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Em primeira declaração desde a prisão, Ghosn diz que fugiu da injustiça no Japão

ANDREI NETTO
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 01.10.2011: O então presidente mundial da Nissan e da Renault, Carlos Ghosn. (Foto: Marcelo Camargo/Folhapress)

BEIRUTE, LÍBANO (FOLHAPRESS) - O ex-presidente da aliança automotiva Renault-Nissan-Mitsubishi, Carlos Ghosn, afirmou nesta quarta-feira (8), em Beirute, no Líbano, que é inocente e vítima de um processo político e de um complô para derrubá-lo do comando do grupo e impedir a convergência das marcas.

Em sua primeira declaração à imprensa internacional desde a prisão, em novembro de 2018, e também desde que fugiu do Japão, Ghosn se disse vítima de uma campanha para destruir sua reputação, alegou estar pronto para ir aos tribunais, mas não deu sinais de que pretende abandonar o Líbano, onde está ao abrigo da Justiça.

As primeiras declarações de Ghosn em mais de dois anos aconteceram na associação de imprensa do Líbano, em uma sala abarrotada por jornalistas de todo o mundo -mas com poucos profissionais japoneses, barrados por sua assessoria por supostamente serem "enviesados" em favor dos procuradores do Japão.

Assediado por fotógrafos e cinegrafistas, Ghosn chegou pouco antes do horário previsto, às 15h em Beirute, e anunciou que falaria aos jornalistas em inglês, francês e árabe -sem mencionar o Brasil, sua terra natal, em um primeiro momento.

Durante mais de duas horas e dez minutos, somados um pronunciamento de uma hora e uma entrevista coletiva, Ghosn se disse aliviado por retornar ao convívio de sua família e reiterou não estar fugindo da Justiça japonesa. "Eu não estou acima da lei. Não fugi da Justiça. Fugi da injustiça e da perseguição política", alegou, focando as críticas sua suposta falta de independência do judiciário japonês no caso. Sobre a fuga, que não descreveu em nenhum momento, afirmou: "Foi a decisão mais difícil da minha vida".

Ghosn usou parte de seu tempo para se defender das acusações que enfrenta no Japão. Entre os crimes que lhe são imputados, estão a subnotificação do valor de seus salários entre 2011 e 2018, quebra de confiança -uso do cargo para cometer infrações-, o suposto acobertamento de US$ 17 milhões (R$ 69 milhões) em rombos financeiros pessoais com recursos da Nissan e de usar recursos da empresa parra pagar uma carta de crédito emitida pelo empresário saudita Khaled al-Juffali, no valor de US$ 14,7 milhões (R$ 59,7 milhões).

O segundo montante também teria sido usado para equilibrar as finanças pessoais. Ele também foi acusado de usar como seus bens da Nissan em Beirute e no Rio de Janeiro. "As pessoas pensam que isso tudo pode acontecer sem nenhum controle? Tudo isso foi submetido a protocolos e controles", argumentou.

Segundo ele, em "nenhum país democrático" a acusação que sofre no Japão teria sido mantida pelo Ministério Público, já que segundo ele os valores envolvidos jamais pararam em suas contas. "Isso é político. Houve muitas tentativas de apresentar esse caso como um caso comum, mas não é", disse. "Eu sou inocente de todas as acusações, e agora posso provar. Tenho muitos documentos, e há muitos mais por vir. Eu tenho de limpar meu nome."

Apoiado em documentos assinados por outros executivos da Nissan, Ghosn sustentou que todos os seus atos eram legais e apoiados por decisões tomadas no interior da empresa. A iniciativa de investigá-lo e derrubá-lo do poder, disse ele, teria acontecido em razão do declínio da performance da Nissan após sua saída do comando da companhia, a partir de 2015.

Outro fator que teria pesado no que chamou de "perseguição" teria sido a desconfiança causada no Japão por uma legislação na França que deu um direito de voto duplo ao Estado francês, maior acionista da Renault -e de forma indireta da aliança com os japoneses-, ao lado da própria Nissan. No interior da companhia japonesa, pesava a suspeita de que Ghosn trabalhava pela fusão dos dois gigantes -o que ele negou.  

Ghosn fugiu do Japão em circunstâncias até aqui não explicadas. Segundo reportagem do jornal The Washington Post, o executivo deixou o Japão escondido em um contêiner de instrumentos musicais perfurado para lhe garantir oxigênio. Uma equipe de profissionais especializada em exfiltrações de pessoas teria organizado dois voos privados até Beirute, passando pelo espaço aéreo da Rússia, e com escala em Istambul.

Preso no Japão em 2018, Ghosn teve a prisão prorrogada duas vezes e estava privado de encontrar sua mulher, Carole -contra quem pesa um mandado japonês de prisão desde a terça-feira (7).

A prisão de Ghosn significou a queda de um dos maiores titãs da indústria automotiva mundial. À frente da aliança Renault-Nissan, que regrupa empresas emblemáticas da França e do Japão, além da também japonesa Mitsubishi, ele construiu um dos maiores impérios do setor no mundo, com mais de 500 mil funcionários e vendas estimadas em 10 milhões de veículos por ano. De acordo com ele próprio, estava próximo de anunciar uma fusão entre a Renault com a ítalo-americana Fiat-Chrysler. A fusão aconteceu, mas com a rival francesa PSA (Peugeot-Citroën).

Muito antes de sua prisão, entretanto, Ghosn já ocupava as manchetes de jornais na Europa e na Ásia a cada fim de ano, quando o valor de sua remuneração e de seus bônus despertavam a ira da opinião pública e o constrangimento de autoridades, impotentes diante do controle que o executivo exercia nas empresas que dirigia -no caso da Renault, com capital público.

Sua carreira internacional ganhou ainda mais impulso em 1999, quando o executivo evitou a falência da Nissan, parcialmente adquirida pela Renault -grupo que ele comandava. O salvamento veio graças a uma política de extrema austeridade, com o fechamento de mais de 20 mil postos de trabalho, além de várias fábricas da companhia, uma estratégia que ele voltaria a adotar na Europa durante a crise econômica internacional, a partir de 2008 e 2009.

Sua reputação de fiador da viabilidade financeira das empresas que dirigia, porém, sempre lhe garantiu a confiança dos acionistas, apesar das críticas de sindicatos e políticos.

Embora seja alvo de um mandado de prisão internacional solicitado pela polícia do Japão à Interpol, o instrumento não tem efeito em Beirute. Os dois países, Líbano e Japão, não têm acordos de cooperação jurídica ou de extradição, o que na prática lhe garante liberdade e salvaguarda enquanto estiver em solo libanês.