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Eleições em Honduras têm esquerda na liderança em pleito marcado por crises

·5 min de leitura

GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - As mais importantes eleições presidenciais da história recente de Honduras podem ter a primeira mulher como vencedora. Com cerca de 51,45% da votação deste domingo (28) apurada, a esquerdista Xiomara Castro de Zelaya (Libertad y Refundación), 62, soma 53,61% dos votos. Líder da oposição hondurenha, ela é esposa do ex-presidente Manuel Zelaya, deposto por um golpe de Estado em 2009.

O governista Nasry Asfura está em segundo lugar, com 33,87% dos votos, e o empresário Yani Rosenthal vem em terceiro, com pouco mais de 9%. Como não há segundo turno no país centro-americano, aquele que conseguir a maioria dos votos ao fim da apuração comandará Honduras até janeiro de 2026.

Ao longo do horário de votação, jornalistas independentes compartilharam nas redes sociais relatos de confusão nos centros eleitorais e forte policiamento nas ruas, o que aumentou o temor de que repressão semelhante à adotada pelo Estado em 2017 se repetisse. Naquele ano, 23 hondurenhos morreram em meio a protestos contra a eleição do atual presidente, Juan Orlando Hernández, de direita.

Ainda que apenas metade dos votos tenha sido apurada, a principal candidata já declarou vitória e promoveu eventos com os apoiadores na capital Tegucigalpa. Em discurso na noite de domingo, Xiomara afirmou ter vencido a disputa e prometeu promover um governo de reconciliação. "Estendo a mão a meus opositores porque não tenho inimigos. Vou convocar o diálogo com todos os setores de Honduras", disse.

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, aliado de Xiomara e Zelaya, fez coro às palavras de vitória. O venezuelano felicitou a candidata em uma rede social e disse que, após 12 anos de golpe de Estado, "o povo retomou o caminho da esperança dando uma histórica vitória à presidente eleita".

O presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Kelvin Aguirre, disse, porém, que nenhum candidato pode se declarar vencedor "até que a última ata seja processada". Segundo o órgão, o pleito teve participação de 68% dos mais de 5,1 milhões habilitados a votar —o país tem 9 milhões de habitantes.

Apesar das críticas do chefe do órgão eleitoral, ao menos até o fim da tarde desta segunda os números da apuração da eleição hondurenha estavam paralisados desde as 6h55 do horário local (9h55 em Brasília).

A demora para atualizar as cifras gerou questionamentos em redes sociais. No começo da apuração, o site do órgão oficial chegou a ficar fora do ar, o que lembrou problema parecido nas eleições de 2017, disse Augusto Aguilar, ex-presidente do CNE, ao canal de TV CNN En Español.

"Essa preocupação existiu durante toda a campanha eleitoral, porque nas eleições de 2017 a transmissão foi interrompida mais de 600 vezes. É necessário investigar se existe alguma intenção de provocar irregularidades", disse. Pouco depois, o site voltou ao ar, mas a apuração passou o dia paralisada. No Twitter, a conselheira do CNE Rixi Moncada pediu "responsabilidade e paciência" à população.

Até o momento, o órgão eleitoral também não divulgou resultados preliminares da eleição de 128 deputados para o Congresso —se o Partido Nacional, governista, mantiver o controle do Legislativo e Xiomara realmente for eleita, como aponta a apuração inicial, ela deve ter dificuldades para assegurar a governabilidade. No mesmo pleito, os hondurenhos também votaram para eleger 298 prefeitos.

Além de enfrentar problemas domésticos como denúncias recorrentes de corrupção nos postos de poder e a presença do narcotráfico, o próximo presidente de Honduras terá a missão de lidar com a pobreza crônica —pesquisas sugerem que mais de 50% da população hondurenha vive abaixo da linha da pobreza.

Pesa também a responsabilidade de fomentar oportunidades em território nacional, em especial para os mais jovens, que têm emigrado em massa. O desemprego subiu mais de 5 pontos percentuais em 2020, chegando a 10,9%, em grande parte devido ao coronavírus, que matou 10,4 mil pessoas no país.

Durante o discurso de domingo, Xiomara voltou a afirmar que tem o compromisso de "garantir aos jovens que, em sua terra natal, eles encontrarão o que precisam para gerar oportunidades e bem-estar para sua família". Um dos principais destinos da migração partindo de Honduras, que, ao lado da Guatemala e de El Salvador, compõe o chamado Triângulo do Norte, são os Estados Unidos.

Hondurenhos só estão atrás dos mexicanos como principal nacionalidade a tentar entrar de maneira ilegal na fronteira sul do país. Pelo menos 309 mil deles foram detidos por agentes na fronteira dos EUA com o México durante o ano fiscal de 2021, quando 1,7 milhão foram detidos na região, número recorde.

Por essa razão, a governabilidade que o futuro presidente de Honduras conseguirá também tem sido ponto de preocupação de Washington. Um alto funcionário do Departamento de Estado americano disse a repórteres, na última semana, que o resultado do pleito "é um momento importante não apenas para os hondurenhos, mas também para a América Central e todo o hemisfério", segundo o Washington Post.

Xiomara também consolidou seu favoritismo na reta final da campanha com uma agenda que inclui a legalização dodo casamento homossexual e do aborto em casos de estupro —hoje, o procedimento é proibido no país em quaisquer circunstâncias.

Asfura, seu principal adversário, é o atual prefeito da capital do país, Tegucigalpa, e chegou a ser considerado favorito durante a corrida eleitoral, em especial por contar com o apoio do Partido Nacional, tradicional e ligado a figuras politicamente expressivas.

A legenda, assim como Xiomara, chegou a celebrar uma suposta vitória –ainda que, desde o início da contagem, ele estivesse atrás da adversária. "A vontade dos hondurenhos foi demonstrada nas urnas, e 'papi a la ordem' [como é conhecido] é o novo presidente", publicou o partido no Facebook.

O eleito também terá de lidar com as altas cifras de assassinatos de ativistas ambientais no país que, historicamente, lidera o ranking per capita mundial de líderes sociais mortos. O nome mais conhecido é o de Berta Cáceres, vencedora do prêmio ambiental Goldma, assassinada em 2016 em meio a uma disputa com uma hidrelétrica. Em 2020, 17 ativistas foram mortos no país, segundo a ONG Global Witness.

Durante a corrida eleitoral, pelo menos 31 pessoas ligadas às eleições foram assassinadas, de acordo com monitoramento do Observatório da Violência da Universidade Nacional Autônoma de Honduras.

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