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Em 2021, Brasil segue com o dever de encarar os problemas raciais

Alma Preta
·6 minuto de leitura
Se as tragédias (amenizáveis) se anunciam diante de mais um ano com um governo irresponsável e genocida, nosso papel de denunciar as mazelas enfrentadas pela população negra e pelas periferias também está posto.
Se as tragédias (amenizáveis) se anunciam diante de mais um ano com um governo irresponsável e genocida, nosso papel de denunciar as mazelas enfrentadas pela população negra e pelas periferias também está posto. Foto: Yago Rodrigues/Alma Preta

Texto: Editorial, Alma Preta Jornalismo

O Brasil começa 2021 com a missão de enfrentar um dos seus maiores desafios herdados: a desigualdade. Último país das Américas a abolir a escravidão, nunca enfrentou seu “legado” racista. Além de abandonar a população negra à própria sorte, normalizou a apropriação de seus corpos e elaborou um discurso de que, por ser miscigenado, raça, aqui, não teria influência.

As desigualdades sentidas em nosso território têm origem no racismo estrutural, assim como na discrepância em relação à renda e ao acesso à educação e saúde de qualidade, temas que devem continuar a pautar o país neste ano. Existe uma interseccionalidade desumana entre raça e gênero, que faz milhares de mulheres negras brasileiras estarem em maior vulnerabilidade social. Estas representam 28% do total da população.

Para piorar, o país enfrenta há quase um ano uma pandemia que já levou mais de 200 mil vidas - a maioria de pessoas negras e pobres. As primeiras informações dos órgãos oficiais mostravam o que seria para a grande mídia uma “doença democrática”. Não importava a sua classe social, raça, gênero ou crença, nós todos precisaríamos reaprender a lavar as mãos, usar máscaras, álcool em gel e iniciar um lockdown para preservar a própria saúde e a do próximo.

Os mais otimistas até diziam que sairíamos desse momento mais unidos e solidários. Não foi o que aconteceu. As primeiras pessoas a se infectar? Brancas, de classes média e alta, recém-chegadas de viagens à Europa. As primeiras a morrer? Empregadas domésticas, negras e pobres. Estava posta a mesa que não há crise democrática. Quando ela chega, os primeiros a sofrerem consequência somos nós negros.

No segundo trimestre do ano, o primeiro completo sob pandemia, a taxa de desemprego geral ficou em 13,3%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ao analisar o dado de acordo com a cor da pele, a taxa de desemprego dos negros (pretos e pardos) ficou em 33,2% e dos brancos, 10,4%. Os que não perderam seus postos de trabalho, se vincularam a trabalhos informais. O conforto da quarentena para alguns foi garantido por um exército de trabalhadores das periferias sem a mesma escolha.

Essa relação desigual foi representada na tragédia que teve Recife como cenário. Uma mãe negra, empregada doméstica, leva seu filho pequeno para o local de trabalho e enquanto passeia com o cachorro da casa, confia o cuidado da criança à patroa, comprometida apenas a se atentar com as próprias unhas. Miguel Otávio, de cinco anos, encontrou sozinho um elevador, se perdeu e caiu do alto do prédio, enquanto procurava por sua mãe.

Antirracismo ganha visibilidade

Em meio as desigualdades sociais e econômicas mais aprofundadas, não só a Covid-19 ocupou horários “nobres” nos meios de comunicação ou nas discussões das redes sociais em 2020, a violência que sempre tem alvos muito certeiros baseada na discriminação racial também foi pautada de maneira contundente, como nunca antes.

Desde janeiro, quando a prefeita de Ilhabela, Gracinha (PSD), denunciou ter sofrido injúria racial após ofensas nas redes sociais, até dezembro, com veiculações de vídeos de casos de racismo nas ligas profissionais e armadoras brasileiras e estrangeiras, passando pelo brutal assassinato de um homem negro em uma unidade do hipermercado Carrefour de Porto Alegre, na noite anterior do 20 de novembro, dia da Consciência Negra. Praticamente a cada semana do ano passado surgia um novo caso absurdo de racismo.

