso produto, criado para o poder público. E a operação de eliminar o terrorista provavelmente será feita com outro produto que criamos", diz ele.

A Palantir não trabalha apenas com serviços militares e de inteligência. A empresa diz que agora também atua em uma série de outras agências públicas norte-americanas, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, o Departamento de Agricultura, o Departamento de Assuntos de Veteranos, a Food and Drugs Administration, o Instituto Nacional de Saúde e a Securities and Exchange Commission.

A companhia estima que seu mercado total endereçável (TAM) no governo dos Estados Unidos está na faixa dos US$ 26 bi. Mas, como a empresa ganhou uma ação judicial contra o Exército dos Estados Unidos relacionado à forma com que as organizações militares compram software, a Palantir afirma que seu TAM pode ser ainda maior.

Crítica às instituições governamentais

Em seu S-1, a Palantir explica por que é necessária às instituições governamentais e a partes do setor privado, afirmando que os órgãos públicos estão falhando em suas atribuições.

"Os desafios que enfrentamos e a crise que temos e continuaremos enfrentando expõem a fraqueza sistemática das instituições das quais dependemos", escreveu Karp nas considerações iniciais do S-1.

"Nossa infraestrutura industrial e cadeias de produção foram concebidas e construídas em outro século. Os órgãos governamentais falharam em cumprir suas obrigações e no serviço à população. Algumas instituições terão dificuldades, mas vão sobreviver, já outras vão colapsar."

É a Palantir, não a "elite engenheira do Vale do Silício", que Karp afirma ter a capacidade e o conhecimento necessários para garantir que essas instituições possam enfrentar os desafios do mundo moderno.

Mas trabalhar com órgãos governamentais pode ser uma batalha, diz a empresa em seu S-1.

"Vender para agências governamentais pode trazer uma concorrência enorme, ter altos custos e demandar muitas horas de trabalho, e normalmente exige investir tempo e dinheiro sem qualquer garantia de que haverá uma venda", diz a empresa.

"Nós ainda temos que nos adequar a leis e regulações relativas à formação, administração e execução dos contratos, que garantem direitos aos clientes públicos que não costumam ser encontrados em negócios privados."

Mas a atuação da Palantir não se limita à esfera federal. A empresa também atua nos níveis estadual e municipal, que podem representar uma boa gama de novos parceiros da empresa no futuro.

Sabendo disso, a empresa diz reconhecer que cortes futuros no orçamento do governo podem ameaçar sua disposição em fechar novos contratos.

Não há dúvidas de que a empresa vai continuar gerando polêmica pelos serviços que oferece, e a administração tem total consciência disso, e que sua reputação está em risco. Vai ser interessante ver como o mercado vai reagir quando a colocação pública acontecer em um futuro próximo.

Daniel Howley

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