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Educação 360: "A maior transgressão que pude fazer na vida foi me tornar leitor", afirma o escritor Jeferson Tenório

·6 minuto de leitura

"A maior transgressão que pude fazer na vida foi me tornar leitor". A frase foi dita pelo professor Jeferson Tenório, em sua palestra "O avesso da pele", que abriu o segundo dia do Educação 360 Internacional. O evento, que coloca em debate temas urgentes do campo da educação, aconteceu nos dias 14 e 15 de setembro, em versão totalmente on-line e gratuita.

O Educação 360 Internacional é uma realização dos jornais O GLOBO, Extra e Valor Econômico, com patrocínio do Grupo SEB, apoio do Itaú Social e apoio institucional de Unicef, Unesco, Futura e Fundação Roberto Marinho.

CLIQUE E ASSISTA ÀS PALESTRAS DO SEGUNDO DIA DE EVENTO

Tenório afirmou na palestra de abertura que as produções literárias são fundamentais para promover transformações em uma sociedade profundamente racista, como a brasileira.

— Eu não tive acesso aos livros na infância de maneira fácil, fui um leitor tardio. Comecei a ler ficção e literatura na vida adulta quando entrei na faculdade de Letras — relatou. — O que me fez ficar tanto tempo longe dos livros? É claro que isso tem uma explicação sociológica dentro de uma estrutura que coloca determinadas pessoas em um lugar de exclusão. Estou falando da população negra. Uma estrutura que faz com que essas pessoas fiquem sempre à margem do acesso aos bens culturais.

Autor de diversas obras que tratam dessa temática, o escritor, em seu livro mais recente, "O Avesso da Pele", traz um personagem que narra as abordagens policiais sofridas pelo pai ao longo da vida, sempre permeadas pelo racismo.

Ao longo de sua fala, Tenório defendeu que, além de escutar e aprender sobre racismo, as pessoas brancas precisam se engajar na luta contra o preconceito e agir. Segundo o escritor, é preciso que exista uma política de Estado robusta para formar os professores para essa discussão.

— Hoje na sociedade temos uma grámatica antirracista que me parece quase natural. Dificilmente você vai encontrar pessoas que não tenham ouvido falar em racismo estrutural ou privilégio branco. Essa gramática já faz parte do nosso vocabulário. Há um discurso de pessoas brancas dizendo que estão aqui para ouvir e aprender, o que é ótimo. Mas é preciso colocar também outro verbo aí: agir. E agir significa ter uma postura antirracista — reflete Tenório.

A escola tem cor?

Logo em seguida, o Educação 360 Internacional recebeu quatro convidados para o debate "A escola tem cor? Racismo sistêmico na educação". Na avaliação deles, os sistema educacional brasileiro ainda é racista, o que prejudica crianças negras, ampliando desigualdades e atrasando o desenvolvimento do país.

— É urgente pensar uma escola a partir de outra perspectiva que não seja a que temos hoje. Um projeto de humanidade no qual a gente consiga viver com várias humanidades — analisou Kelly Quirino, professora da UnB, pesquisadora e consultora de gênero e raça.

O debate teve ainda a presença de Julio Tavares, professor de Antropologia da UFF e pesquisador do Laboratório de Estudos Negros PACC/UFRJ; Samuel Emílio, ativista pela educação e consultor em diversidade e inclusão; e Vanderléia Reis, professora e pesquisadora das relações étnico-raciais e de gênero.

Na avaliação de Tavares, a perspectiva atual traz um trauma desde os jesuítas transmitindo valores éticos centrados na tradição europeia de experiência caucasiana. A preocupação central sempre foi de iluminar valores eurocêntricos e apagar os não-eurocêntricos:

— Isso gera uma tensão entre apagamento e lembrança mesmo quase 200 anos depois da descolonização — afirmou.

Na análise de Vanderléia Reis, a escola tem cor. Na biblioteca, segundo pesquisa realizada por ela em escolas públicas, a escola é branca. Na portaria e nas cozinhas, negra:

— A gente precisa pensar quais são as referências imagéticas que existem no interior da escola.

De acordo com ela, menos de 10% do acervo da biblioteca era de autores negros e 0,3% indígenas.

Além do currículo e da falta de referências imagéticas, as crianças negras ainda são prejudicadas, na avaliação de Samuel Emílio, pelo modelo colonialista e essencialmente racista da escola, no qual — via de regra — já se espera menos desses estudantes:

— Na sala de aula, a própria escola acredita que, por ser negro, o aluno vai ter mais dificuldade e menos sucesso. E por ter menos pessoas acreditando nele, o aluno também acredita menos em si. Isso gera baixa autoestima e pouco senso de pertencimento.

O problema maior, segundo o pesquisador, é que o modelo atual de escola é desenhado para entregar os resultados que ele tem produzido: a desigualdade de oportunidade entre alunos negros e brancos.

No encontro, os participantes ainda apontaram caminhos para a superação desse paradigma de escola que aprofunda a desigualdade entre alunos negros e branco. A avaliação do professor e antropólogo Julio Tavares é a de que o Brasil precisa reconhecer que vive um apartheid e precisa de uma política de estado que promova letramento racial.

— Uma vez classificado, vamos definir uma política de estado que começa numa grande proposta de iluminação, acabar com o apagamento, desse regime de apartheid. Ela deveria atingir todas as áreas e o eixo central é o letramento racial, não só escolar, mas também no campo dos negócio, das instituições jurídicas, da diplomacia. Letramento racial é dar visibilidade à exclusão racial e aos privilégios da branquitude.

Ensinar empatia

Quais devem ser os principais objetivos de uma escola? Mais do que levar os estudantes a terem sucesso na vida acadêmica e profissional, na visão do professor da Escola de Educação de Havard, Richard Weissbourd, as instituições de ensino devem centrar esforços em fazer com que seus alunos sejam pessoas empáticas, preocupadas com o outro e dispostas a lutar por justiça social.

Durante sua fala no painel "Uma questão de justiça: criar e educar crianças e jovens que se preocupam com os outros e com o bem comum", Weissbourd defendeu que a comunidade escolar volte os olhos para a promoção da cidadania.

O educador defende que crianças sejam ensinadas desde cedo a valorizar as diferenças e desenvolvam habilidades sociemocionais como a solidariedade e a preocupação com o outro. Para ele, esse é o caminho para o desenvolvimento de uma educação plena.

— Não há nada mais importante na hora de criar crianças do que a justiça e o bem comum. O que será do mundo se não fizermos um trabalho melhor para criar nossos filhos? — questionou. — Parte desse trabalho ocorre desenvolvendo o caráter das crianças, ensinando-as a cuidar das pessoas que são diferentes.

Weissbourd é um dos diretores do projeto "Making Caring Common", que pretende levar essa filosofia para as escolas. Criado em 2013, ele tem como objetivo desenvolver uma visão empática nas crianças. A iniciativa atua diretamente com escolas para desenvolver habilidades ligadas à solidariedade e promoção da cidadania. Além disso, também atua realizando pesquisas sobre o tema e promovendo debates na área.

Uma de suas ações foi a criação de um programa gratuito para escolas lidarem com os efeitos da pandemia de Covid-19. A iniciativa pretendia melhorar a comunicação entre escola e família e evitar desconexão dos alunos com o contexto social.

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