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Emicida: “Que a nossa imagem circule por qualquer meio necessário. É a isso que Malcolm X se refere”

(Gilson Borba/NurPhoto via Getty Images)

Texto: Nataly Simões | Edição: Simone Freire

Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, é a primeira personalidade negra a estampar a capa da revista de moda, estilo e cultura masculina GQ. Para o rapper, por ser um homem negro de pele retinta, é um marco estampar a capa da revista, que também marca o trabalho do jornalista Ernesto Xavier como primeiro editor negro da publicação. 

Em entrevista ao Alma Preta, Emicida falou sobre a importância de racializar os espaços majoritariamente brancos. “Eu sei a força que essa capa da revista tem nas bancas de todo país e na circulação pelo ambiente digital com uma imagem de uma pessoa de pele escura e uma posição altiva, uma posição de respeito, de referência”, afirma.

Para o artista, a presença na capa da revista simboliza uma das ideias do líder antirracista Malcolm X.“Eu sou um grande seguidor de Malcolm X. Acredito muito que quando ele diz que é importante que nossa voz passeie por qualquer meio necessário, que a nossa imagem circule por qualquer meio necessário. É a isso que ele se refere”, afirma.

Emicida lembra que pessoas negras de pele retinta por muito tempo não estiveram presentes em diversos espaços da sociedade como o do entretenimento. Para ele, ocupar esse ambiente também é fazer parte de um processo histórico de correção grandioso como a carreira que construiu e a relevância que alcançou.

“Pessoas com essas características foram amaldiçoadas durante muito tempo no ambiente da cultura, do entretenimento, no universo da ciência. Avançar por todos esses meios de uma forma sutil é promover algumas correções que se vem fazendo ao longo do tempo e colaborar com elas é uma grande honra para mim. Assim como me sinto honrado de ter construído a trajetória que eu construí e alcançado a relevância que eu tenho”, explica.

A chamada da reportagem de capa é escrita pelo próprio Xavier, que destacou a frase de Emicida que elucida a importância de sua representatividade: “muito do ódio atribuído a mim vem da forma como o Brasil lê uma pessoa com a minha cor”. Segundo o editor da GQ, racializar as pautas da revista é urgente e uma das suas missões na redação.

“Eu tenho a esperança e batalho pela inclusão de pautas que reflitam os nossos desejos, imagens, perspectivas. É necessário racializar as pautas.”, pontua. “Eu, um jornalista negro, tive a oportunidade de contar a partir dessa perspectiva a história de outro irmão negro. Estamos, finalmente, disputando as narrativas. A história não será mais contada apenas pela visão branca, pois cada vez mais jornalistas e escritores negros estão ocupando o lugar que nos é devido”, acrescenta.

Protagonismo feminino

Por trás da capa com Emicida, além do jornalista Ernesto Xavier, outros profissionais negros participaram da produção da publicação. À GQ, o artista propôs a inclusão de negros do audiovisual por considerar que os discursos sobre a presença negra em espaços majoritariamente brancos devem estar alinhados à prática.

“Eu acredito que todas as conquistas e todas as vitórias - para serem verdadeiramente vitórias - precisam ser coletivas. No momento em que eu fui convidado pra estampar a capa de uma revista tão importante como a GQ, eu me fiz uma pergunta: Nesse momento da minha vida, quantas vezes eu tive a oportunidade de estampar uma capa e o profissional que segurava a câmera, era uma mulher de pele escura? A resposta foi frustrante: nunca”, diz.

A fotógrafa indicada pelo artista foi a baiana Caroline Lima. “No dia em que fizemos as fotos, eu comentei com a assistente de fotografia Carol Rocha e o cabeleireiro Juninho que somos todos espelhos um dos outros. Quantas humilhações e desumanidades nosso povo passou para que tenhamos chegado aqui?”, refletiu.

“Nossa sociedade é estruturada de uma forma muito perversa. Eu sempre me pergunto como tentar ressignificar isso e o que fazer para outras pessoas se sentirem inspiradas a fazer o que acreditam. Nós mulheres, infelizmente, ainda somos minoria nesses espaços. Essa estrutura vem de um processo histórico, as coisas estão começando a mudar e vamos chegar lá”, diz a artista visual que, em seu trabalho, busca romper o histórico de negatividade e estereotipação do corpo negro.