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Em encontro privado, Bolsonaro diz que latas de leite condensado são para 'enfiar no rabo da imprensa'

Redação Notícias
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Brazil's President Jair Bolsonaro talks with journalists after a meeting with Economy Minister Paulo Guedes in Brasilia, Brazil January 27, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino
Lista de compras do governo federal foi alvo de críticas durante toda a terça-feira (26). (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

O presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar a imprensa após tornar pública uma lista com gastos do governo federal na compra de alimentos, entre eles a despesa de R$ 15 milhões em latas de leite condensado.

Em um evento privado nesta quarta-feira (27), o presidente desdenhou da denúncia e disparou que as latas de leite condensado são pra “enfiar no rabo da imprensa”.

O ataque de Bolsonaro à imprensa - que ainda disparou um palavrão ao comentar a denúncia — ocorreu durante um almoço com artistas e empresários em uma churrascaria em Brasília (DF). Após a fala, gritos de “mito” foram ouvidos.

Estiveram presentes o presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Paulo Solmucci, além dos ministro Fabio Faria (Comunicação), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Gilson Machado (Turismo), Tarcísio Freitas (Infraestrutura), Mario Frias (Cultura), do filho Jair Renan e de cantores sertanejos, como Sorocaba, Amado Batista e Nayara Azevedo.

Um levantamento feito pelo (M)Dados, núcleo de jornalismo de dados do jornal Metrópoles, apontou que o Executivo federal gastou, em 2020, mais de R$ 1,8 bilhão em alimentos. O valor, retirado com base no Painel de Compras atualizado pelo Ministério da Economia, representa um aumento de 20% em relação a 2019.

A divulgação do gasto virou piada nas redes sociais na terça-feira (26). Depois da polêmica, o Portal da Transparência do governo federal saiu do ar ainda na noite de terça.

OS VALORES E PRODUTOS

Além dos valores, os produtos também chamaram a atenção.

Os órgãos federais gastaram R$ 32,7 milhões com pizza e refrigerante; mais de R$ 16,5 milhões em batata frita embalada; e mais de R$ 14 milhões na compra de molho shoyu, molho inglês e molho de pimenta juntos. Em uva-passa, foram pagos pouco mais de R$ 5 milhões. Sem contar a goma de mascar, que custou R$ 2,2 milhões aos cofres públicos.

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Além do tradicional arroz e feijão, o cardápio incluiu peixes - in natura e conserva - (R$ 35,5 milhões), bacon defumado (R$ 7,1 milhões) e embutidos (R$ 45,2 milhões) e frutos do mar (R$ 6,1 milhões).

Para as sobremesas, sorvete, picolé, fruta em calda, doce em tablete e cristalizado e, para a cobertura, granulado e confeitado, ao custo de R$ 123,2 milhões. O gasto com leite condensado foi de R$ 15,6 milhões.

O Ministério da Defesa foi responsável pela maior parte das compras e pelos valores mais altos. Foram mais de R$ 632 milhões com alimentação. O órgão também bancou quase toda a compra de vinhos registrada no Painel de Compras - R$ 2,5 milhões.

O Ministério da Educação ficou em segundo lugar, com R$ 60 milhões. O Ministério da Justiça gastou pouco mais de R$ 2 milhões, e ficou em terceiro lugar. A maior parte foi para a Fundação Nacional do Índio (Funai), que, entre os itens comprados teve milho de pipoca, leite condensado e sagu.

Em nota, o Ministério da Economia explicou que as despesas do Ministério da Defesa referem-se à “alimentação das tropas das forças armadas em serviço” e que “toda despesa efetuada pela Administração Pública Federal está dentro do orçamento”.

De acordo com as Forças Armadas, o órgão tem a responsabilidade de promover a saúde do seu efetivo – composto de 370 mil pessoas – por meio de uma dieta balanceada diária. O texto argumenta ainda que, de acordo com o Estatuto dos Militares, Lei nº 6.880/80, a alimentação é direito assegurado ao militar, assim como as refeições fornecidas aos funcionários em atividade.

PARLAMENTARES DE OPOSIÇÃO PEDEM INVESTIGAÇÃO NAS COMPRAS

Políticos de oposição pegaram carona no episódio para criticar o governo. Ao menos três parlamentares fizeram uma representação no TCU (Tribunal de Contas da União) pedindo que a Presidência da República seja investigada pelo aumento de gastos do Executivo com a “lista do mercado”.

O deputado Alexandre Frota (PSDB-RJ) distribuiu latas de leite condensado os jornalistas que participam de uma coletiva de imprensa nesta quarta-feira (27) no Congresso Nacional.

O ex-ministro Ciro Gomes, do PDT, disse que vai entrar na Justiça para pedir explicações sobre os "gastos absurdos".

Segundo as contas da deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), o governo federal teria gastado 7,6 mil latas de leite condensado por dia no ano passado.

A ex-deputada Manuela D'ávila (PCdoB) também criticou as compras e o presidente, e o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) também lembrou do auxílio emergencial criado durante a pandemia da Covid-19, que o governo decidiu não prorrogar.

Já o youtuber Felipe Neto, uma das principais vozes de oposição entre os jovens, brincou com uma das brincadeiras que donos de canais no Youtube costumam filmar para publicar na plataforma.

O QUE DIZ O MINISTÉRIO DA DEFESA SOBRE O CASO?

"Com disponibilidade permanente e dedicação exclusiva, os militares realizam atividades inerentes à profissão militar e que possuem exigências físicas específicas em diferentes áreas de atuação e nas mais diferentes regiões do território nacional. Assim, cumprem ações que requerem, em grande parte, atividades físicas ou jornadas de até 24 horas em escalas de serviço, demandando energia e propriedades nutricionais que devem ser atendidas para a manutenção da eficiência operacional e administrativa com a disponibilização de uma dieta adequada.

O Ministério da Defesa fornece diariamente alimentação para militares e servidores civis que permaneceram com atividades essenciais ao cumprimento de sua missão institucional, mesmo durante a pandemia, por meio de suas Unidades Gestoras. A aquisição de alimentos variados e conforme a disponibilidade de mercado, leva em consideração, naturalmente, que o fornecimento de uma dieta inadequada tem potencial de deixar de conduzir o homem a um estado nutricional saudável para a realização de suas atividades laborais.

O MD informa ainda que para fins de esclarecimento, existem processos de licitação em fase inicial de compra tipo Registro de Preços, que se trata de um edital para pregão, sem, contudo, haver sido consumada a compra dos itens discriminados. Nesta modalidade, a administração pública não está obrigada a firmar as contratações dos itens listados no pregão e o licitante fica obrigado a fornecer o material registrado durante o período de doze meses. Portanto, as quantidades elencadas não representam necessariamente a eventual aquisição e são estimativas para o período de um ano. Além disso, os preços constantes do chamamento público são valores de referência compatíveis com o mercado.

Por fim, as Unidades Gestoras obedecem aos requisitos previstos na Lei n 8.666, de 21 Jun 1993 – Lei de licitações e contratos".