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Em busca de vírus na selva virgem do Gabão

Adrien MAROTTE
·3 minuto de leitura
Pesquisadores na gruta de Zadié, no nordeste do Gabão, estudam morcegos, em 25 de novembro de 2020

Vestidos com traje de proteção amarelo e cobertos dos pés à cabeça, seis homens chegam com dificuldade a um gruta perdida na selva gabonesa, em busca de vírus emergentes.

O destino desses cientistas de um centro de pesquisas é a caverna de Zadié, no nordeste do Gabão, onde estudam morcegos, animais que podem estar na origem da maioria das epidemias transmitidas ao homem nos últimos anos: SARS, em 2003; MERS, em 2012; Ebola; e, hoje, SARS-CoV-2, o vírus pandêmico que atualmente paralisa o planeta. 

A estrada está cheia de musgos, cascas e folhas que exalam o cheiro fresco da mata virgem deste pequeno país da África Central, cujo clima tropical, quente e úmido e sua fauna exuberante são terreno propício para a proliferação do vírus.

Pouco a pouco, o cheiro de terra úmida dá lugar ao de guano, o excremento do morcego. O ar é irrespirável e, sob as roupas de proteção, o calor é sufocante.

De repente, aparece a entrada da gruta. Um fluxo barulhento de morcegos escapa do buraco. Seus excrementos cobrem o chão escorregadio e as paredes rochosas.

- Perigo para os homens -

"Puxem!", ordena o professor Gaël Maganga, até que a rede usada para capturar os mamíferos esteja totalmente esticada. 

Quando os morcegos correm para a saída, a armadilha se fecha sobre eles. A coleta de amostras pode começar. 

Maganga, professor e pesquisador da Universidade de Franceville, a terceira maior cidade do país, coleta amostras orais e retais com "swabs" esterilizados. 

"Nosso trabalho consiste em identificar os agentes patógenos que podem representar um risco para as populações humanas e compreender as transmissões entre espécies", explica o cientista à AFP. 

Em 29 de outubro, o grupo de especialistas em biodiversidade da ONU (IPBES) alertou, em um relatório, que pandemias como a covid-19 vão-se multiplicar e causarão cada vez mais mortes, em alusão à imensa reserva de 1,7 milhão de vírus desconhecidos no mundo animal. Deste total, de 540.000 a 850.000 "teriam capacidade de infectar humanos". 

Conforme o documento, 70% das novas doenças (como ebola e zika) e "quase todas as pandemias conhecidas" (como gripe, aids, covid-19) são zoonoses, ou seja, procedentes de patógenos animais.

- Presença de coronavírus -

"Temos que parar de pensar que o Homem está de um lado, e o Animal, do outro. Em termos de saúde, o que acontece em um terá impacto no outro. Proteger a vida selvagem, proteger a natureza, é proteger o homem", ressalta Pauline Grentzinger, veterinária do Parque Natural Lékédi, que trabalha para preservar a biodiversidade, perto de Franceville. 

"Os comportamentos humanos originam, com frequência, a emergência dos vírus. Hoje, com a pressão demográfica, a intensificação da agricultura, ou da caça, os contatos entre humanos e animais são cada vez mais frequentes”, explica o professor Maganga. 

Maganga também demonstrou a presença de vários tipos de coronavírus nesses morcegos, muitos deles próximos aos coronavírus humanos. 

Isso não impede, porém, que as populações locais entrem nas cavernas para caçar morcegos, antílopes, gazelas, macacos, ou outros animais selvagens. 

"Em uma noite, posso ganhar o que ganho em um mês", diz Aristide Roux, de 43 anos, morador de uma cidade próxima, enquanto mostra uma gazela caçada na noite anterior.

A covid19? "Ainda não chegou ao povoado", afirma.

Para Just-Parfait Mangongwé, do centro de pesquisas de Franceville, as pessoas de sua região "não acreditam" em vírus.

Por isso, é importante "sensibilizar os caçadores, os que vivem da caça", alega o professor Maganga.

amt/gir/thm/sba/me/zm/tt