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Edição genética tem potencial para tratar qualquer tipo de câncer, sugere estudo

Fidel Forato

Dificilmente, pesquisadores chegarão a uma cura do câncer. Isso porque o câncer não é uma única doença e, sim, um grupo de doenças que recebem esse nome, de forma geral. Por exemplo: o câncer de pulmão é diferente do câncer de pele, mesmo que a base dos dois cânceres seja a mesma, que é a multiplicação de células cancerígenas, formando os tumores. Em cada tipo de tecido, a resposta para esses tumores deve ser diferente.

No entanto, pesquisadores do País de Gales chegaram a um novo entendimento sobre como funcionam determinadas células do sistema imunológico humano e, a partir disso, podem ter descoberto uma forma de tratamento, potencialmente aplicável em todos os tipos de cânceres, pois age no mecanismo de proliferação das células malignas.

Segundo a equipe da Universidade de Cardiff, é possível utilizar esse metódo no tratamento de cânceres de próstata, mama, leucemia e pulmão, por exemplo, com o uso da ferramenta CRISPR, de edição dos genes em laboratório.

A afirmação foi feita depois de uma série de testes in vitro, e as descobertas á foram publicadas na revista Nature Immunology. Mesmo que a novidade ainda não tenha sido testada em pacientes, os pesquisadores alegam que a descoberta tem "um enorme potencial", mesmo no estágio inicial de pesquisa.

Cinetistas testam possível descoberta para o tratamento universal do câncer (Foto: Reprodução/ Meatable)

O que eles encontraram?

O sistema imunológico humano é a defesa natural do corpo contra infecções e, naturalmente, ataca células cancerígenas, só que esse processo não era totalmente conhecido e pode ainda ser estimulado. Então, os cientistas do País de Gales procuraram por maneiras "não convencionais" de induzir o funcionamento do sistema de defesa, focando na atuação das células T, presente nos leucócitos (glóbulos brancos) do sangue, com o uso da edição genética.

As células T integram o sistema imune e podem escanear o corpo humano, avaliando potencias ameças que devem ser eliminadas. Outros estudos com essas mesmas células procuram desenvolver tratamentos contra o HIV, por exemplo. Ou seja: a partir da análise de linfócitos, os cientistas conseguem um "laudo" do que há de errado nos tecidos e onde mutações estão começando.

Existem também aplicações para essas células tratamento de alguns tipos de câncer, considerados sólidos. Um exemplo é o CAR-T, um medicamento "vivo", fruto da engenharia genética com as células T de um paciente. No entanto, não funciona para a leucemia, que é um câncer que, apesar de se espalhar pelo sangue, não forma tumores.

"Há uma chance aqui para tratar todos os pacientes", explica o pesquisador responsável pela pesquisa Andrew Sewell. Segundo o cientista, a descoberta "aumenta a perspectiva de um tratamento contra o câncer de 'tamanho único'", afinal uma única célula T "pode ser capaz de destruir tipos diferentes de câncer em toda a população".

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Entenda as células T

Receptores — proteínas que em determinadas circunstâncias ativam as células — nas células T, que compõem a linha de defesa do organismo, permitem a análise do corpo, em um nível químico, identificando tumores. Agora, a equipe da Cardiff descobriu que essas células e seus receptores poderiam, além de localizar, também eliminar uma grande variedade de células cancerígenas. Mesmo que, por enquanto, tudo aconteça em testes de laboratório, a ideia é que com um empurrão dos cientistas, seja possível escalar esse mecanismo para um organismo humano, sem afetar as células saudáveis do mesmo tecido.

Os pesquisadores ainda estudam todos os detalhes desse processo. O que se sabe é que os receptores das células T interagem com uma molécula chamada MR1, que está na superfície das células do corpo humano. Por isso, há o potencial da técnica auxiliar em todos os tipos de cânceres.

A hipótese é que a MR1 alerte, diante os sinais de uma célula cancerígena, o sistema imunológico. "Somos os primeiros a descrever uma célula T que encontra MR1 em células cancerígenas — isso nunca foi feito antes, é o primeiro estudo do tipo", comenta outro pesquisador que participou dos testes, Garry Dolton.

Como funcionaria?

Para os tratamentos, a ideia é que uma amostra de sangue seja retirada de cada paciente com câncer. Então, as suas células T seriam extraídas dessa amostra e depois geneticamente modificadas, com a ferramenta CRISPR, para serem reprogramadas, produzindo o receptor específico para detecção (e ataque) de cada câncer.

As células atualizadas seriam cultivadas em grandes quantidades, em laboratório, e depois colocadas de volta no paciente, como um transplante. Por enquanto, esta técnica foi testada apenas em animais e tecidos em laboratório, ou seja, mais verificações de segurança são necessárias antes que os testes em humanos comecem.

Lucia Mori e Gennaro de Libero, da Universidade de Basileia, na Suíça, concordam que a pesquisa tem "um grande potencial", mas ainda está em um estágio muito inicial para se afirmar que funcionaria em todos os tipos de câncer. "Estamos muito animados com as funções imunológicas dessa nova população de células T", comentam.

Daniel Davis, professor de imunologia da Universidade de Manchester, comenta que "no momento, essa é uma pesquisa muito básica e não está próxima dos medicamentos atuais para os pacientes. Davis esclarece que "não há dúvida de que é uma descoberta muito empolgante, tanto para aprimorar nosso conhecimento básico sobre o sistema imunológico quanto para a possibilidade de futuros novos medicamentos."

Novos testes e novas pesquisas ainda precisam ser conduzidos até que seja confirmada a compatibilidade (e o sucesso) da técnica em humanos.

Fonte: Canaltech

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