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Em Veneza, empresas lutam para se manter em meio a enchentes

Eric Sylvers e Giovanni Legorano

Água chegou a 187 centímetros acima do nível normal, um pouco abaixo da épica inundação de 1966, que praticamente devastou a cidade italiana Quando uma grande inundação assolou Veneza nesta semana, Matteo Wahba ficou olhando horrorizado enquanto as águas invadiam seu restaurante. A “acqua alta”, como o fenômeno é conhecido em Veneza, foi a segunda pior em 150 anos na majestosa cidade e estragou seis de suas geladeiras, duas lavadoras de louça, uma máquina de cozinhar pasta e uma de fazer gelo.

“Se perdermos os negócios do Natal e Ano Novo estamos perdidos”, diz.

Na noite de terça-feira, a cheia chegou a um pico de 187 centímetros acima do nível normal. Mas pouco abaixo do recorde da épica inundação de 1966, que praticamente devastou Veneza.

A acqua alta desta semana provocou danos generalizados pela cidade, com cerca de 80% de sua área submersa no pico da enchente. A cripta da Basílica de São Marcos ficou inundada. Na noite de terça-feira, um homem sem camisa foi filmado nadando na Praça de São Marcos.

As empresas e lojas foram duramente atingidas porque costumam estar localizadas nas partes térreas das estreitas ruas de Veneza e estão expostas à água que transborda dos canais.

Lojas fechadas por conta das enchentes em Veneza

Luca Bruno/AP

O premiê da Itália, Giuseppe Conte, comprometeu-se em alocar uma quantia inicial de 20 milhões de euros para reparar os danos em Veneza, incluindo até 20 mil euros para cada empresa afetada e até 5 mil euros para consertos domiciliares.

A cidade se preparava para uma nova cheia também excepcionalmente alta nesta sexta-feira e o prefeito ordenou que a Praça de São Marcos fosse fechada. O governo italiano declarou estado de emergência na cidade na quinta-feira. Nesta sexta, turistas ficam de pé em partes submersas das ruas enquanto tomavam cafés nas cafeterias.

Muitos donos de empresas têm algum tipo de seguro – Wahba, por exemplo, tinha seguro contra fogo e vandalismo – mas a maioria não dá cobertura contra as enchentes que atingem Veneza quase todo outono e inverno europeus. Como as enchentes destrutivas tornaram-se cada vez mais comuns, as firmas de seguros elevaram os prêmios, tornando-os demasiado caros para os muitos donos de pequenas empresas.

Roberto Nardin, assim como a maioria dos gondoleiros venezianos, não tem seguro contra eventos climáticos em razão do alto custo. A gôndola de Nardin, apelidada de Maria, sofreu graves danos nesta semana, quando foi jogada pelas águas contra pontes e estruturas do cais perto da Praça de São Marcos.

O gondoleiro de terceira geração levou o barco a uma loja especializada, a mesma que a construiu, mas não tem certeza quanto tempo o conserto vai levar, porque o estabelecimento perdeu parte da madeira envelhecida de olmo, carvalho e cerejeira que usa para fazer as gôndolas.

Nesta sexta-feira, Nardin – que pegou uma gôndola emprestada para continuar trabalhando, mas viu a continuidade da enchente afastar os fregueses – mostrava preocupação com a próxima cheia, que, segundo previsões, chegaria a 160 centímetros até o fim do dia.

“Estamos esperando por uma intervenção divina”, disse Wahba, que estava à procura de um eletricista e um encanador para reparar seu restaurante enquanto preparava algumas proteções contra a cheia que estava por vir.

Embora ao longo dos anos os donos de empresas tenham aperfeiçoado formas de se proteger contra a acqua alta, é quase impossível preparar defesas realmente adequadas. Quase todas as lojas e restaurantes tem tábuas removíveis, cada vez mais altas, que são colocadas nas aberturas que dão para as ruas, para bloquear a entrada da água. Em cheias particularmente altas, no entanto, a água entra por ralos, vasos sanitários e até conduítes elétricos.

O risco varia de acordo com o local, e os donos de empresas sabem a partir de que altura a água vai invadir seus estabelecimentos. O limite pode ser a partir de 1 metro para as empresas próximas à Praça de São Marcos, uma das partes mais baixas da cidade. Empresas nas pontes ou próximas a elas não sofreram nenhum dano nesta semana.

Embora décadas, ou até séculos, de coleta de dados ajudem a prever as inundações, o vento torna extremamente difícil prever com precisão a que altura as cheias vão chegar. Quando o vento siroco, vindo do sudeste, sopra forte durante alguma cheia particularmente alta, pode impedir que a cheia anterior vá embora, como aconteceu nesta semana e em 1966.

Os donos da livraria apropriadamente chamada Acqua Alta estão acostumados a lidar com inundações, uma vez que a porta frontal da loja fica de frente para um canal. Os livros são mantidos em prateleiras bem altas e até em uma gôndola estacionada na loja.

“Nosso nome não é Acqua Alta por coincidência, mas a terça-feira foi além da conta e nosso medo agora é que isso aconteça de novo”, disse Diana Zanda, que trabalha na livraria. “Vamos colocar tudo ainda mais alto, mas neste momento temos de nos preocupar em limpar tudo.”

Zanda havia saído da Acqua Alta no início da noite de terça-feira prevendo uma cheia de 145 centímetros, como indicado pelas projeções – o suficiente para causar danos, mas nada que uma livraria bem preparada não pudesse aguentar.

Como as projeções foram sendo atualizadas para pior a cada hora, ela correu de volta e conseguiu salvar alguns livros, mas a metade acabou atingida de alguma forma. Em certo ponto, ela própria teve que escapar da loja, por medo de ser levada pela inundação. Voluntários, incluindo estudantes, foram à loja para selecionar os livros um a um e salvar o que fosse possível, mas Zanda não sabe quando a livraria vai reabrir.

Autoridades italianas prometem um sistema de comportas submersas para proteger a cidade.

No início dos anos 80, a Itália começou a construir portões que foram projetados para bloquear três entradas do Mar Adriático à lagoa veneziana em épocas de cheias excepcionalmente altas.

O projeto, conhecido como Mose – acrônimo de Módulo Experimental Eletromecânico, que se pronuncia Mose em italiano – já está tanto muito acima do orçamento quanto fora do cronograma. Agora, está previsto para ser concluído no fim de 2021. Críticos atacam o custo do projeto e os problemas imprevistos que as comportas poderiam causar.

Donos de empresas, no entanto, têm pouca fé no projeto, que tem sido adiado repetidamente ao longo dos anos. “Tenho bem poucas esperanças”, diz Nardin, o gondoleiro. “Eles não consertaram o problema em décadas.”