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Eleições no Congresso viram a síntese da barafunda nacional

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
The head of the Brazilian Chamber of Deputies Rodrigo Maia, attends the ceremony to grant the Order of Medical Merit at the Planalto Palace in Brasilia on March 27, 2018. - Maia recently launched his pre-candidacy for Brazil's October presidential election and Temer is also considering running for a full term. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
O futuro ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP) tentaram, no tapetão, conseguir o direito a mais dois anos à frente da Câmara dos Deputados e do Senado, respectivamente.

A iniciativa foi barrada.

Alcolumbre levou menos tempo para desencarnar do cargo. Com sua bênção, o candidato favorito à sucessão do Senado é Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que conseguiu angariar apoio tanto da base bolsonarista quanto da bancada do PT. No Brasil, água e vinho não só se misturam, a depender das circunstâncias, como são servidos no mesmo cálice.

O MDB, que sempre reivindicou (e quase sempre conseguiu) protagonismo nas Mesas Diretoras do Congresso, até tinha candidata própria. Mas a senadora Simone Tebet (MS) não conseguiu unir sequer sua legenda às vésperas da disputa.

Na Câmara, Rodrigo Maia demorou a se acostumar à ideia de que, a partir de fevereiro, precisaria ceder o assento assumido há cinco anos, primeiro como líder tampão da gestão Eduardo Cunha (MDB-RJ), abortada por escândalos políticos, comerciais e policiais; depois, como líder eleito por uma ala ampla de deputados.

De 2019 para cá, Maia formou em seu entorno uma espécie de paredão anti-Bolsonaro. Prestigiado e fortalecido pelos pares, ele conduziu a votação da reforma da Previdência, uma prioridade que o Planalto não soube liderar, e com o tempo serviu como contraponto aos delírios persecutórios do presidente toda vez que este cruzou a linha --ou seja, sempre. Por carta, tuítes ou notas de repúdio, os arroubos autoritários de Bolsonaro não ficaram sem resposta. Nos capítulos finais, o chefe do Executivo foi chamado de covarde pelo líder da Câmara. Coisa fina.

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As disputas em torno de seu sucessor têm ingredientes de realismo fantástico com pitadas de House of Cards. Contaram até mesmo com fantasmas soterrados que voltaram à terra para assombrar as almas mais arrependidas de seus pecados mortais.

Pouco antes da votação, chegou à imprensa um aperitivo do que será o próximo best seller dos atacarejos políticos nacionais. O autor é Eduardo Cunha, que em seu livro conta que o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, teve participação direta de Maia, o ex-presidente Michel Temer (MDB) e o agora candidato a presidente da Câmara Baleia Rossi (MDB-SP), filho de um ex-ministro e figurão emedebista, Wagner Rossi, e que até outro dia era conhecido pelos espectadores de Ribeirão Preto e região como apresentador de um programa de pesca e outros entretenimentos na TV. Hoje é o guerreiro do povo brasileiro ungido para comandar a cruzada anti-fascista.

Ironias à parte, PT e outras legendas de esquerda hoje estão com Baleia e Maia. O inimigo agora é outro e faz de tudo para emplacar no comando da Câmara o deputado Arthur Lira (PP-AL), recém-convertido ao bolsonarismo e que associou o atual presidente da Casa a Kim Jong Un, o ditador norte-coreano.

Num tempo em que as pegadas de rinoceronte são as marcas da delicadeza, Maia teve a habilidade política testada ao costurar uma frente anti-governo contra quem passou os últimos meses se negando a analisar quaisquer pedidos de abertura de impeachment que jorravam até sua mesa.

Em janeiro Maia e Baleia pareciam ter conseguido o impossível. Num ato na Câmara, oficializaram um amplo leque de apoio que ia do PT ao PSL --sim, o partido que elegeu Jair Bolsonaro e foi implodido pelo presidente logo depois. Entre uma ponta e outra cabiam gente do MDB, PSB, PSDB, DEM, PDT, Cidadania, PV, PCdoB e Rede.

Até que Bolsonaro entrou em campo.

Com a popularidade em queda, investigação contra os filhos e digitais engorduradas de uma série de possíveis crimes de responsabilidade durante a pandemia, Bolsonaro decidiu enterrar a conversa que o elegeu em 2018, quando prometia acabar com o chamado “toma-lá-dá-cá” e seu futuro ministro Augusto Heleno cantava “se pegar pega centrão não fica um, meu irmão”.

No Planalto, já não é motivo para vergonha discutir a criação de novos ministérios ou a liberação de emendas parlamentares para os novos aliados.

O líder do Partido Progressista, a legenda mais investigada na Lava Jato que já abrigou parlamentares como Paulo Maluf e o próprio Bolsonaro em seus tempos de deputado, firmou aliança com um presidente assumidamente reacionário e dará um duplo twist carpado ao centro de um tabuleiro onde sempre se alimentou pelas bordas.

O centrão hoje é o bote salva-vidas que pode garantir a sobrevivência do capitão até 2022. Em tese. Como tudo no país, as feridas abertas das disputas fratricidas vão ainda supurar matéria purulenta aos montes Será servida nas tigelas da vingança e do ressentimento.

O maior deles ainda sangra com a deserção do DEM para o barco bolsonarista. Maia ficou para a história como o articulador que trouxe todo mundo para seu lado, menos a própria legenda --que agora deve agora abandonar. Não sem antes cair atirando, como parece claro em sua disposição repentina em abrir o processo de impeachment e deixar a bola, e o constrangimento, ao seu sucessor.

Os que não foram atraídos pelas promessas do Planalto prometem trabalhar diuturnamente agora pela sua derrubada. Não são maioria, mas são muitos.

Na história política recente, a ausência de consenso e a interferência indevida do Executivo nos pleitos legislativos não começam nem podem terminar bem. Cunha está aí para contar história.

Se tudo correr como se desenha, Bolsonaro terá a partir de agora comandantes aliados posicionados no cume do Congresso. Não terá hegemonia, mas terá um pouco mais de condições emplacar a sua pauta --ou seja, armamento, cloroquina, extinção do cinto de segurança, dos pardais da estrada, dos fiscais do Ibama, pautas de costume e outras obsessões personalistas fundamentais para transformar um país em desenvolvimento em potência econômica mundial.

Tudo isso em tese, dado o histórico de traições e desavenças que marcaram outros casamentos de união instável de Bolsonaro com partidos políticos e ex-aliados de primeira ordem.

Ao menos na Câmara, quem assumir a presidência da Casa assumirá também uma bomba prestes a explodir num ambiente mais do que nunca tensionado.