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Eis tudo o que sabemos sobre exoplanetas — até agora

Daniele Cavalcante
·22 minuto de leitura

Na astronomia, qualquer planeta orbitando uma estrela que não seja o Sol é chamado de exoplaneta ("exo" vem do grego e significa “de fora”). Embora a definição seja simples, há muito a aprender sobre eles, pois cada um tem características bastante peculiares — e os astrônomos já encontraram mais de 4 mil deles, até então.

O assunto é complexo, mas não se preocupe, pois as categorias já criadas para explicá-los ajudam a entender como eles são — e, nesta matéria, você descobre tudo sobre exoplanetas. Além isso, também conversamos com duas astrônomas que nos explicaram mais sobre as atmosferas dos exoplanetas conhecidos.

Como exoplanetas são descobertos?

(Imagem: Reprodução/NASA)
(Imagem: Reprodução/NASA)

É muito difícil observar um exoplaneta diretamente através de telescópios e isso se dá por vários motivos, incluindo a longa distância. Mas o principal deles é que a luz da estrela “mãe” do planeta acaba ofuscando tudo ao seu redor, então, os astrônomos precisam usar alguns recursos criativos para encontrar estes mundos afastados, muitas vezes através da análise espectral da própria estrela. Existem diversos métodos, mas os que trazem melhores resultados são o método da velocidade radial e o método do trânsito.

No método da velocidade radial, os astrônomos calculam as variações na velocidade de deslocamento da estrela em relação a nós, devido à interação gravitacional com um objeto massivo — que, no caso, é o planeta. Em outras palavras, estrela se move muito sutilmente para um lado e depois para o outro, com uma ligeira diminuição de velocidade no intervalo. Isso ocorre porque a estrela está orbitando no baricentro de seu sistema ao ser influenciada pela gravidade de seus planetas.

Já no método do trânsito, é a variação no brilho da estrela que denuncia se pode existir um planeta ao ser redor. Telescópios monitoram as estrelas constantemente e, quando uma delas apresenta uma breve diminuição de brilho, geralmente por um período de 2 até 16 horas, os astrônomos ficam atentos, pois, possivelmente, isso ocorreu devido à passagem de um planeta na frente da estrela. Assim como a Lua bloqueia parte da luz solar em um eclipse, o exoplaneta bloqueia um pouquinho da luz de sua estrela anfitriã quando passa entre ela e o nosso ponto de vista aqui da Terra.

Os dois métodos descritos têm suas desvantagens, no entanto. No método da velocidade radial, a limitação é que ele funciona apenas com exoplanetas gigantes, pois só eles são capazes de provocar oscilações detectáveis em suas estrelas. No caso do método do trânsito, o problema é que ele é eficaz para encontrar apenas exoplanetas cujos planos orbitais estejam relativamente alinhados com nosso ponto de vista — e a probabilidade de que a órbita de um mundo distante esteja perfeitamente alinhada conosco é algo em torno de 0,5%.

Confira um resumo dos métodos e quantos planetas já foram descobertos com cada um:

  • Velocidade radial: os planetas em órbita fazem com que as estrelas se desloquem brevemente no espaço. 837 exoplanetas foram descobertos com esta técnica.

  • Trânsito: quando um planeta passa diretamente entre sua estrela e o observador, ele diminui a luz da estrela. 3.325 planetas já foram descobertos dessa maneira.

  • Observação direta: os astrônomos podem produzir imagens de exoplanetas com observações diretas de suas estrelas, ao removerem o brilho ofuscante das estrelas fotografadas. 51 planetas foram descobertos assim, por enquanto.

  • Lente gravitacional: a luz de uma estrela distante é curvada e focada pela gravidade à medida que um planeta passa entre a estrela e a Terra. 108 planetas foram descobertos assim.

  • Astrometria: a órbita de um planeta pode fazer com que uma estrela oscile no espaço em relação às estrelas próximas no céu. Por enquanto, apenas 1 planeta foi descoberto com esta técnica.

