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Empreendimento feminino é alternativa para mulheres entrarem no mercado de trabalho

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Por Natália Leite

Cantadas, piadas machistas, comentários constrangedores, convites inusitados e contatos desnecessários. Esses são exemplos de diferentes situações de assédio sexual que as mulheres vivenciam no ambiente de trabalho. Em sua maioria, estão relacionados a uma forma de abuso de poder.

A agressão, não apenas física mas também verbalizada, é salientada pelos números da desigualdade de altos cargos entre homens e mulheres. A discriminação de gênero está presente nos três setores, sendo no campo público de forma mais moderada, por conta de concursos que acabam rendendo salários similares para ambos.

Ainda que responda a aproximadamente 45% dos trabalhadores brasileiros, a participação feminina vai caindo conforme aumenta o nível hierárquico. Representando em torno de 10% no setor privado e de 21,3% no cargo mais alto do setor público, as mulheres vêm ganhando maior visibilidade para a luta contra a desigualdade de gênero e suas consequências, como o sexismo velado.

A batalha por melhores espaços no ambiente do trabalho está sendo cada vez mais crescente e encorajada. De acordo com dados disponibilizados no site do governo brasileiro, entre 2002 e 2012 o número de mulheres empreendedoras aumentou 18%. Tendo muitas começado por necessidade, essas mulheres atuam em sua maioria de maneira autônoma ou em micro e pequenas empresas.

Em nota, Carolina Ruhman Sandler, fundadora e CEO do site Finanças Femininas afirma que “empreender é uma alternativa de carreira que tem atraído cada vez mais mulheres, não apenas pelo fato de facilitar o equilíbrio entre vida profissional e familiar, mas também devido ao potencial financeiro”.

Para a jornalista, a diferença salarial no mercado de trabalho é real. “No universo do empreendedorismo, não existe barreira para quanto uma mulher pode ganhar – isto depende apenas da competência da mulher e da sua capacidade de fazer o negócio crescer. No Finanças Femininas, nossa missão é o empoderamento econômico feminino”, afirma Carolina.

Também é comum mulheres entrarem no mundo dos negócios ao mesmo tempo em que fazem papel de mãe. Uma pesquisa publicada no The New York Times apresenta que a diferença salarial cresce de maneira significativa, principalmente no início dos trinta anos, quando uma parte relativa de mulheres tem filhos.

Uma pesquisa realizada pelo SEBRAE mostra que cerca de 70% das empreendedoras são mães. Lançado no ano passado, o “Quem São Elas?”, estudo realizado pela Rede Mulher Empreendedora (RME), aponta que essas mulheres foram motivadas a empreender após e em função da maternidade. Para estarem próximas dos filhos, buscam um ponto de equilíbrio entre os dois papéis.

“O que a gente sabe, aqui no Brasil, é que existe uma grande quantidade de mulheres que estão empreendendo em função da maternidade”, afirma Sabrina Wenckstern, 32. Formada em Administração de Empresas, ela é Coach e Consultora de Negócios na empresa Materna S/A.

Para Sabrina, a maternidade que gostaria de vivenciar não seria compatível com sua rotina de trabalho. No término da licença, pediu demissão e tentou seu próprio negócio. Na área e-commerce, o projeto não obteve sucesso. “Me faltava expertise da área e o desejo real de fazer algo para o mercado”. Dentro do Coach, estudou o cenário de mulheres que estavam passando pelas mesmas dificuldades. “Entendi isso como um propósito de auxiliar mulheres a terem retorno financeiro com realização profissional, sem ter que abrir mão da maternidade”.

“Eu penso no Coach como um trabalho de desenvolvimento pessoal, um trabalho de autoconhecimento em busca do desenvolvimento de uma carreira, de um negócio”, ela comenta. “No Brasil, assim como no mundo todo, a principal responsável pela família ainda é a mulher, então fica essa carga pesada para um lado só”.

Com o propósito se manterem no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que realizam a função de mãe e chefe de família – 44% delas são as mantenedoras da casa –, empreender é uma alternativa para serem independentes, terem melhores oportunidades e contribuir para o ambiente corporativo.

“Uma mulher estava comentando que ela foi mandada embora da sua empresa, pois havia acabado sua licença maternidade. Enquanto isso, um colega dela, de outro setor, foi promovido após se tornar pai. Para mim, isso simboliza muito como o mercado de trabalhos enxerga os papéis de homens e mulheres”

A precarização da mão de obra feminina é vista a partir do momento que a mulher precisa começar do zero. Negócios novos, áreas novas e novas profissionalizações para exercerem o negócio. Cláudia Belafronte, 47, é formada em marketing pela Universidade de Sá. “Quatro meses foi o tempo que eu demorei para montar a empresa”.

Atualmente, ela é diretora-executiva da Expressão Global, uma agência de marketing. Com aproximadamente quatro anos no mercado de trabalho, realizou cursos de marketing digital pela internet e construiu seu próprio negócio. “No mercado em geral ainda existe um preconceito gigante. Parece que só por você ser mulher você não é muito confiável”, ela comenta.

“Já aconteceu de eu perder algum cliente por ser mulher. No mercado em geral ainda existe um preconceito muito grande, o homem parece ter mais credibilidade. Acho que a maior dificuldade, mesmo, é ser mulher”, ela comenta. “Temos que ir para o ataque sermos mais competitivas”

“O empreendedorismo por necessidade tem levado várias pessoas que estavam sem possibilidade de se empurrar no mercado de trabalho”, ressalta Michely Coutinho, Diretora de Responsabilidade Social da Federação das Associações de Jovens Empreendedores de Goiás (FAJE-Goiás). Ela explica que a principalmente no momento atual, que vem batendo o recorde de desemprego, o empreendedorismo tem visto como uma das alternativas. “Nesse caso, o empreendedorismo é o fenômeno e o empreendimento o resultado”.

“Quando tivermos um mercado de trabalho que realmente seja igualitário para homens e mulheres, o empreendedorismo não vai ser alternativa, vai ser um desejo. A possibilidade de um negócio dar certo quando é visto como objetivo é maior”, completa Sabrina.