O levante popular, se assim pode ser chamado, começou ainda no primeiro semestre, com a morte de George Floyd pela polícia americana. Protestos se multiplicaram em diferentes cidades do mundo, inclusive nas brasileiras. Os manifestantes repudiavam a morte de um homem negro por sufocamento nos EUA e chamavam atenção para a situação brasileira, sobretudo o viés racista apontado na violência policial.

Morremos de coronavírus ou atingidos por tiros

Com a opinião pública mais sensível, tragédias como essas alcançaram níveis de repercussão inéditos. No mês de junho foi a vez do Brasil. João Pedro Mattos, de 14 anos, foi morto a tiros dentro de casa na região metropolitana do Rio de Janeiro durante uma operação policial e se tornou a quarta criança morta pela polícia no estado do Rio em apenas 12 meses. Embora a letalidade policial com alvos bem definidos seja denunciada pelo movimento negro há décadas, pela primeira vez o Supremo Tribunal Federal (STF) se mobilizou e proibiu operações policiais no Rio durante a maior crise sanitária já enfrentada pelo mundo.

Apesar da evidente comoção com os diversos casos de racismo no mundo, efetivamente a mudança não chegou. A resistência é a condição que nos deram para a sobrevivência. E se por um lado os casos de discriminação fortalecem o movimento negro e articula o ativismo antirracista nas redes sociais, por outro, o avanço nos parece muito mais no campo do discurso do que nas práticas efetivas. As pessoas leem sobre a questão racial, entendem e olham para o aspecto racial, mas continuamos vivendo situações absolutamente violentas provocadas pelo racismo. Morremos de coronavírus ou atingidos por tiros.

A luta deve ser coletiva

Já passou da hora de sairmos do discurso individual, da simples conscientização sobre o problema, e agir concretamente no espaço público. Reconhecer que o Brasil é um país racista é importante, mas não basta. Dada a gravidade e complexidade de se discutir raça em um país que nega seu passado, são necessárias ações de cidadãos; dos governos municipais, estaduais e federal; dos veículos de comunicação; de empresas e entidades da sociedade civil organizada. É dessa urgência de fazer do combate ao racismo uma luta coletiva que cresce a Coalizão Negra Por Direitos.

Articulação com mais de 150 organizações, coletivos e entidades do movimento negro, a Coalizão propõe atuação coletiva na promoção de ações de incidência política nacional e internacional na defesa dos direitos da população negra brasileira. Por mais que 2020 tenha sido um ano em que o manifesto “Enquanto houver racismo, não haverá democracia” ecoou e mais vereadores negros e negras foram eleitos para as Câmaras Municipais, por exemplo, reiteramos que a batalha é diária e longa.

O ano de 2020 terminou com o debate sobre o que é ser antirracista colocado à mesa. Cabe a nós, enquanto imprensa, darmos continuidade a semente que foi plantada. O descaso do Estado com as comunidades tradicionais como as quilombolas e indígenas não pode deixar de ser denunciado, assim como o genocídio [sim, é preciso nomeá-lo] e o encarceramento em massa de negros e negras ainda não foi barrado.

O novo coronavírus continua a fazer suas vítimas, assim como as polícias de todas as regiões do país, enquanto aguardamos a vacinação gratuita e o o direito das nossas crianças de crescer ser respeitado. Se as tragédias (amenizáveis) se anunciam diante de mais um ano com um governo irresponsável e genocida, nosso papel de denunciar as mazelas enfrentadas pela população negra e pelas periferias também está posto.

Parafraseando o poeta Sérgio Vaz: “Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira”. Assim seguiremos, por João Pedro, Miguel Otávio, João Alberto e tantos outros que não tiveram a mesma oportunidade.