Quando os astrônomos detectam o trânsito de um exoplaneta, eles podem determinar o tamanho da órbita e a dimensão dele. O nível de alteração do brilho da estrela também é importante para os cálculos, enquanto a temperatura estelar ajuda a avaliar as características da temperatura do planeta ao seu redor.

Com esses dados em mãos, os astrônomos podem então determinar o diâmetro e a sutil influência gravitacional que o planeta exerce sobre sua estrela. A partir disso, eles determinaram a massa, diâmetro e até mesmo quanto da energia irradiada por sua estrela atinge a superfície deste mundo. Isso abre as portas para estimar características muito além, tais como a temperatura atmosférica, nível de luz e a cor do céu, ou melhor, a cor que veríamos no céu se estivéssemos ali. Por fim, é possível saber a composição da atmosfera e até arriscar prever se há oceanos, mantos de gelo ou geleiras.

Agora vamos falar do Kepler, o telescópio espacial da NASA que chegou a observar 100 mil estrelas até ser aposentado em 2018. Dentre os exoplanetas encontrados por ele, mais de 80 são “semelhantes” à Terra, e alguns estão localizados na zona habitável de suas estrelas. Um estudo baseado nos dados do Kepler e no catálogo do Gaia, da Agência Espacial Europeia, sugere que a Via Láctea pode ter cerca de 10 milhões de planetas “semelhantes” ao nosso — mas isso não significa que sejam realmente parecidos com a Terra, como veremos a seguir.

Tipos de exoplanetas

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

Medindo os tamanhos e massas, os astrônomos determinam a composição dos exoplanetas e os classificam de acordo com essas características. Assim como no Sistema Solar, existem, por todo o universo, mundos rochosos (como a Terra), bem como aqueles ricos em gás (como Júpiter), mas também há diversas combinações diferentes desses elementos, formando planetas diferentes de tudo o que vemos no Sistema Solar. Alguns deles, inclusive, são tão grandes e de densidade tão baixa que foram apelidados de “super-puffs” ("super inchados", em tradução livre).

Há muitas outras características que podem variar de um planeta para outro, tornando-os únicos. Por exemplo, eles podem ser quentes o suficiente para ferver metal ou completamente cobertos de gelo. Podem conter chuva de elementos metálicos, ou serem desprovidos de atmosferas. Alguns podem ser dominados por água ou gelo, enquanto outros são dominados por ferro ou carbono. Há mundos de lava cobertos por mares derretidos, planetas com núcleos densos, e assim por diante.

Eles também podem orbitar suas estrelas tão rapidamente que um ano ali dura apenas alguns dias terrestres. Alguns orbitam duas (ou mais) estrelas ao mesmo tempo, enquanto outros simplesmente vagam pelo universo sem estarem “presos” à órbita de nenhum "sol", imersos em uma noite fria e eterna.

Exoplanetas “semelhantes” à Terra

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

A Terra é um planeta rochoso, assim como Mercúrio, Marte e Vênus. Quando se trata de um exoplaneta rochoso de tamanho aproximado ao da Terra, astrônomos o apelidam de “planeta terrestre”. Mas não se deixe enganar: o nome não indica que estes mundos são, de fato, parecidos com o nosso. A comparação diz respeito à composição, tamanho e massa, apenas. Para ser considerado terrestre, o exoplaneta deve ter entre a metade do tamanho da Terra e o dobro de seu raio, embora alguns sejam ainda menores. Até o momento de redação desta matéria, foram descobertos 164 planetas desse tipo, segundo a NASA.

Os planetas terrestres podem ser compostos de rocha, silicato, água e/ou carbono. É possível que tenham atmosferas, oceanos ou outros sinais de habitabilidade, mas esses não são requisitos para serem considerados terrestres. Eles tendem a ter uma composição dominada por rocha ou ferro e superfície sólida ou líquida, mas nem sempre esse líquido é água. Para que haja água em estado líquido, é necessário que estejam na região conhecida como zona habitável da estrela — nem muito perto, nem muito longe dela, a ponto de as temperaturas superficiais permitirem a existência de água líquida.

