Em evento com Campos Neto, Haddad diz que discutir política monetária não significa afrontar BC

Ministro da Fazenda, Fernando Haddad

Por Fabricio de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta sexta-feira, em evento com a presença do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que discutir a política monetária brasileira não significa afrontar a autoridade monetária.

Durante abertura do High Level Seminar, promovido pelo BC em São Paulo, Haddad também afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está fazendo "gestos importantes" para criar uma nova institucionalidade no Brasil.

"Não podemos nestes primeiros meses do ano reclamar de desarmonia entre os Poderes, pelo contrário", pontuou.

Ele lembrou ainda que esta é a primeira vez que um governo assume com uma lei de autonomia para o BC em vigor, que garante a permanência de seus dirigentes.

"É a primeira transição. Estamos construindo esta relação", afirmou.

O presidente do BC, que vem sendo criticado por membros do governo Lula em função do atual nível da taxa básica Selic, de 13,75% ao ano, ouviu os comentários de Haddad a partir da plateia do evento. Campos Neto participará de um painel mais tarde e também do encerramento do seminário.

Em rápida conversa com jornalistas após a abertura do evento, Haddad negou que haja pressão sobre o presidente do BC no sentido de iniciar o corte da Selic.

"Não se trata de pressão (sobre o BC). Quando você discute tecnicamente o momento adequado de começar o ciclo de cortes, você não está fazendo pressão. Você está levantando questões que são discutidas no mundo inteiro", disse.

Questionado sobre quando a Selic começará a cair, o ministro disse que a decisão é do BC.

"Achamos que tem espaço para começar um ciclo, mas enfim... Tem uma equipe técnica ali (no BC), que está formada, e nós procuramos respeitar", afirmou Haddad.

O ministro também voltou a defender a necessidade de mudança no regime de metas para a inflação, de tal forma que a busca do objetivo não esteja limitada ao ano-calendário.

"Isso engessa e impõe constrangimentos desnecessários", disse Haddad. "No mundo inteiro, você determina uma meta e a autoridade monetária vai perseguir aquela meta sem se fixar no 31 de dezembro", acrescentou.

CRESCIMENTO

Em sua fala na abertura do evento, Haddad também afirmou que o Brasil tem a "obrigação" de perseguir uma taxa de crescimento superior à média mundial, em função de seus recursos naturais e de seu potencial de crescimento.

Segundo ele, o Brasil tem "todas as condições" de, em poucos meses, criar as bases para um ciclo de desenvolvimento.

Haddad afirmou ainda que o Brasil encontra-se em condições que permitem vislumbrar um horizonte de crescimento sustentável.

"O Brasil tem tudo para, em ambiente bastante adverso, sair na frente no próximo ciclo de expansão", pontuou o ministro, chamando a atenção também para as dificuldades das economias centrais para combater a inflação.

"As economias centrais enfrentam taxas de inflação há muito tempo não registradas, com grandes dificuldades", disse.

(Com reportagem adicional de Gabriel Araújo)