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Em três dias de quarentena, consumo das redes de telefonia subiu 40%

JULIO WIZIACK E PAULA SOPRANA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em três dias de quarentena provocada pela onda de coronavírus no país, as operadoras de telefonia registraram um aumento médio de 40% no tráfego de dados de sua rede.

Vivo, Claro, TIM e Oi passaram a atender mais clientes em casa ao logo do dia e verificaram picos de consumo até 15% maiores. Os picos, normalmente, só ocorrem pela manhã, quando as pessoas estão saindo de casa, e à noite, quando retornam.

A preocupação é que atinjam pico entre 150% e 200%, o que provocaria a falência da rede.

Governadores de pelo menos cinco estados (SP, RJ, BA, AM e GO) e do Distrito Federal solicitaram às operadoras conexões mais potentes e exclusivas para que a rede pública e privada de ensino possa restabelecer o ritmo de aulas por meio de videoconferências.

Também pediram às gráficas responsáveis pelo material didático para que criem aplicativos que permitam aos alunos realizarem suas tarefas que serão corrigidas à distância pelos professores.

Iniciativas como essas vão criar mais tráfego nas residências que, de acordo com os técnicos das operadoras, já inverteu.

Normalmente, ao longo do dia, as conexões fixas residenciais operam com uma média de 80% de ociosidade quando pais e filhos estão no trabalho e na escola, respectivamente.

Desde segunda-feira (16), essas redes passaram a operar em sua capacidade plena e com picos de consumo cerca de 15% maiores.

De acordo com os técnicos das companhias, ainda é cedo para avaliar se teremos um crescimento explosivo de dados consumindo muita capacidade da rede, mas se seguirmos o padrão da Itália, será preciso tomar medidas de precaução.

Na Europa, as autoridades solicitaram que aplicativos, como Netflix, não permitissem o tráfego de vídeos em alta definição, o que sobrecarrega demasiadamente a rede. Um vídeo em alta definição exige 30% mais capacidade de transmissão do que em padrão "standard".

Na Itália, onde a quarentena se prolonga por mais tempo, o crescimento do consumo nas redes fixas (internet por fibra) dobrou e o das redes móveis subiu 30%.

As operadoras acreditam que, no mínimo, os brasileiros devem repetir o padrão dos italianos. Por isso, os engenheiros de rede trabalham no redimensionamento das conexões.

Além disso, os executivos das empresas estão temerosos de que, a exemplo do que ocorreu na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, outros projetos de lei permitam a prestação gratuita do serviço.

Nesta quarta-feira (18), a Alerj aprovou um projeto que obriga as operadoras a fornecerem gratuitamente acesso a aplicativos, sites e serviços de streaming (vídeos) até o final do estado de calamidade.

Para eles, esse tipo de iniciativa quebra a rede porque promove um crescimento exponencial do consumo de vídeos, já que tudo passa a ser gratuito.

Para tentar se precaver, as operadoras estão pleiteando junto ao Ministério da Economia, a postergação até dezembro deste ano do pagamento de taxas e contribuições federais, como Fust, Fistel, Condecine, entre outros. No total, são R$ 4,7 bilhões que vencem neste mês. Também o adiamento do pagamento das outorgas de telefonia.

Com esse dinheiro, pretendem turbinar a capacidade das redes para evitar um apagão caso a situação saia de controle.

O Sinditelebrasil, associação que representa as operadoras, informa que os Centros de Gerência das empresas estão permanentemente monitorando o uso das redes de acesso e transporte para garantir a conectividade e acesso a serviços digitais.

Esse monitoramento permite, se necessário, implementar rotinas de contingenciamento e redirecionamento de tráfego para mitigar eventuais situações de congestionamento.

A associação considera que a capacidade das redes de telecomunicações não é infinita, mas as empresas estão envidando todos os esforços para manter a segurança, a estabilidade e o funcionamento das redes e, até o momento, não foram identificados registros de problemas.

"Importante ressaltar que as prestadoras estão cumprindo todas as recomendações e orientações da OMS e das autoridades de saúde brasileiras e tomando desde semana passada relevantes iniciativas no auxílio ao combate ao novo coronavírus como ações para ampliar o acesso aos serviços para os usuários, campanhas de informação à sociedade e políticas internas para preservar os funcionários das empresas."

O SindiTelebrasil diz ainda que as empresas se colocaram à disposição do governo e da Anatel para detalhar e discutir novas medidas complementares que se fizerem necessárias.

"Estamos vivendo um cenário imprevisível no qual temos que concentrar esforços na saúde das pessoas, na estabilidade da rede e na eficácia do atendimento compatível com a situação."