Há uma curiosa lacuna entre esses planetas rochosos, apelidada de lacuna de Fulton — nome que homenageia Benjamin Fulton, principal autor de um artigo que descreve esse fato. Os dados do Kepler mostram que os planetas com entre 1,5 e 2 vezes o tamanho da Terra são raros, e ninguém soube explicar o motivo disso até agora. É possível que isso ocorra porque, ao alcançarem o lado maior da lacuna, ou seja, ao ultrapassarem 2 vezes o tamanho da Terra, eles atraem mais hidrogênio e gás hélio, o que torna suas atmosferas mais espessas e os transforma em planetas gasosos.

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

Por enquanto, é difícil saber exatamente o que há nos exoplanetas rochosos de modo geral, mas futuros telescópios espaciais serão capazes de analisar a luz refletida por alguns deles, o que ajudará a determinar se há presença de água ou uma mistura de gases atmosféricos assemelhantes à nossa própria atmosfera. Saberemos também mais sobre a temperatura na superfície, entre outras características importantes para descobrir quais deles têm mais chances de sustentar a vida como a conhecemos.

Astrônomos estimam que podem existir mais de 10 bilhões de planetas terrestres em nossa galáxia. Contudo, uma análise das descobertas do Telescópio Espacial Kepler indicou que apenas 20% a 50% das estrelas têm probabilidade de possuírem planetas potencialmente rochosos em suas zonas habitáveis. Dados mais recentes mostraram que o número é provavelmente, ainda menor — entre 2% e 12%. Pode parecer pouco, mas, lembre-se, estamos falando de porcentagens de bilhões de estrelas.

De acordo com um pesquisa divulgada em outubro de 2020, cerca de metade das estrelas semelhantes ao nosso Sol (em questão de temperatura) poderiam ter um planeta rochoso capaz de suportar água líquida em sua superfície. Nossa galáxia provavelmente tem cerca de 300 milhões desses mundos potencialmente habitáveis, e alguns deles podem até ser nossos vizinhos interestelares, talvez a 30 anos-luz de distância.

Superterras

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

A categoria de superterras leva esse nome apenas para servir de referência ao tamanho de um exoplaneta. Ou seja, esses mundos rochosos são até 10 vezes maiores que a Terra, porém menores que Netuno, e muitas vezes não são nada semelhantes com nosso mundo natal. Na verdade, eles são bastante exóticos e há pouca certeza sobre eles, pois não há nenhum deles aqui, no Sistema Solar, ainda que sejam bem comuns em outros cantos da nossa galáxia. Sabemos, entretanto, que eles provavelmente não são habitáveis.

Apenas uma pequena parcela desses mundos pode ter chances de possibilitar a evolução de formas de vida e, ainda assim, os astrônomos precisarão escolher muito bem em qual superterra gastarão tempo de pesquisa para buscar por bioassinaturas (sinais químicos de que alguma forma de vida está presente no planeta em questão). Nesse sentido, há uma característica importante a ser considerada: a relação massa e tamanho. Essas medidas são muito importantes para que o planeta permaneça estável e, no caso das superterras, essa relação pode tornar o planeta inabitável.

Apenas para exemplificar um pouco as consequências dessa relação massa x tamanho, as superterras na faixa de 3 a 10 vezes a massa da Terra podem ter uma grande variedade de composições — podem ser aquáticas ou “bolas de neve”, podem ser mais parecidas com Netuno com uma camada enorme de gás denso, e as maiores das superterras podem ser tão distintas de nosso planeta que são às vezes chamadas de sub-Netunos ou mininetunos.

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

Talvez um planeta desses nem precise ser tão grande para se tornar exótico. Se um exoplaneta com quase o dobro da massa terrestre tiver densidade semelhante à da Terra, ele pode ter um raio apenas cerca de 30% maior do que o de nosso mundo e ainda ser rochoso, porém contando com uma camada imensa de respeitável de voláteis ao seu redor, com milhares ou milhões de vezes a pressão atmosférica da Terra. Por outro lado, alguns destes podem estar tão próximos de sua estrela-mãe que seus voláteis evaporam. Até o momento, foram descobertas 1.349 superterras.

