Mercado abrirá em 6 h 19 min

Ela era vendedora de biscoitos e hoje fatura R$ 50 milhões com suas duas franquias

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Melissa Santos

A veia empreendedora de Luzia Costa, fundadora da Sóbrancelhas e da Beryllos, veio de sua família que vivia na roça. O pai dela vendia leite, banana e “tudo mais o que aparecia”. Ela e os irmãos aprenderam a negociar com ele. “Essa garra de empreendedor vem de berço e de uma força maior que está na veia”, acredita.

Para ela, a vida de empreendedor é bem difícil, principalmente até os louros começarem a aparecer. “É só para quem tem muita vontade. É como uma faculdade de Medicina, se você não tiver dom, quando começar as aulas de anatomia, você vai desistir. Se não tem sangue empreendedor, você vai desistir”, fala.

Depois de se casar, Luzia mudou-se para Taubaté. Seu marido não ganhava bem como soldado, então, ela usou essa sua veia empreendedora para ajudar no sustento da casa. “Comecei a fazer biscoito para vender, pizza, salgados. Morava em um bairro sem padaria, então, ia me virando”, conta.

Com o tempo, ela comprou um carrinho de lanches e, depois, resolveu vender o carrinho e sua casa financiada para montar uma lanchonete. “Montei e fazia tudo! Bolos, doces, deu super certo, mas o empreendedor tem aquele sonho de continuar crescendo. Resolvi vender a lanchonete para comprar uma pizzaria”, relembra.

O movimento do espaço era muito bom e foi gerindo esse negócio que Luzia conheceu uma falácia do mundo dos negócios: “O negócio só quebra quando fica sem movimento”. “Você quebra com movimento e ganhando muito dinheiro. Eu era muito jovem e me deslumbrei. Misturei os bolsos e comecei a usar dinheiro da empresa como pessoal e quebrei”, fala.

Com o revés, ela e a família precisaram se mudar para uma casa de pau a pique na beira do rio. “Me sentia irresponsável por ter deixado chegar nesse ponto e ver meu filho morando naquele lugar. Depois de um mês morando lá, o gás acabou e eu resolvi cozinhar a lenha. Foi quando me veio o insight de fazer tomate seco e começar a vender”, conta.

Luzia levantou dinheiro e se mudou para a cidade de Roseira e, como a produção de tomate seco não funcionava no lugar, ela precisou se reinventar novamente. Com R$ 1,80, comprou açúcar e corante e passou a vender pirulitos.

A reviravolta aconteceu quando a empreendedora descobriu que a prefeitura oferecia um curso gratuito de estética. “Já sabia fazer unha e sobrancelha, até atendia algumas vizinhas e ganhava um trocadinho. Mas quando fiz o curso me destaquei”, fala.

Ela começou a atender a clientela em cima da mesa de casa, já que não tinha dinheiro para comprar uma maca. Foi quando uma cliente deu o objeto de presente e ela o pagou com serviços de massagem. “Minha carteira de clientes aumentou, mas resolvi abrir uma tenda na praia de Ubatuba, pois sabia que lá tinha mais movimento e, assim, conseguiria pagar minhas dívidas”, conta.

Depois de trabalhar dia e noite na praia, Luzia voltou para Taubaté para recomeçar, já com as dívidas pagas. “Quando voltei, tive que começar do zero. Ia nas escolas e me oferecia para fazer massagens de graça. As clientes iam gostando e me chamando e eu atendia em domicílio”, fala.

Depois de um tempo, a empreendedora chegou a alugar um espaço e se destacou ainda mais com a pigmentação e depilação com linha. Foi quando Luzia começou a dar cursos na área. “O espaço virou um centro de treinamento e tomou uma proporção a ponto de franquias mandarem seus funcionários se profissionalizarem comigo. Foi quando eu percebi que estava ensinando para os outros e ganhando pouco por isso”, fala.

Decisão de abrir franquia

Luzia decidiu abrir uma franquia e, na época, foi questionada do por que arriscar se ela e a família já estavam estabilizadas. “Orei e acreditei na promessa de Deus. Foi quando montei a primeira Sóbrancelhas. Nunca falei que era uma loja, mas sim uma franquia. De início, as pessoas riam, achavam que eu era louca. Depois, ficaram admiradas por eu ter conseguido”, conta.

Atualmente, a Sóbrancelhas conta com 180 unidades no Brasil, quatro na Argentina e uma loja que será inaugurada em breve na Bolívia. “Tudo que usamos no atendimento é descartável e isso fez com que a rede ganhasse credibilidade e confiança”, fala.

