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Biden x Trump: Eleição nos EUA lança incógnita ao futuro bolsonarista

Matheus Pichonelli
·6 minuto de leitura
WASHINGTON, D.C., USA - NOVEMBER 2, 2020: An activist hangs a poster in support of the Black Lives Matter social movement and against incumbent president Donald Trump on a fence near the White House ahead of the 2020 general elections. On Election Day, November 3, the country is to elect a president and vice president, 35 Senators, all 435 members of the House of Representatives, 13 governors of 11 states and two US territories, as well as state and local government officials. Incumbent Republican President Donald Trump and Democratic Party nominee Joe Biden are running for president. Vladimir Kostyrev/TASS (Photo by Vladimir Kostyrev\TASS via Getty Images)
Ativista cola pôster em apoio ao movimento Black Lives Matter em muro próximo da Casa Branca. Foto: Vladimir Kostyrev/TASS (via Getty Images)

Os EUA escolhem nesta terça-feira 3 seu novo (ou velho) presidente e não seria exagero afirmar que tem mais gente apreensiva com o resultado por aqui do que com as eleições municipais.

Não sem razão.

Em 2016, quando Donald Trump foi eleito e surpreendeu o mundo, a lógica e os institutos de pesquisa, um vórtice temporal se abriu dragando e influenciando processos políticos em diversas partes do país. Aqui, inclusive.

Relendo as notícias da época, a impressão é que elas vinham com uma espécie de nota de rodapé: “eu sou você amanhã”.

E eram.

Dois anos depois, o Brasil elegeria um presidente impulsionado pela onda nacional-populista de direita que tem em Donald Trump sua idealização estética e programática mais bem acabada. Lá, ao menos, o secular sistema de pesos e contrapesos impediu que o magnata da construção e ex-apresentador de TV, mais conhecido pela beligerância vulgar do que pela inteligência, transformasse a maior potência econômica e militar do planeta numa coxa de frango servida em barbecue e blue cheese.

Mas houve estragos. E haverá legado.

A própria tensão que envolve a votação e uma já anunciada contestação judicial do sufrágio são sintomas da fragilidade paranóide e institucional alimentada pelo candidato republicano à reeleição.

Trump, agora ou daqui alguns anos, será lembrado pelo absurdo.

Como absurdo era, a olhos já devidamente distanciados, sua proposta central em 2016: a construção de um muro na borda americana com o México.

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Lá estava a mensagem fundamental do futuro presidente: o inferno são os outros. Regada à egolatria do líder e um falso moralismo armado até os dentes, o espancamento da alteridade chegou ao ápice com as imagens de crianças separadas dos pais e enjauladas numa espécie de limbo entre a prisão e o sonho americano. América em primeiro lugar. América aos americanos.

Até hoje existem 545 crianças neste limbo que não sabem o paradeiro dos pais.

Coube ao roteirista desta história voltada para dentro determinar que o estrategista-chefe daquela campanha e futuro conselheiro da Casa Branca, Seteve Bannon, logo em seguida enxotado de lá, tenha sido detido anos depois por organizar uma vaquinha para erguer o muro contra os do lado de lá e fugido com parte do dinheiro. O inimigo estava do outro lado. Estava tão perto do umbigo que os olhos embotados de nacionalismo e medo não haviam então percebido.

Em quatro anos de governo, a figura errática do líder da nação se fundiu e se confundiu com a própria presidência. Como marca está uma média diária de sete mentiras divulgadas oficialmente em suas redes, segundo uma conta do Washington Post em 2018.

Trump flertou com supremacistas, que cresceram sob suas barbas e se espalharam pelo país. Condenou o movimento Black Lives Matter que explodiu após o caso George Floyd e o equiparou aos extremistas brancos. Brindou com negacionistas, tergiversou sobre a urgência climática, fincou estacas no anticientificismo e foi engolido na crise do coronavírus, que colocou em disputa uma reeleição quase certa.

O desmoronamento da economia é antes um sinal de fragilidade do castelo de cartas construído pelo presidente norte-americano do que uma infelicidade do destino. As bases fincadas pelo baixo índice de desemprego e crescimento econômico considerável foram corroídas enquanto Trump reconhecia ter escondido a gravidade da pandemia para evitar a contaminação da população pelo pânico.

Deu no que deu.

Até a data da eleição, mais de 230 mil conterrâneos haviam morrido por covid-19. Um exemplo de como não liderar uma nação.

O passo-a-passo da tragédia foi copiado descaradamente pelo pupilo brasileiro, que também minimizou riscos, confrontou a ciência e a Organização Mundial da Saúde, atacou jornalistas, xingou adversários, sabotou os esforços por isolamento, estimulou aglomerações e apostou na cura milagrosa de um medicamento que se mostrou fajuto.

A dobradinha, com discurso e postura decorada após a famosa visita da corte brasileira aos EUA, em março, colocou os dois países na vergonhosa lista dos mais destroçados pela pandemia.

Há quem observe a eleição americana em 2020 e questione se hoje haveria Bolsonaro se não houvesse Trump. O “se” não cabe na história, nem no exercício jornalístico. Para piorar, Philip Roth, autor do monumental Complô contra a América -- que especula como seriam os EUA caso Roosevelt tivesse sido derrotado por um outsider, o aviador americano Charles Lindbergh, um notório entusiasta do nazismo, pouco antes da Segunda Guerra -- não está mais entre nós para fundir realidade e ficção. Roth morreu em 2018 e não viu o final da própria distopia.

A onda já estava em curso com Orban e Duda na Hungria e na Polônia e o brexit no Reino Unido. E os balões de ensaio sobre como o amálgama entre fake news, crise, guerra cultural e manipulação de afetos num mundo em transição, marcado por apreensões de toda ordem, estavam à mesa quando Trump decidiu dar um rosto, ou uma careta, a uma onda que tomava forma.

Esta materialização não só bateu palmas como ofereceu o palco para todo tipo de malucos, alguns bastante perigosos, dançar. A confiança de uma turma de ineptos, paranoicos e alucinados que se aboletou do poder por aqui encontrou ressonância e costas-largas no alinhamento automático com a potência americana, que agradeceu a subserviência com migalhas e cenouras na ponta do anzol, como a promessa de apoio à entrada do país na OCDE e a sobretaxas a produtos brasileiros.

Sem os ídolos na matriz, os seguidores da filial correm o risco de falar sozinhos, ou a grupos cada vez mais restritos. O orgulho párea tem um par até dezembro. Terá em janeiro?

Em sua campanha, Joe Biden colocou a Amazônia e a questão climática no centro da conversa. Isso pode lançar o Brasil na mira de uma pressão internacional sem precedentes que até ontem não tinha o peso da bandeira americana.

Isso de fato muda, mas o pragmatismo americano tende a falar mais alto quando opera na lógica que separa joio, trigo, amigos, alinhamento ideológico e negócios. Estes não ficam à parte. Ficam à frente.

A onda que elegeu líderes populistas mundo afora tem em sua trajetória a eleição de 2016 como o ápice e a conquista de uma espécie de joia da coroa. Se perdê-la, ainda sobrarão alguns anéis. E os dedos. É possível que todo os esforços se concentrem, em caso de derrota nos EUA, em sua base mais importante a partir de então, de onde tentará se rearticular. Não será de se estranhar se o Brasil deixar de ser posto estratégico para se tornar o centro do movimento.

Mas tudo ainda está no campo do “e se”.