Bem, dissemos que não há nenhuma superterra em nosso Sistema Solar, mas talvez essa afirmação esteja equivocada. Pode ser que haja uma ao redor do Sol, mas em uma órbita muito, muito distante. Há algum tempo, os astrônomos tentam descobrir se existe um Planeta Nove, um objeto muito massivo além da órbita de Netuno, porém em uma trajetória tão estranha e distante que não é possível encontrá-lo através da observação direta. Como estamos no Sistema Solar em uma órbita mais interna do que este mundo ainda hipotético, não é possível usar o método de trânsito para detectá-lo, mas, se ele de fato existir, poderia até ser uma superterra.

Exoplanetas netunianos

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

Os exoplanetas netunianos são semelhantes, em tamanho, a Netuno ou Urano, geralmente com atmosferas dominadas por hidrogênio e hélio, e núcleos com rochas e metais mais pesados. Para fins de comparação, Netuno tem cerca de quatro vezes o tamanho da Terra e quase 17 vezes sua massa. Os netunianos podem ter uma mistura em seus interiores, embora todos os núcleos sejam rochosos com metais pesados. Já foram encontrados 1.483 exoplanetas netunianos.

Decifrar esses planetas pode ser um pouco mais difícil, porque eles costumam orbitar suas estrelas a longas distâncias — e talvez seja necessário esperar muito tempo para que completem uma órbita para, assim, coletar dados de sua passagem em frente a suas estrelas. Além disso, exoplanetas netunianos costumam ter nuvens espessas que bloqueiam a entrada de qualquer luz, impedindo a coleta de dados que permitiriam aos astrônomos encontrar a assinatura das moléculas na atmosfera.

Uma feliz exceção foi o netuniano HAT-P-11b, descoberto em 2017. Ele não tinha nuvens para bloquear a visão, então os astrônomos puderam identificar moléculas de vapor de água na atmosfera do exoplaneta. O HAT-P-11b é gasoso e tem um núcleo rochoso. Sua atmosfera pode ter nuvens mais profundas, mas as observações combinadas dos telescópios Hubble, Spitzer e Kepler mostraram que a região superior está livre de nuvens.

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

Exoplanetas desta categoria têm muito mais chances de terem se formado bem longe de suas estrelas, perto das fronteiras de seus sistemas estelares, do que os outros tipos de exoplanetas. Mas existem alguns que quebram as regras — os chamados "netunos quentes", que orbitam pertinho de suas estrelas, alguns bem mais próximos do que a distância entre Mercúrio e o Sol. Infelizmente, para esses mundos, suas atmosferas gasosas são aquecidas a mais de 900 graus Celsius, o que faz com que seus gases evaporem por completo. Isso torna os netunos quentes bem raros, pois o invólucro denso de gases da maioria deles provavelmente já evaporou.

Ao encontrarem dois netunos quentes evaporando, astrônomos passaram a suspeitar que alguns netunianos mais quentes e mais distantes de suas estrelas podem ser uma classe de planetas em transição. Pode ser que o destino inevitável dos netunianos quentes seja encolher até se tornarem mininetunos, e talvez eles diminuam ainda mais para se tornarem superterras.

Contudo, os netunianos gelados ainda são a maioria. Na verdade, eles são provavelmente os tipos mais comuns de exoplanetas além da chamada linha de neve — a distância de uma estrela além da qual a água permanece congelada durante a formação planetária.

Júpiteres quentes

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

Existem também os exoplanetas gigantes gasosos, equivalentes a Júpiter e Saturno. Eles são compostos principalmente de hélio e/ou hidrogênio e podem estar mais próximos de suas estrelas, o que lhes garante o apelido de "Júpiteres quentes". Esses gigantes de gás fervente estavam entre os primeiros tipos de exoplanetas encontrados, porque eles fazem órbitas tão estreitas que causam uma “oscilação” pronunciada em suas estrelas, o que gera uma mudança notável no espectro de luz dessas estrelas. Hoje, há 1.373 gigantes gasosos oficialmente catalogados.

