Mercado abrirá em 7 h 56 min

Em carta-manifesto a reitoria, alunos da UFRGS cobram expulsão de doutorando indiciado por racismo

·4 min de leitura

RIO - Mais de 40 diretórios acadêmicos e movimentos sociais encaminharam nesta sexta-feira uma carta-manifesto à reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na qual pedem a expulsão do doutorando Álvaro Hauschild, indiciado por racismo, e cobram prioridade ao caso. O documento também foi submetido ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPG-Filosofia) e ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

Na carta à qual o GLOBO teve acesso, estudantes e entidades exigem um "firme e real compromisso da universidade ao enfrentamento de qualquer ato de discriminação racial" e afirmam que não basta emitir notas de repúdio. O grupo pede ainda que o processo disciplinar instaurado seja tratado com celeridade.

"Não há mais qualquer espaço, dentro ou fora da Universidade, para a repugnantee esdrúxula ideia de supremacia racial! É exaustivo e inaceitável que se aceite essepensamento ou que se permita que ganhe espaço em nossa sociedade. Nãopodemos aceitar que exista ideias tão cruéis afirmando que uma 'etnia deve sersuperior a outra” ou qualquer outra concepção de que “o discurso de ódio se configurecomo opinião'. Isso não faz parte de uma democracia fundada em direitosfundamentais, razão pela qual não deve ser tolerado", diz a carta.

Os acadêmicos organizavam desde a semana passada um abaixo-assinado pelo desligamento de Hauschild. A mobilização contava com 2.361 assinatura até esta sexta-feira. A ideia é apresentar o documento na próxima reunião do Conselho Universitário, órgão colegiado legislador de maior poder dentro da universidade.

Em resposta à carta, o PPG-FIL afirmou que tem "tomado todas as medidas que julgamos em nosso poder a respeito do mesmo, bem como de condutas associadas anteriores". O coordenador do programa, Renato Fonseca, diz ainda que se apresentou como testemunha por iniciativa própria após a instauração do inquérito policial.

"Diante disso, dado que todas essas ações são de conhecimento público, causou-me estranheza a exigência, na Carta Manifesto, de um posicionamento firme do PPGFIL contra a impunidade no caso, uma vez que, junto com os discentes de nosso Programa, temos agido de maneira resoluta, não de agora, para que discurso de ódio, racismo e qualquer discriminação não prosperem em nossa universidade. A exigência parece pressupor que nada foi feito de nossa parte", escreveu.

Procurada nesta sexta-feira, a UFRGS não respondeu aos questionamentos até a publicação da reportagem. Hauschild afirmou ao GLOBO que já publicou um pedido de desculpas e que "qualquer medida em conforme a este abaixo-assinado seria prejulgada". O doutorando também afirmou que "não cabe aos manifestantes qualquer participação", uma vez que o assunto é investigado pela polícia.

Dossiê de alunos

Alunos da universidade já haviam denunciado o comportamento de Hauschild antes de as acusações de racismo virem à tona. Há cerca de um mês e meio, eles encaminharam um dossiê à ouvidoria da instituição, no qual constam publicações do doutorando coletadas em redes sociais e blogs.

O material foi entregue no dia 2 de agosto pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia ao Núcleo de Assuntos Disciplinares (NAD) da universidade, que recomendou ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas a abertura de um processo disciplinar. O diretor do IFCH, Hélio Ricardo Alves, afirmou que duas denúncias estão sendo investigadas.

Na ação mais recente, difundida nas redes sociais, o CAPP convocou a comunidade acadêmica da UFRGS e pessoas de fora da instituição a aderir à mobilização. O abaixo-assinado reunia quase 1.500 assinaturas até a noite desta quinta-feira.

"Devido a este crime exigimos que a UFRGS, conhecida por ser tolerante e impunitiva, desligue este criminoso da instituição. Não iremos aceitar que crimes raciais sejam tratados a base de notas de repúdio, exigimos JUSTIÇA e estamos todos empenhados para que se cumpram as medidas cabíveis", escreveu o perfil do centro acadêmico.

Entenda o caso

Indiciado pelo crime de racismo qualificado, doutorando Álvaro Körbes Hauschild, de 29 anos, era investigado pela Polícia Civil desde a divulgação de mensagens e textos escritos por ele com conteúdo ofensivo aos negros, judeus e mulheres. O relatório do inquérito já foi encaminhado ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP/RS), que deve decidir na próxima semana se oferece denúncia.

A investigação começou após denúncia do estudante de Políticas Públicas da UFRGS Jota Júnior, de 23 anos, que registrou ocorrência depois que sua namorada foi abordada pelo doutorando nas redes sociais.

Na conversa, Hauschild afirma que o negro "exala um cheiro típico", "tem um cérebro programado para fazer o máximo de filhos que puder" e que "pode não ser um problema lá onde a natureza dá cabo deles". Hauschild também assediou e enviou mensagens antissemitas para a namorada de um judeu, que deu entrevista ao GLOBO na condição de anonimato.

— Sobre o Holocausto: é uma questão científica. Ou tu tem evidências ou tu não tem (sic). Simplesmente não há a menor evidência até hoje; pelo contrário, há estudos mostrando que matematicamente já é um absurdo. Mas se alguém vier e me mostrar o que aconteceu e como aconteceu, eu passo a acreditar — escreveu Hauschild.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos