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Em bilhete, PCC denuncia que presos com Covid-19 estariam sendo misturados aos saudáveis

A P2 de Presidente Venceslau, no interior oeste de São Paulo | Foto: Divulgação

Por Arthur Stabile e Maria Teresa Cruz

Em “salve”, mensagem enviada a seus integrantes, o PCC (Primeiro Comando da Capital) denuncia que a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, não estaria conseguindo controlar a pandemia do novo coronavírus.

O recado atribuído à facção teria saído da unidade, conhecida por abrigar nomes importantes do PCC, como por exemplo, Décio Português, apontado como substituto de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo do grupo, que está em presídio federal desde o início do ano passado.

Mais na Ponte:

Décio, inclusive, está internado na Santa Casa de Presidente Prudente, na mesma região, por causa da Covid-19, conforme informou reportagem do Uol. O “salve” foi emitido quatro dias depois da notícia de que Décio estava internado em estado grave por causa da doença.

O estado de São Paulo oficializou 15 mortes de presos decorrentes da pandemia, conforme plataforma do Depen (Departamento Penitenciário Nacional). São 721 pessoas contaminadas, outras 76 com suspeita de terem contraído o vírus e 78 doentes curados.

Ao todo, o Brasil registra 55 mortes por corona dentro dos presídios, com 3.137 casos confirmados, 809 suspeitos e 1.647 recuperados em 10 mil testes realizados, segundo dados do Depen. O país possui 748.009 presos.

De acordo com o recado, confirmado por familiares de presos e advogados, os presos com suspeita da doença na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau estão sendo “espalhados” pela unidade, em vez de serem separados em quarentena.

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosa) do Ministério Público de São Paulo não teve conhecimento do recado até o momento.

Mensagem encaminhada aos integrantes da facção | Foto: Reprodução

Os casos estariam acontecendo no pavilhão 6 de Venceslau, onde há a confirmação de duas mortes por Covid-19. A Ponte contou sobre a dor de uma viúva que não pode se despedir de seu marido, morto pela doença na P2.

Os presos afirmam que não esperam “nada” da SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) de São Paulo e de “outros órgãos responsáveis” e falam em uma suposta reação. “Deixamos bem claro que sempre lutamos pela paz, mas não temos medo da guerra”, afirma o texto.

“Se for comprovado que as autoridades estão colocando esse vírus de propósito para marar nossos irmãos, deixamos claro que vai ter o maior derramamento de sangue já visto no nosso país”, ameaça.

No “salve” eles mencionam as unidades federais em alusão especialmente à Penitenciária Federal de Brasília, onde a cúpula da facção está presa. Desde o início do ano, denúncias de maus tratos, falta de atendimento médico e até ameaça de greve de fome como forma de protesto vêm sendo noticiadas pela Ponte. Em março, quando o coronavírus ainda não era considerado uma pandemia, Paulo César Nascimento Júnior, o Paulinho Neblina, que por causa de uma doença precisa de uma dieta especial, denunciou em carta que essa alimentação não estava sendo respeitada e que seu quadro de saúde havia se agravado. Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, irmão de Marcola, anunciava uma greve de fome por supostas más condições no presídio e restrições de visitas, que seriam propositais para atingir os membros da facção.

Ponte questionou a SAP sobre a situação do coronavírus no estado e especificamente na P2 de Presidente Venceslau, e aguarda um retorno da pasta.

Segundo familiares de presos, eles recebem notícias de que há, ao menos, seis presos nas enfermarias, três deles com a confirmação da doença. “Meu marido está na enfermaria há nove dias, o teste dele deu negativo. Mas é aquele rápido, não sabemos a veracidade”, afirma.

A mulher conta que o companheiro de cela do seu esposo testou positivo para coronavírus. “Então teve que fazer no meu marido também. Ele irá ficar até terça que vem que dá 14 dias para ver se ele não tem nenhuma reação”, conta.

Outra parente afirma que há o impedimento da entrada de produtos de limpeza enviados pelas famílias, mesmo através dos Correios. Desde março está proibida a entrega presencial do “jumbo”, cesta com comida, itens de higiene e remédio levados aos presos.

“Não autorizaram. Tem outros presídios que estão deixando as visitas mandarem por Sedex [envio dos Correios] o cloro e as garrafinhas transparentes para os presos fazerem a higienização”, conta a mulher.

Ela explica que seu companheiro ficou doente e permaneceu quatro dias de cama. “Meu medo maior é porque meu marido tem problema respiratório. Eu fico mais ainda preocupada, porque eu não sei como ele tá lá dentro”, diz.