Júpiteres quentes são muito interessantes para os astrônomos porque eles podem revelar muito sobre a formação planetária, e talvez sobre o nosso próprio Sistema Solar. É que os pesquisadores suspeitam que o nosso próprio Júpiter já orbitou nosso Sol de pertinho, mas acabou se afastando até chegar à posição atual. Se isso for verdade, os cientistas poderão constatar essa dinâmica em outros sistemas estelares. Suspeita-se que eles se formam nos primeiros 10 milhões de anos da vida de uma estrela semelhante ao Sol.

Existem diferentes hipóteses para explicar como os júpiteres quentes foram parar tão perto de suas estrelas. Uma delas é que eles começam sua jornada, no início da história de seus sistemas planetários, enquanto a estrela ainda estava rodeada pelo disco de gás e poeira a partir do qual ela e o planeta se formaram. Assim, a gravidade do disco, interagindo com a massa do planeta, poderia empurrá-lo para dentro. Outra hipótese diz que júpiteres quentes chegam perto de sua estrela mais tarde, quando a gravidade de outros planetas os conduz à migração.

Super-puffs

(Imagem: Reprodução/Gerry Masana)
(Imagem: Reprodução/Gerry Masana)

Os super-puffs são bastante raros, mas o sistema estelar Kepler-51 abriga três deles, sendo descobertos em 2012, orbitando uma estrela parecida com o Sol. Por terem densidade equivalente à do algodão doce, recebem esse apelido que significa “super inchados”, em uma tradução livre. Esses planetas têm massa poucas vezes maiores que a massa da Terra, mas suas atmosferas de hidrogênio e hélio são tão grandes que eles ficam quase do tamanho de Júpiter.

Em outras palavras, eles têm volume gigantesco, mas pouco massivos. Os pesquisadores envolvidos no estudo dos super-puffs do sistema Kepler-51 descreveram a descoberta como algo “completamente inesperado”. Provavelmente, os exoplanetas do sistema Kepler-51 têm baixas densidades porque o sistema ainda é muito jovem. Como esses mundos estão muito próximos de sua estrela anfitriã, suas atmosferas devem evaporar nos próximos bilhões de anos, até que alguns deles se tornem uma versão menor e mais quente de Netuno.

Atmosferas alienígenas

(Imagem: Reprodução/NASA/ESA/L. Hustak)
(Imagem: Reprodução/NASA/ESA/L. Hustak)

Quando se fala em exoplanetas, não podemos deixar de reservar um espaço para falar sobre atmosferas, pois é através delas que os pesquisadores obtêm muitas informações importantes. Por isso, o Canaltech conversou com quem entende do assunto: a astrônoma Aline Novais, estudante de doutorado em astronomia e divulgadora científica; e a astrônoma Raissa Estrela, pesquisadora de pós-doutorado na NASA e parte da equipe que descobriu uma segunda atmosfera no planeta GJ 1132 b.

Na pesquisa sobre um determinado exoplaneta, há diferentes funções e abordagens. Aline, por exemplo, trabalha com algo chamado “espectroscopia de transmissão, que dá origem ao espectro da atmosfera daquele planeta que estamos observando”. O problema é que a tecnologia atual ainda não é “excelente para esse tipo de pesquisa”, então são raros os espectros atmosféricos reais em boa resolução. Por isso, ela também utiliza modelos atmosféricos.

Raissa, por sua vez, contou que, no trabalho sobre a atmosfera do GJ 1132 b, “foram necessárias contribuições de especialistas de várias áreas diferentes (espectroscopia de trânsito planetário, modelagem atmosférica, modelagem em interiores planetários, química da atmosfera e do magma)”. Abaixo, as astrônomas respondem algumas perguntas e explicam como este trabalho é feito, bem como a sua importância.

