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Eleições 2020: candidatos negros bem qualificados têm menos espaço que brancos medianos

Alma Preta
·3 minutos de leitura
Para especialistas, o cenário político ainda reproduz os mesmos obstáculos da lógica racista do setor privado
Para especialistas, o cenário político ainda reproduz os mesmos obstáculos da lógica racista do setor privado

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Nas grandes cidades brasileiras, onde se disputam esse ano os cargos de prefeitos, os candidatos e candidatas negras enfrentam um cenário de desvalorização de suas experiências políticas e histórico de luta, enquanto é normalizada a “experiência mediana” de candidaturas brancas. É o que avalia a articuladora política Magda Gomes.

“É um exemplo comum do que já acontece no dia a dia dos negros. A gente tem várias graduações, pós e tudo mais para conseguir um emprego que um branco só com uma graduação conseguiria”, explica.

Em São Paulo, a maior cidade do país, dois candidatos negros estão na disputa eleitoral. Um deles é Orlando Silva, do PCdoB, que já foi ministro dos Esportes, na gestão Lula, e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Ele também foi deputado federal e vice-líder do governo na Câmara.

A experiência política do candidato do PCdoB não tem destaque na cobertura das eleições ou nem mesmo é confrontada com a de outros políticos, como Celso Russomano, do Republicanos, que também foi deputado federal, por quatro partidos diferentes, e perdeu as eleições que disputou para as prefeituras de Santo André, São Paulo (duas vezes) e para o governo estadual, em 2010.

“Candidatos brancos com participação mediana na sociedade e mesmo na esfera política é comum. A gente tem que correr para chegar lá e quando chega, se aumenta a régua, muda o limite. Enquanto apenas o fato do candidato ser branco diz que ele é apto até para nos representar publicamente”, ressalta Magda.

No Rio de Janeiro, há a candidatura de Benedita da Silva, pelo PT, que já foi governadora do estado. Ela também tem enfrentado desvalorização e uma tentativa de apagamento de sua trajetória.

“Benedita reúne experiência pública de vereadora, de deputada, de Secretária Estadual, de Ministra de Estado e de Senadora. Toda essa história deveria ser um diferencial da exposição, mas pelo contrário, ela experimenta uma invisibilidade para tentar inviabilizar o seu nome”, afirma o advogado Eloi Ferreira de Araujo. “A pergunta que não pode calar é: se ela fosse branca, será que teria o mesmo tratamento?”, questiona Araújo, que também é ex-presidente da Fundação Cultural Palmares (FCP).

De acordo com o advogado, não é por acaso que as candidaturas de Benedita e Orlando têm recebido um tratamento parecido da imprensa e dos analistas políticos. “O racismo não é resquício residual da escravidão. Ele é estrutural. É um legado da escravidão. É um passado que arromba a porta do futuro para nos ofender diariamente, insistindo em nos lembrar que não teremos oportunidades iguais se não lutarmos”, pondera.

Mesmo quando o resultado da eleição é favorável à candidatura negra, o viés do racismo aparece no comportamento político, inclusive dos próprios partidos. Em 1996, o economista negro Celso Pitta foi eleito prefeito de São Paulo com mais de 60% dos votos no segundo turno. O partido dele, porém, fez uma campanha baseada na imagem do Paulo Maluf, do PPB na época, e padrinho político de Pitta.

“O racismo opera em ações conscientes e inconscientes. A naturalização dos estigmas de que negros são desprovidos, por exemplo, de capacidade intelectual, nos acompanha todo o tempo”, explica o educador Douglas Belchior, integrante da Uneafro e da Coalizão Negra por Direitos.

Segundo Belchior, tanto nos casos do Pitta, do Orlando e da Benedita, mesmo com uma diferença de quase 30 anos entre essas campanhas, demonstram que o racismo é um obstáculo para que pessoas negras tenham destaque em cargos eletivos para o executivo.

“O currículo dos três citados é muito acima da média. Se fossem pessoas brancas, essas qualidades “combinariam” mais e seriam tanto emitidas de maneira mais efetiva quanto recebidas de outra maneira também. É como se numa fila de identificação um branco que se apresentasse como médico fosse percebido com naturalidade, enquanto um negro, também assim apresentado, é percebido desconfiança”, enfatiza Belchior.