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Eleições 2020 não têm vencedor claro, mas uma fileira de derrotados

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - NOVEMBER 15: President of Brazil Jair Bolsonaro (R) leaves after voting during the municipal elections at Vila Militar on November 15, 2020 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Luis Alvarenga/Getty Images)
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - NOVEMBER 15: President of Brazil Jair Bolsonaro (R) leaves after voting during the municipal elections at Vila Militar on November 15, 2020 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Luis Alvarenga/Getty Images)

Por incrível que pareça, há mais derrotados do que vencedores no tabuleiro das forças políticas apresentado nas eleições municipais pelo Brasil. Até o fim do mês, 50 cidades ainda definirão suas disputa, entre elas as duas maiores do país, mas o saldo parcial impede de apontar um ganhador absoluto.

Até 2022 há muita água para correr e muito alerta para assimilar, mas não parece precipitado dizer que Jair Bolsonaro reprovou em seu primeiro teste como presidente-cabo-eleitoral. Nem adianta dizer que ele não se engajou como poderia na campanha de seus aliados. As lives presidenciais, que deveriam ser públicas, e não partidárias, serviram como uma propaganda eleitoral online tão inapropriada quanto inócua.

No Rio, por exemplo, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) perdeu 35 mil votos em relação à última campanha, quando o pai ainda não era o presidente. Não é mais o campeão de votos da Câmara Municipal, posto perdido para um vereador do PSOL, Tarcísio Motta.

O apoio do presidente também não impulsionou sua antiga e suposta funcionária fantasma, a Wal do Açaí, que trabalhava como comerciante em Angra dos Reis enquanto figurava entre as servidoras do gabinete do então deputado federal em Brasília. A visibilidade nacional só não foi maior do que a vergonha. Ela recebeu apenas 266 votos na cidade e não foi eleita.

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Das apostas do presidente, uma vingou: a de que Marcelo Crivella (Republicanos) estaria no segundo turno no Rio. Capitão Wagner (Pros) também passou de fase em Fortaleza, mas no seu caso o anúncio do outro capitão não foi determinante; pelo contrário, ele construiu toda a campanha tentando mostrar que era mais do que um preposto do presidente na capital cearense.

Já os candidatos a prefeito apoiados por Bolsonaro em Belo Horizonte, Manaus, Recife, Santos e (principalmente) São Paulo naufragaram à medida que o suposto ajudante colocava o pé em seus barcos. Celso Russomanno (Republicanos), por exemplo, foi de favorito a quarto colocado.

Após o baque de 2016, a esquerda reunida em torno do PT não conseguiu se reerguer. O Partido dos Trabalhadores colheu a pior votação no maior colégio eleitoral do país, onde já elegeu três prefeitos, entre os quais Marta Suplicy, hoje apoiadora de Bruno Covas (PSDB), e Luiza Erundina (PSOL), vice de Guilherme Boulos (PSOL).

Liderada pelo ex-presidente Lula, a legenda perdeu 60% de suas prefeituras em 2016. Tinha 630 e passou a 250. Agora terá 174 filiados pelas prefeituras do país e tem chance de se sagrar vitoriosa em apenas uma capital, Vitória (ES), onde João Coser disputou o segundo turno.

O saldo fez com o que PT saísse das urnas com menos prefeituras do que outros partidos de seu campo, casos do PDT (304) e do PSB (245).

Assim como aconteceu em 2016, o MDB é o partido que mais elegeu prefeitos pelo país. Foram 754 filiados eleitos para os executivos municipais, desempenho bem inferior ao da última disputa, quando conquistou 1.028 cidades.

O PP vem logo atrás com 666, seguido por PSD (631), PSDB (486), DEM (450) e PL (335) --todos partidos da antiga direita ou do novo centrão.

Detalhe: o PSL, que em 2018 elegeu presidente, três governadores e a maior bancada da Câmara (hoje desidratada), consagrou apenas 85 prefeitos e fez mera figuração nas maiores cidades. O Republicanos, por sua vez, hoje mais identificado com o bolsonarismo, fez 202 prefeituras --quase 30 a mais do que os rivais do PT.

Em evidência, o PSOL chegou à “final” na maior cidade do país e também em Belém (PA), com Edmílson Rodrigues, mas o saldo pelo país também é baixo. A sigla elegeu apenas quatro prefeitos eleitos neste domingo.

O atraso na divulgação dos resultados fez com que os velhos teóricos da conspiração, que querem mudar tudo para tudo permanecer como está, saírem da toca e defenderem, sem autocensura, velhos cabrestos vendidos como “melhoramento”. Provavelmente ganharão eco, como tem feito Donald Trump nos EUA ao colocar em dúvida a legitimidade do processo eleitoral de seu país, mas o argumento por voto impresso ou voto remoto tem tanto sentido quanto pedir a volta dos cavalos toda vez que falha o motor de um automóvel. A ver.

Como esperado, as eleições deste ano, ainda sob o efeito e os temores relativos à covid-19, tiveram recorde de abstenções: 30,6% do eleitorado. Em algumas cidades o prefeito eleito teve menos votos do que o terceiro colocado em disputas anteriores. O risco é largar com teto baixo de expectativa e apoio popular.

Em 2016, nem todo mundo que cresceu nas disputas locais ganhou impulso ou musculatura para as eleições nacionais dois anos depois. O PSDB, que parecia ser o herdeiro natural dos votos pós-Lava Jato, viu alguns de seus figurões caírem nas investigações e saiu da disputa presidencial com 4% dos votos dedicados a Geraldo Alckmin (PSDB), que dois anos antes ajudou a eleger uma fileira de aliados, João Doria, em São Paulo, entre eles.

Mas há lições a serem tiradas por quem já olha o tabuleiro de 2022. O Rio é, até aqui, um laboratório do que pode e do que não pode, a depender de onde se olha, se repetir em nível nacional.

Terá na disputa entre o atual e um antigo prefeito, um beneficiário da onda por renovação, outro da antiga direita pefelista remodelada, um duelo que se espelha para além da política local.

Foi lá que três candidatas competitivas à esquerda perderam a chance de formar uma frente ampla pelos votos do campo progressista e viram a reunião de forças por afinidade se dissipar. Juntas, Martha Rocha (PDT), Benedita da Silva (PT) e Renata Souza (PSOL) tiveram 26% dos votos --4% a mais do que Marcelo Crivella, que se beneficiou da divisão e chegou, vivo, ao segundo turno.