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

Canaltech: Como os astrônomos estudam as atmosferas de exoplanetas?

Raissa: "Como o próprio planeta praticamente não emite nenhum tipo de radiação, nossa detecção da atmosfera do planeta se dá de forma indireta: quando o planeta passa em frente a sua estrela, nós medimos a luz que vem da estrela e atravessa a atmosfera do planeta. Essa luz chega ao telescópio espacial trazendo informação se existe alguma absorção da luz por alguma molécula ou átomo na atmosfera do planeta."

CT: O que são modelos atmosféricos?

Aline: "Nós simulamos como seria a atmosfera daquele planeta a partir das poucas características que nós temos dele (espectro da estrela, distância à estrela, período, gravidade, massa, o que tiver disponível). Então construímos modelos a partir da física atmosférica que a gente conhece, e tentamos simular aquela atmosfera, muitas vezes criando um espectro sintético ("fake") que deve ser parecido com o espectro real."

CT: Como as atmosferas se formam?

(Imagem: Reprodução/NASA/Kepler Mission/Dana Berry)
(Imagem: Reprodução/NASA/Kepler Mission/Dana Berry)

Raissa: "A atmosfera de um planeta é formada durante o começo da formação do sistema planetário a partir do gás da nebulosa planetária, que fica “presa” ao planeta por gravidade. Com a evolução da estrela-mãe que passa a emitir mais irradiação, planetas menores podem acabar perdendo sua atmosfera primordial, pois os gases que a formam são muito leves como o hidrogênio e o hélio, e irão receber a energia suficiente para escapar da atração gravitacional do planeta.

A atmosfera desses planetas pode ser reformada posteriormente por atividades geológicas ou até mesmo por atividades biológicas. Planetas grandes o suficiente, como Júpiter, Saturno, Netuno e Urano, possuem gravidade suficiente para conseguir manter a atmosfera formada primordialmente."

CT: O que determina a composição atmosférica de um planeta?

Aline: "Normalmente dizemos que uma atmosfera tem várias etapas. A primeira etapa, a chamada atmosfera primária, é aquela atmosfera que se formou quando o planeta estava se formando. Nesse caso, sua composição é majoritariamente de H e He, os elementos mais leves, porém há traços de outros compostos também. A presença desses outros compostos depende da distância à estrela, o que determina a temperatura superficial daquele planeta, onde só vão existir compostos que não evaporam àquela temperatura. Esses compostos também vão para o interior do planeta, "preenchendo" ele. Uma vez formados, os planetas gasosos costumam manter essa atmosfera primária, mas os terrestres desenvolvem uma atmosfera secundária.

A massa e o raio do planeta (portanto a gravidade) seleciona quais compostos vão ser retidos na atmosfera primária, e quais terão velocidade suficiente para escapar da atmosfera (geralmente os mais leves). Para os planetas terrestres, desenvolve-se uma atmosfera secundária com uma composição diferente da inicial. Atividades geológicas também interferem na composição dessa atmosfera, como vulcanismo, tectônica de placas e "outgassing" (não temos tradução para isso mas é basicamente gás escapando de dentro do planeta para a atmosfera), trazendo material de dentro do planeta para a atmosfera.

No caso da Terra, ainda temos uma atmosfera terciária, que foi modificada mais ainda devido a um fator determinante: os seres vivos, pois nosso metabolismo modificou completamente a composição atmosférica do nosso planeta."

(Imagem: Reprodução/NASA/ESA/G. Bacon)
(Imagem: Reprodução/NASA/ESA/G. Bacon)

CT: Como a atmosfera afeta seu mundo?

Raissa: "A atmosfera é importante em vários aspectos. É ela quem vai regular o balanço energético e a temperatura do planeta. Vênus é um ótimo exemplo disso, pois é um planeta que tem o mesmo tamanho e massa que a Terra, mas sua atmosfera é rica em gás carbônico, que é um gás estufa, ou seja, dificulta o escape da radiação infravermelha para o espaço e torna o planeta num pequeno inferno. Já Marte quase não tem atmosfera, e portanto não consegue reter energia do Sol, e é muito frio hoje em dia."

