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Em 'Montero', Lil Nas X narra as lutas (internas e externas) de um jovem negro e gay pelo direito de ser quem quiser

·4 minuto de leitura
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Luxuosamente acompanhado por uma melodia de piano tocada por Elton John, o americano Lil Nas X, de 22 anos, abre seu coração ao atacar as expectativas peçonhentas da indústria que pairam sobre ele desde 2019, quando explodiu com o country rap “Old town road”. “Faça assim, não faça daquele jeito”, “você não vai superar sua última criação”, “se você lançar uma música, não vamos ligar” e “você é um meme, uma piada, tem sido um truque desde o início”; são alguns dos versos de “One of me”, recitados com voz magoada pelo rapper impossível de se ignorar nos dias atuais.

É o desabafo de quem construiu uma poderosa imagem no universo pop como numa luta de telecatch: diversão para uns, embate para outros. Nascido Montero, nome que intitula o álbum de estreia lançado digitalmente ontem, Lil Nas X já quebrou importantes barreiras — e rebolou por cima delas — mesmo tão jovem.

Por 19 semanas consecutivas, um recorde absoluto, liderou as paradas americanas com “Old town road”, canção gravada quase amadoramente e criada a partir de uma batida que comprou pela internet por US$ 30. Quando já era difícil fingir que ele não estava ali, o jovem negro nascido no conservador sul dos Estados Unidos declarou que era gay, e desde então passou a hastear com vigor suas bandeiras.

Enquanto mantinha-se relevante — fosse por discussões no Twitter, pela habilidade única de criar e compartilhar memes engraçados sobre si mesmo ou causando em performances ao vivo —, ele preparava o que o afastaria de vez do carimbo de “one hit wonder” (dono de um hit só), precocemente estampado em sua figura. O principal single do álbum de estreia já veio com dois pés no peito: além de extremamente cativante enquanto canção, “Montero (Call me by your name)” traz um clipe em que a luxúria da letra é ilustrada num filme absurdo de auto-aceitação sexual, no qual Lil Nas X desce de pole dance até o inferno, onde dança no colo do Diabo antes de matá-lo, roubando seus chifres e reivindicando-os para si. Foi atacado por conservadores em seu habitat natural, a internet, e os engoliu com farpa na ponta dos dedos.

“Eu passei toda a minha adolescência me odiando”, escreveu ele, por conta do que o cristianismo dita sobre a homossexualidade, “então espero que quem esteja com raiva, fique com raiva, sinta o mesmo ódio que vocês nos ensinaram a ter de nós mesmos”.

Lil Nas X é tanto um garoto realizando o sonho de viver de música quanto um veterano de internet que precisa responder a ataques de detratores com pânico moral — no disco, ele traz convidados que compartilham jornadas parecidas, como Miley Cyrus e as rappers Doja Cat e Megan Thee Stallion. Essa dualidade perpassa sua figura de sorriso fácil em tapetes vermelhos, como foi na premiação do VMA, no último fim de semana, mas que quando o juiz apita, leva ao palco da festa da MTV um número quente no qual esfrega o corpo no de outros bailarinos negros com o mesmo vigor e ousadia de uma Madonna na fase “Erotica”, quase 30 anos atrás.

E é isso que ele resume nas 15 faixas de “Montero” — “Eu te disse há muito tempo, na estrada / Eu tenho o que eles esperam... Eu sou um astro pop como Bieber, ha/ Eu não transo com mulheres, sou queer, ha”, lembra, com mais palavrões que esta tradução livre, Lil Nas X em “Industry baby”.

O rap é o ponto de partida de “Montero”, que não se resume a ele. Na verdade, as variações de gêneros musicais são usadas por Lil Nas X como um guia para estados emocionais. O flamenco dá a base para a já comentada luxúria de “Call me by your name”; o r&b minimalista de “Dead right now” dá o tom dos versos que tratam de oportunistas e detratores que não estavam lá quando o jovem lidou com problemas de saúde mental; “Sun goes down” é um pop com roupa indie agradável para que o MC lembre de quando tinha que lidar, sozinho, com sua cor de pele e orientação sexual; guitarras elétricas coexistem com samples, beats e violões enquanto Lil Nas nos mostra força e vulnerabilidade, em doses exatas.

É um álbum afiado, divertido, potente, que traz identificação direta para quem vive lutas parecidas, e compaixão aos privilegiados que não sentem isso na pele mas se botam em seu lugar. Já contra quem torce o nariz, Lil Nas X seguirá, como apontou o “New York Times” num perfil meses atrás, “jogando xadrez contra os movimentos de damas coxos de todos os outros — ele simplesmente é mais rápido, engraçado e está num terreno mais firme e melhor baseado em princípios do que seus adversários, que são, na melhor das hipóteses, comicamente frágeis”. E ele veio para ficar.

Cotação: ótimo.

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