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Ela saiu da periferia e hoje ajuda jovens a aprender inglês e realizar sonho do intercâmbio

Quando voltou para o Brasil, Ariane estava decidida a usar o inglês que aprendeu no intercâmbio e sua experiência para impactar outras vidas (Reprodução)

Por Melissa Santos

Desde os 16 anos Ariane Noronha tinha o sonho de viajar para o exterior e fazer o intercâmbio, mas não tinha ideia de como poderia realizar esse desejo. Filha de uma manicure e de um funcionário de almoxarifado, nunca nenhum familiar tinha ido para fora do país. “Trabalhava como secretária em um shopping e pesquisava sobre o assunto. Sempre aparecia aqueles pacotes de 15/20 mil reais e eu não tinha como arcar com aqueles valores”, relembra.

Ariane se formou em jornalismo com o salário que ganhava trabalhando no shopping. Foi aos 22 anos que o sonho de infância começou a tomar forma. “Minha amiga de infância estava indo para a Califórnia ser au pair (babá). Foi a minha primeira referência de alguém próximo saindo do país. Ela me explicou como funcionava e que era uma forma mais acessível de ter essa experiência”, conta.

Ela resolveu se inscrever no programa, que conta com um teste de fluência em inglês, mas reprovou. “Estudava inglês em casa, pois na escola não era suficiente. Foquei ainda mais nos estudos e no segundo teste eu passei”, relembra. Foi assim que ela conseguiu realizar seu sonho de fazer um intercâmbio indo trabalhar na Virginia, perto de Washington, em uma família com 3 crianças.

Ariane morou um ano e meio fora e conseguiu, além de aprimorar seu inglês, realizar cursos na área de Comunicação. “A experiência foi muito além do aprendizado do inglês. Conheci gente do mundo inteiro e uma série de coisas que nunca imaginei conhecer”, conta.

Quando voltou para o Brasil, no fim de 2015, estava decidida a usar o inglês que aprendeu no intercâmbio e sua experiência internacional para impactar outras vidas. Para isso, começou dando aulas na ONG Gerando Falcões. “Lá conheci muita gente boa e cheia de potencial e eles me perguntavam muito sobre a possibilidade de viajar. Foi quando decidi que eu poderia criar meu próprio projeto para impactar as pessoas com a minha experiência”, conta.

Foi assim que nasceu a ideia de criar a Soul Bilíngue, projeto para incentivar e preparar jovens de periferia para um intercâmbio. “Sabemos que o ensino de inglês é precário nas escolas públicas e eu por ter sido essa aluna sei das necessidades e da importância de ter informações sobre intercâmbios mais acessíveis. Muitos desses jovens não são encorajados a sonhar alto e acham que viajar para outro país é algo muito distante da realidade deles”, fala.

Em 2018, o projeto foi colocado em prática justamente para quebrar essas barreiras. “Alunos de escola particular entendem que em algum momento da vida terão uma vivência no exterior. Seja nas férias ou no intercâmbio. Fora que sempre são incentivados pelos pais. Já na periferia não chega esse tipo de informação. Nunca tive uma palestra na minha escola a importância de uma vivência no exterior”, exemplifica.

A ideia da Soul é atender de várias maneiras os jovens de periferia de 17 a 25 anos, vindos de escola pública, e que tenham um nível básico de inglês e muita disposição para aprender. Para entrar, eles são submetidos a um teste de leitura para medir a fluência em inglês, dinâmica de grupo e entrevistas presenciais.

Além de oferecer um curso de inglês, a ONG também conta com atendimento psicológico, integração dos pais no projeto e aulas de educação financeira. No fim, todos os alunos que participam concorrem a uma bolsa de estudos para um intercâmbio fora do país.

“Além das aulas de inglês, contamos com 20 mentores engajados de fora do país para ajudar os jovens a ter mais contato com o idioma. Quando o aluno está com muita dificuldade em um determinado tópico, ele tem acesso a esse mentor para sanar as dúvidas”, explica.

Já o atendimento psicológico, Ariane avalia que é extremamente importante por conta do choque cultural que o jovem terá ao sair do país. “Ele precisa entender o contexto social dele. E é por isso que também oferecemos aula de planejamento financeiro, que é muito importante para quem vai morar fora. Também chamamos os pais para dentro do projeto para que eles entendam o que é um intercâmbio e porque ele é tão importante para seus filhos”, fala.

Em 2018, o projeto foi realizado de agosto a dezembro e, ao todo, 7 alunos ganharam as bolsas de estudo. “Estávamos no piloto e atendemos 11 alunos. Ainda que só 7 tenham ganhado a bolsa, já tem outros com viagem marcada. Fora que todos ganharam um passaporte, que é a entrada para o mundo e é o que materializa a possibilidade de viajar. Eles viajam no dia 5 de abril e estão todos muito empolgados. Mas acho que o mais legal foi ouvir de um aluno que o intercâmbio não é mais sonho e sim objetivo. Só de ter o contato com o tema já motiva a querer realizar o sonho”, explica.

Nesse ano, a meta da Soul é atender 100 alunos e oferecer 20 bolsas de estudo. De março a julho, 48 alunos irão participar do projeto e concorrerão a 10 bolsas. “Para ganhar precisa ter uma boa pontuação no ranking, não é só as notas da prova. Precisa ser pontual, comparecer nas mentorias e etc. eles vão ganhando pontos e os mais pontuados ganham as bolsas”, fala.

Para Ariane, sua própria transformação no intercâmbio a motiva a seguir em frente com o projeto. “Eu me transformei e isso me possibilitou a criar uma ONG de impacto com objetivo de transformar a cabeça de jovens. Porque um intercâmbio não é bom só pelo idioma, mas também deixa o CV deles mais robusto. Fora toda vivencia de respeitar o próximo e conviver com diferenças. É importante que o jovem de periferia saiba que ele tem a possibilidade de fazer um intercâmbio. De que o mundo não é só para quem tem alto poder aquisitivo”, afirma.

O objetivo de Ariane é ampliar o programa para várias regiões de São Paulo e para o Brasil. “Recebemos muitas inscrições de vários Estados e a ideia é que anualmente consigamos ampliar para atender o máximo de pessoas possíveis e mostrar que mesmo quem tem baixa renda pode ter acesso a outras culturas e países”, fala.