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Em vídeo, PMs tentam sufocar homem negro com golpe no pescoço

Por Arthur Stabile

Dois policiais militares tentam imobilizar um homem. Um deles dá uma gravata (golpe de ataque com os braços no pescoço do alvo) e aperta para fazer o homem se render. “Não pode enforcar, ele vai desmaiar!”, grita uma mulher, em desespero.

O caso aconteceu na última terça-feira (23/6) no bairro Jardim Icaraí, na cidade de Ibaté, próxima a Araraquara, no interior de São Paulo, e distante 247 quilômetros da capital paulista.

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As imagens mostram os dois policiais em cima do homem. Ele não dá sinais de que esteja resistindo à prisão, mas, ainda assim, recebe o golpe para ser desmaiado.

“Vão matar o cara enforcado”, insiste uma mulher. “Ele está ficando roxo, ficando preto”. A mãe da vítima tenta falar com os policiais e impedir o golpe, mas leva um tapa.

“Tira a mão de mim”, gritou o PM que golpeia o homem. Em seguida, deu um tapa na mão da mulher. Na sequência, o policial derrubou o homem no chão e seu parceiro tentou algemá-lo.

Sequência mostra ação policial ao enforcar homem | Foto: Reprodução

A população se revolta ao ver a abordagem policial. “Tem que prender e algemar, mas não pode enforcar, não. O errado é só o cidadão depois”, critica uma mulher ao registrar as imagens.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo Doria (PSDB), as cenas aconteceram durante a prisão de um homem foragido.

A pasta explica que o homem estava em um carro quando foi abordado e que teria tentando fugir, motivando a ação dos policiais.

“Quando solicitado para que desembarcasse do automóvel, o procurado tentou fugir correndo, mas foi contido pelos agentes, sendo necessário o uso de força proporcional para a conclusão da detenção”, defende a secretaria.

A nota enviada à Ponte explica que, depois da prisão, os PMs o levaram para a delegacia da cidade, onde registraram ocorrência de prisão de foragido.

Sequência mostra ação policial ao enforcar homem | Foto: Reprodução

A reportagem pediu análise do vídeo ao tenente-coronel Adilson Paes de Souza, aposentado da PM paulista. “Tudo errado”, definiu. “Por que agiram assim? Imobilizou, algema. Simples assim. Se está no solo, mais fácil ainda. Mãos para trás e algema, não acontece nada mais”, explica Souza.

O policial aposentado diz que o caso é agravado pela morte de George Floyd, homem negro americano asfixiado por um policial branco nos Estados Unidos, e pelo caso recente dos PMs que deram um golpe idêntico e desmaiaram um homem em Carapicuíba, na Grande SP.

“Mesmo com todos esses fatos estão fazendo abordagens da mesma maneira. Um absurdo”, afirma. “Nunca vi uma época com a polícia cometendo tantos erros graves assim. É uma coisa que causa preocupação imensa e espanto”, lamenta.

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Nesta semana, o governador João Doria anunciou o retreinamento de policiais militares como forma de coibir abusos e diminuir a letalidade policial. Movimentos sociais veem mera tentativa do político em se desvincular de abusos.

Adilson é cético em relação à iniciativa. “Não é com reciclagem de oficial que vai chegar nesse ponto”, diz. Segundo ele, falta definir quais os pontos a serem aprimorados. E, para isso, é necessário estudar.

“Com base no que chegou-se à conclusão que é falta de comando? Tenho certeza que há problema aí, mas não creio que seja o problema único e mais grave”, pondera. “Quais fundamentos técnicos embasaram a medida? Será inócua”, critica.