Mercado abrirá em 57 mins
  • BOVESPA

    121.113,93
    +412,93 (+0,34%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    48.726,98
    +212,88 (+0,44%)
     
  • PETROLEO CRU

    63,01
    -0,12 (-0,19%)
     
  • OURO

    1.781,70
    +1,50 (+0,08%)
     
  • BTC-USD

    57.111,71
    +2.349,62 (+4,29%)
     
  • CMC Crypto 200

    1.296,62
    -95,09 (-6,83%)
     
  • S&P500

    4.185,47
    +15,05 (+0,36%)
     
  • DOW JONES

    34.200,67
    +164,67 (+0,48%)
     
  • FTSE

    7.018,63
    -0,90 (-0,01%)
     
  • HANG SENG

    29.106,15
    +136,44 (+0,47%)
     
  • NIKKEI

    29.685,37
    +2,00 (+0,01%)
     
  • NASDAQ

    13.986,25
    -43,25 (-0,31%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,6947
    +0,0086 (+0,13%)
     

Eles nunca pararam de trabalhar na pandemia: “Você só quer chorar”

Priscila Carvalho
·6 minuto de leitura
Eles nunca pararam durante a pandemia (Arte: Fer Rodrigues/Yahoo)
Eles nunca pararam durante a pandemia (Arte: Fer Rodrigues/Yahoo)

Desde o fim de 2019, onde surgiram os primeiros casos do coronavírus em Wuhan, na China, o infectologista Igor Marinho, 31, tem vivido dias pesados.

Horas intermináveis de plantão, pesquisa, pacientes muito doentes e pouco tempo para cuidar da saúde física e, principalmente, da mental. “Têm momentos de muito cansaço, tristeza, alegrias. A gente que é profissional de saúde sabe que é bem cansativo, mas acredito que o tempo de descansar e relaxar vai ocorrer”, diz.

Leia também

Ele conta que mesmo diante de um cenário desastroso, comparado a uma guerra, nunca pensou em desistir. “Tudo isso transformou muito a minha relação médico/ paciente. Devo ter conhecido umas 800 pessoas nesse período. Se um paciente se recuperar, já vai estar valendo minha profissão”, conta ele, que atendeu a reportagem por WhatsApp, por conta da correria no hospital.

O infectologista Igor Marinho (Foto: Arquivo Pessoal)
O infectologista Igor Marinho (Foto: Arquivo Pessoal)

E a rotina que antes era de esportes e idas à praia mudou totalmente. O infectologista conta que hoje evita, ao máximo, visitar e ter contato com outros amigos médicos, ver familiares e quando pode estar em casa, assiste a um filme e pede comida por meio de delivery. Sobre os cuidados de saúde mental, ele conta que recebe apoio do hospital em que trabalha, mas nunca precisou usar os serviços. “Não recorri à psicoterapia, mas acho válido”, ressalta.

“Você não pode nem enxugar as lágrimas”

Natalia Ribeiro, 36 anos, enfermeira e coordenadora de estudos clínicos (Foto: Arquivo Pessoal)
Natalia Ribeiro, 36 anos, enfermeira e coordenadora de estudos clínicos (Foto: Arquivo Pessoal)

Para Natalia Ribeiro, 36 anos, enfermeira e coordenadora de estudos clínicos, a rotina não tem sido muito diferente. Desde sempre, tinha que sair para o hospital e nunca fez home office.

Trabalhando atualmente na UTI do Hospital São Paulo, na zona sul da capital paulista, ela atende pacientes cardíacos e que também tiveram sequelas da covid-19. Antes disso, ela estava em uma UTI destinada exclusivamente a pacientes com a doença.

Foi e está sendo superestressante. O plantão era aquilo, quando você achava que ia embora, o paciente ‘parava’, e você tinha que ficar. Era alta a carga de serviço, conta.

E não tem como se acostumar diante desse trabalho. A profissional de saúde afirma que não tinha um dia em que ela não ficava mal. Uma das cenas mais chocantes foi quando pacientes que estavam à beira da morte ou iam ser entubados pediam para falar com os familiares, já que muitos não podiam ter contato com ninguém ou só até duas pessoas. “Nessa hora você só quer chorar e nem pode enxugar as lágrimas”, afirma.

