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Em audiência de confirmação, nome de Biden para secretaria de Estado reafirma discurso anti-China

MANOELLA SMITH
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em uma audiência que durou mais de quatro horas nesta terça (19) no Senado americano, o indicado de Joe Biden para ser o novo secretário de Estado manteve na pauta as rivalidades com a China. "Devemos enfrentar a China a partir de uma posição de força, não de fraqueza", disse Antony Blinken, que respondeu a perguntas dos congressistas na primeira sessão que pode aprovar seu nome para o cargo na gestão democrata que toma posse nesta quarta (20). Segundo ele, a relação com Pequim é "o desafio mais importante dos EUA". Ex-vice-secretário de Estado durante o governo de Barack Obama, Blinken, 58, começou a carreira no Departamento de Estado durante a administração de Bill Clinton. Se for aprovado, ele vai ocupar um dos cargos mais importantes do governo, chefiando a diplomacia americana. A expectativa é a de que suas credenciais extensas tranquilizem tanto diplomatas americanos quanto líderes globais, após quatro anos das estratégias abrasivas e da postura nacionalista da administração Trump. O indicado de Biden não descartou, no entanto, a possibilidade de trabalhar com interesses mútuos entre Washington e Pequim. É preciso, segundo ele, "não denegrir aliados" e não se afastar das políticas e instituições internacionais, "semeando o terreno para a China escrever as regras e normas" --referindo-se ao movimento de Donald Trump de afastar o país de acordos globais como o rompimento com a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a saída do Acordo de Paris. Sem buscar embates com os senadores republicanos, o indicado de Biden suavizou o tom para falar do presidente que está de saída e fez elogios a aspectos da política externa do atual governo. Ele disse acreditar que o republicano estava certo em adotar uma abordagem mais dura para a China, apenas discorda com a maneira que foi conduzida. "O princípio básico era o certo." Nesta terça, o governo Trump declarou que a China comete "genocídio e crimes contra a humanidade" ao reprimir muçulmanos uigures e outras minorias na região de Xinjiang --a decisão não gera nenhuma penalidade automática à China, mas coloca pressão para que países e empresas deixem de fazer negócios na região. "Acredito que este genocídio está em andamento e que estamos testemunhando a tentativa sistemática do Estado chinês de destruir os uigures", disse o atual chefe da diplomacia, Mike Pompeo. Ao comentar o assunto, Blinken disse que os EUA devem defender seus valores democráticos "quando os direitos humanos são violados em Xinjiang" ou "quando a democracia é pisoteada em Hong Kong". A relação entre Irã e EUA, que também vive momentos de tensão com o governo americano, foi o primeiro assunto discutido na sabatina --em janeiro, o país anunciou a retomada do aumento de enriquecimento de seu urânio, violando o acordo nuclear de 2015 assinado sob Obama. Blinken confirmou posições já sustentadas por Biden e disse que defende o retorno ao acordo, sob a condição de que Teerã também respeite os termos, cujos limites quanto ao enriquecimento de urânio foram ultrapassados após a decisão de Trump de retirar os EUA do pacto em 2018. Esse retorno ainda poderia ser uma oportunidade para "buscar um acordo mais longo e mais forte", com o apoio dos aliados americanos da região, como Israel e países do Golfo, disse ele. "Mas ainda estamos a um longo caminho para isso. Teríamos que ver quais passos o Irã vai dar [a partir do início do novo governo] e então avaliamos." Blinken também disse que não pretende negociar com o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela, e que manterá a embaixada americana em Jerusalém --para onde Trump a transferiu em 2018. Apesar de defensor de alianças globais, o novo secretário tem suas digitais impressas em guerras desastrosas durante o governo Obama, como quando defendeu a intervenção militar na Líbia, em 2011, e foi favorável a uma ação militar direta americana na Síria. Questionado se ele tinha dúvidas em relação ao que aconteceu na Líbia, Blinken explicou o pensamento que o levou a defender a intervenção. "Nós tínhamos Muamar Kadafi dizendo que mataria como ratos todos aqueles que se opusessem a ele. Parecia que estávamos prestes a ver uma atrocidade em massa", disse. Ainda assim, reconheceu erros. "Aqui está que eu julguei mal: não percebemos que uma das coisas que Kadafi fez ao longo dos anos foi garantir que não houvesse rival possível contra o seu poder. Quando Kadafi saiu, infelizmente havia mais espaço para grupos extremistas preencherem parte do vácuo deixado por ele." Mais cedo nesta quinta, a nomeada à posição de diretora de Inteligência, Avil Haines, também foi sabatinada e disse que pretende adotar uma abordagem sem viés político em seu departamento. Embora ela não tenha mencionado o nome do atual diretor de inteligência nacional do governo Trump, John Ratcliffe, ela deixou claro que escolheria uma direção diferente. Os democratas acusaram Ratcliffe de colocar um viés político na inteligência que ele apresenta à Casa Branca e de agir mais como um assessor partidário do que como um oficial apolítico para ajudar Trump. "Uma das primeiras coisas que eu gostaria de fazer é enviar uma mensagem clara à comunidade de inteligência de que devemos produzir inteligência apolítica e nua e crua para o presidente eleito, para seus assessores", disse . Antes de todos os escolhidos para o gabinete do presidente eleito começarem a trabalhar, suas nomeações devem ser confirmadas pelo Senado --entre 1.200 e 1400 cargos governamentais requerem confirmações. Após uma audiência, os senadores votam e o indicado é confirmado por maioria simples. Os democratas esperavam ter a confirmação de Haines na semana passada, mas os republicanos atrasaram sua audiência. Blinken também não terá uma votação rápida, em parte por causa de desentendimentos de agenda entre republicanos e democratas no Comitê de Relações Exteriores.