As clientes do espaço começaram então a pedir por serviços de manicure, mas Luzia não queria misturar os dois em uma só loja. “Não queria que fosse um salão, como qualquer outro. Até por que ninguém é bom em tudo. Não dá para ser ótima na sobrancelha e na unha ao mesmo tempo. Foi quando veio a ideia de segmentação e oferecer o melhor serviço nessa área de manicure”, explica.

A empreendedora não queria uma esmalteria tradicional, mas sim, algo focado na saúde e beleza com tratamentos diferenciados. Foi quando veio a ideia da Beryllos. “Não queria depender de mão de obra e queria que fosse algo que impedisse a contaminação, que é algo comum nessa área. Desenvolvi uma broca específica capaz de retirar o excesso de cutícula sem cortes e mantendo um acabamento perfeito”, conta.

Antes de lançar a ideia, Luzia fez pesquisas e descobriu que o maior causador de fungos e micoses nas unhas eram os esmaltes. “Então não adiantava lançar uma forma de remover a cutícula e evitar contaminação e, ao mesmo tempo, manter os esmaltes tradicionais. Foi quando resolvemos lançar esmaltes individuais que podem ser descartados ao fim do uso”, fala.

O objetivo da empreendedora não é brigar com as manicures, mas instituir uma nova cultura para evitar micoses e até contaminação por hepatite C. “Muita gente acha que está protegida só por levar o próprio alicate para o salão, mas, mesmo ele sendo seu precisa ser esterilizado, se não, prolifera. Você usaria a mesma calcinha várias vezes? Não é só porque é sua que não precisaria lavar, né? É a mesma ideia”, fala.

Luzia conta que muita gente fica desconfiada da cutelaria, como gosta de chamar, e fala que é preciso experimentar primeiro. “Vai chegar um momento que essas ferramentas cortantes terão um fim porque a própria esterilização é algo difícil de ser feito. As pessoas vão começar a nos procurar mais até por ser preocupar com a saúde”, fala.

Desafios de ser franqueadora

 O principal desafio da empreendedora como franqueadora foi criar o negócio em si, já que ela possuía experiência com serviços e know how do que deveria ser feito. “Foi difícil me posicionar como franqueadora no mercado até pelo preconceito de ser uma mulher que veio do nada. Ninguém acreditava, mas fiz a diferença no boca a boca, de conquistar a clientela”, diz.

Apesar de todas as dificuldades que enfrentou, Luzia acredita que aprendeu muito com tudo e foram nesses momentos que ela viu a força que tinha. “Me surpreendi com isso até. Se eu não tivesse passado pelo que passei, talvez não ia ter conseguido ser persistente para enfrentar todo o resto. Tanto que hoje as pessoas falam em crise. A pior crise para mim foi a que eu passei em casa. Comendo arroz com cheiro verde, sem dinheiro, sem perspectiva. Se isso não me afetou, não é uma crise política que vai. Basta economizar, ter gestão e dar a volta por cima”, diz.

Hoje, Luzia atua na franqueadora, faz a estruturação das novas lojas e viaja o mundo atrás de produtos que deseja incorporar na franquia. “As ideias e decisões ainda saem de mim, não divido com ninguém. Gosto de ficar a frente de tudo até por não conseguir ficar parada. Eu amo trabalhar e acho que quem não gosta nem deve montar um negócio. Não há nada que te faça trabalhar mais do que um negócio próprio”, diz.

Identifique-se com o negócio

Para quem pensa em empreender no cenário econômico atual, a dica de Luzia é se identificar com o modelo de negócio. “Ninguém ganha dinheiro com estética sendo apaixonado por comida. Uma coisa é gostar de comer, outra é de cozinhar. Abrir um negócio é difícil, gerir também, por isso, o que faz alguém prosperar é fazer o que gosta. Não só pelo dinheiro, que é uma consequência, mas sim pelo prazer de trabalhar com aquele determinado tema”, fala.

Já quem pensa em empreender na área de beleza, a empreendedora recomenda cautela e um bom capital de giro. “Hoje, o ideal é ter uma reserva de dois a três meses até conseguir se posicionar no mercado. Como não dá para perder dinheiro, não arrisque se não tiver certeza e pense em formas de conquistar clientes”, diz.

Após ter faturado R$ 50 milhões com suas lojas em 2016, os próximos passos de Luzia com a Sóbrancelhas e Beryllos é dobrar as unidades nos próximos anos, mantendo a qualidade e incorporando novas técnicas e produtos.