Para tentar não “surtar”, a enfermeira tem acompanhamento médico com psicoterapeuta e psiquiatra. “Faço terapia há algum tempo e foi o que me ajudou a segurar. Às vezes olhava o Instagram e chorava. Você chora, chora e fica muito sensível. Antes, o hospital disponibilizava psicólogos para pessoas que perderam parentes, e agora, também oferece para todos os profissionais.”

Cuidar da saúde mental é para quem? Ela tem oito filhos

A auxiliar de limpeza Clarinda de Sousa (Foto: Arquivo Pessoal)
A auxiliar de limpeza Clarinda de Sousa (Foto: Arquivo Pessoal)

Assim como milhares de brasileiros que precisam sair de suas casas para trabalhar todos os dias, Clarinda de Sousa, 51, também não pôde permanecer em home office. Desde o início da pandemia e com todas as medidas de restrição, a auxiliar de limpeza não tinha como parar com o serviço, principalmente agora.

Mãe de oito filhos e moradora da periferia da zona leste de São Paulo, ela conta que o seu maior medo era perder o emprego ou até mesmo ser assaltada novamente—ela foi foi vítima de um roubo na semana passada quando chegava em casa.

Com uma rotina de oito horas diárias e numa escala de seis dias de trabalho por um de folga, ela conta que tenta, ao máximo, se proteger.

Nós recebemos todas as roupas, óculos, luvas e proteção, então fico mais tranquila, afirma.

Clara também ressalta que evita pegar transporte público lotado e, quando é possível, volta a pé, para fugir de aglomerações dentro da condução. Em média, ela gasta uma hora ou até mais de ônibus para chegar no trabalho.

Quando questionada sobre como cuida da sua saúde mental e se não tem medo de ficar doente, ela se confunde, não entende muito bem a pergunta e ainda reforça: “Fiquei com medo quando fui assaltada. Levaram minha bolsa”, diz.

Depois de eu explicar o que a pergunta queria dizer, ela conta que no único dia de folga que tem, aproveita para ficar com as netas, arrumar a casa e frequentar a igreja. “Faço parte do grupo, gosto de ir lá.”

Como se ajudar nesse processo

Diante do cenário cada vez mais preocupante e com novas variantes do coronavírus, o Brasil parece estar longe de encerrar a pandemia. E se antes as pessoas sentiam dificuldade de permanecer em casa, agora, depois de um ano vivendo essa rotina, é ainda pior.

Para tentar manter a saúde mental em dia, Angélica Cardoso Martins, psicóloga do Saúde Integral do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, reforça que o ideal é dosar as notícias relacionadas ao momento em que estamos. “Não precisa ficar assistindo noticiário o tempo todo e ficar conversando sobre. Tente ficar informado, mas sem ficar preso nisso”, explica.

A especialista explica ainda que o recomendado é que o paciente procure ajuda na espiritualidade e coisas que gosta.

Espiritualidade não tem a ver com religião, e sim, com coisas que a fazem bem e que as deixam menos ansiosas diante dessas situações de estresse. Pode ser ouvir sua música preferida, meditação, atividades relaxantes, reforça.

E para quem não tem poder aquisitivo e não consegue ter um acompanhamento médico frequente, a profissional orienta que é possível conseguir atendimento online em grupos de faculdade e UBSs. Caso não tenha acesso a nenhum desses recursos, procure buscar e aprender sobre o autoconhecimento. “Pratique, faça autocuidado e tire um momento para olhar para si”, ressalta.

“Fique em casa” vale para todos?

Com o avanço no número de mortes por coronavírus, ficar em casa tem sido a principal ferramenta para evitar uma contaminação.

Para quem não consegue trabalhar de onde mora, sair e pegar um transporte todo dia já virou rotina. Mas mesmo para essas pessoas, que precisam se deslocar diariamente, é preciso ter cuidado e permanecer a maior parte do tempo dentro de sua residência.

Igor Marinho, que também trabalha na linha de frente do Hospital das Clínicas em São Paulo, explica que o isolamento é a maneira mais eficiente para se manter seguro. “O ideal é reduzir as oportunidades de transmissão. A partida de futebol, o bar, a balada são dispensáveis, diferentemente do trabalho, onde a pessoa precisa sair todos os dias”, afirma.

Alberto Chebabo, infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, também reforça a importância de ficar em casa, mesmo todos estando no limite. Só com essas medidas, é possível evitar ainda mais o avanço no número de mortes. “É preciso evitar aglomeração, usar máscaras de proteção e álcool nas mãos. E tomar mais cuidado no transporte público onde o risco de transmissão é maior”, finaliza.