CT: Por que Marte perdeu sua atmosfera?

Aline: "A gravidade de um planeta é determinante para reter sua atmosfera. Se a massa ou o raio for muito pequeno, algumas moléculas podem atingir a velocidade de escape do planeta e escapar para o espaço. Porém, no caso de Marte, o fato de ele ser muito pequeno causou outro problema: acredita-se que seu interior tenha se resfriado e, por isso, Marte não possui mais campo magnético próprio. A radiação e ventos solares interferem diretamente na atmosfera de Marte, sem o campo magnético para protegê-la. Então, basicamente os ventos/radiação solar "arrancaram" toda a atmosfera."

(Imagem: Reprodução/NASA/VIKING 1)
(Imagem: Reprodução/NASA/VIKING 1)

CT: Contem para a gente um pouco do dia a dia de quem estuda exoplanetas

Aline: "Bom, eu trabalho muito com códigos computacionais (utilizo o Python como linguagem), sendo criando ou apenas aplicando ele. São muitos dados, principalmente para quem trabalha com astronomia observacional (como eu), então tenho que acessar base de dados de telescópios, listas de reações/moléculas online, essas coisas todas entram no código. E a partir daí tento fazer análises de parâmetros atmosféricos (por exemplo, entender como um parâmetro X varia com um parâmetro Y), fazendo gráficos em Python e tal.

Outra coisa que faz parte do nosso dia a dia é ler e escrever bastante. Tento ficar a par das notícias atuais, principalmente porque a minha área é muito recente então coisas novas acontecem todo dia! Também é normal que um astrônomo (na verdade, qualquer pesquisador) esteja sempre escrevendo algum artigo. E isso demanda também muita leitura bibliográfica."

Raissa: "No meu caso, a maior parte do meu trabalho é diretamente no computador. Como analisamos dados observacionais, nós temos que desenvolver softwares em Python (ou usar softwares já disponíveis) para extrair e tratar os dados. Uma vez que temos os dados, nós podemos interpretar os resultados e publicá-los em artigos. Porém, também realizamos observações no observatório Palomar aqui na Califórnia, onde ficamos acordados a noite inteira para observar o trânsito de planetas em frente de sua estrela mãe, que é a técnica utilizada para analisar atmosfera de exoplanetas."

(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)
(Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

CT: Por que é tão importante estudar mundos distantes e suas atmosferas?

Raissa: "A atmosfera de outros mundos pode ajudar a entender se a evolução e processos geológicos que ajudaram a formar a atmosfera dos planetas terrestres do nosso Sistema Solar é similar ou diferente. Além disso, se queremos detectar vida em outros planetas, analisar a sua atmosfera é a melhor forma de sabermos se o planeta é habitável ou não. A atmosfera de um exoplaneta vai nos dar informação sobre sua temperatura, processos geológicos, além da possibilidade de detectar (ou nao) bioassinaturas (gases relacionados com a presença de vida, como o oxigênio e o metano)."

Aline: "Eu acho que, do ponto de vista 'filosófico', pensar que podem existir milhares de outros mundos lá fora desperta a curiosidade do ser humano. E é normal do homem sempre ir em busca do desconhecido. Se a tecnologia de hoje nos permite isso, por que não? Do ponto de vista científico, eu digo que a astronomia é muito mais importante no nosso dia a dia do que as pessoas pensam. 'Criamos;' o Wi-Fi detectando sinais de radiogaláxias, então acredito que nenhuma ciência feita é em vão.

Já do ponto de vista 'futurista', acredito que seja importante para a nossa sobrevivência mesmo. Nosso mundo vai morrer, seja por ação nossa ou da natureza, mas precisamos garantir que exista um lugar para nós fora da Terra. É claro que por enquanto a tecnologia não nos permite visitar exoplanetas (nós não fomos nem para Marte ainda), mas o objetivo não vai ser alcançado se todos não colaborarem."

Fonte: Canaltech

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